Historiadora revê a batalha cartográfica que definiu fronteiras do continente

Júnia Ferreira Furtado mescla sua pesquisa com a história de personagens como o geógrafo D'Anville

Elias Thomé Saliba, Especial para O Estado de S. Paulo

06 Junho 2014 | 20h48

No início do século 18, com o envelhecimento do Tratado de Tordesilhas, exacerbaram-se os conflitos pela demarcação de territórios na América entre Portugal e Espanha. Iniciou-se, então, uma verdadeira batalha cartográfica e diplomática que redundou no Tratado de Madri o qual, em 1750, aboliu o diploma de Tordesilhas e definiu novas fronteiras. Como costuma ocorrer em toda história, esta batalha cartográfica resultou em vencedores e perdedores. Entre os últimos ficou a Carte de l’Amérique Meridionale, um mapa valiosíssimo que se transformou numa espécie de tesouro perdido na história da cartografia brasileira.

Calcado em irrepreensível pesquisa, O Mapa Que Inventou Brasil, da historiadora Júnia Ferreira Furtado, é a história da intrincada elaboração deste mapa, mesclada com a narrativa das vidas dos incríveis personagens envolvidos no processo. O primeiro foi o diplomata Dom Luis da Cunha.

Perfeitamente sintonizado com as ideias iluministas e colecionador de mapas e instrumentos de medição, foi ele quem concebeu e patrocinou, além do famoso mapa, instituições, como a livraria Régia, e uma série de outras iniciativas antecipadoras da política pombalina. Atuando como representante diplomático português na França, foi neste país, em salões frequentados por gente como Rousseau, D’Alembert, Fontenelle e Helvetius, que ele se encontrou, por volta de 1720, com o seu aliado ideal naquela guerra da persuasão cartográfica: o geógrafo francês Jean-Baptiste Bourguignon D’Anville. Sábio precoce, D’Anville tornou-se geógrafo do rei da França, em 1719, ainda aos 22 anos. 

O autor do famoso mapa foi um dos últimos grandes geógrafos franceses de gabinete. É que, com a criação das escolas militares, ocorreu a divisão entre os engenheiros militares que faziam medições de terras, baseadas em instrumentos e observação direta, e os geógrafos herdeiros da tradição renascentista, os quais, confinados em seus gabinetes produziam, a partir de fontes diversas, mapas de grandes extensões envolvendo países, continentes e planisférios. 

Mas não foi apenas desta parceria entre um geógrafo famoso e um diplomata erudito que nasceu a Carte de l’Amérique. Um dos mais importantes relatos que serviram de base para cartografar um amplo território foi escrito por três irmãos que insistiram em permanecer incógnitos, assinando-se como “irmãos Nunes”. Na verdade, os três eram cristãos-novos que, atuando como comerciantes de escravos, couro e tabaco, permaneceram cerca de 15 anos em Minas Gerais, circulando entre esta capitania e Salvador.

Nesse período, testemunharam acontecimentos que convulsionaram os primeiros tempos do povoamento daquelas regiões – incluindo a Guerra dos Emboabas – deixando como legado um relato tão detalhado que se transformaria na principal fonte de d’Anville. A história dos irmãos Nunes já vale por si: dois dos irmãos acabaram aportando em terras inglesas, mas um deles, Diogo, voltou para Lisboa em 1729 e, naquele clima de perseguição inquisitorial, apresentou-se ao Santo Oficio. Condenado, recebeu uma pena leve, isenta de sequestro de bens. Mas acabou, afinal, proibidíssimo de voltar ao Brasil. 

O mapa não era um espelho fiel do território colonizado pelos portugueses. Apesar dos imensos vazios que ele deixava, preenchidos por lugares mitológicos, como o lago Xarais ou a Serra das Esmeraldas, ele delineava uma nova imagem da América portuguesa ao traçar uma linha imaginária de fronteiras, que não correspondia à realidade, mas sim aos novos limites concebidos pelo diplomata Dom Luis da Cunha, os quais serviriam em futuras negociações. Numa sequência de imagens capaz de encher os olhos de qualquer gourmet historiográfico, Júnia Furtado narra, em detalhes, toda a intrincada história da elaboração deste que foi o primeiro documento a configurar o Brasil como um gigantesco território que se estendia, no sentido norte-sul, do atual Amapá e da serra de Rondônia, até a foz do rio da Prata. 

O mapa teve a sua versão final em 1748, mas não foi utilizado nas negociações do Tratado de Madri. Perdeu para o chamado Mapa das Cortes – um tanto inferior em termos cartográficos, mas baseado noutra concepção geopolítica. Para Dom Luís, que patrocinou o mapa de d’Anville, era necessário apresentar o território com maior acuidade, partilhando com os representantes espanhóis os conhecimentos que os portugueses ali reuniram, e encaminhar diplomaticamente a solução dos conflitos. 

Por outro lado, para o pragmático Alexandre de Gusmão, contudo, impunha-se a necessidade de escamotear as reais feições do território, de modo que o relativo desconhecimentos dos espanhóis fizesse com que aceitassem as condições portuguesas. 

Na batalha cartográfica venceu o pragmatismo e o mapa caiu em relativo esquecimento. Muitos apontaram apenas suas imprecisões, que estavam na ordem de apenas um grau de latitude ou de longitude – o que era pouco para a geografia de gabinete daquela época. No final do século 19, Barão do Rio Branco chegou a invocá-lo nas negociações como o Suriname, em 1897, mas tratava-se de uso indevido, pois ele apenas servia de prova de que os limites ali desenhados realmente existissem, deixando de lado o fato de que o mapa havia realmente se adiantado ao espaço que representava, inventando o Brasil. 

O MAPA QUE INVENTOU O BRASIL

Autora: Júnia Ferreira Furtado

Editora: Versal (456 págs., R$ 249)

Elias Thomé Saliba é historiador, professor da Usp e autor, entre outros, de Raízes do Riso

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