EDITORA DARKSIDE
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Graphic novel 'Meu Amigo Dahmer' revela a face de um serial killer

Recém-lançado no Brasil, livro fala da adolescência de um assassino que violentou e matou garotos nos EUA

Pedro Rocha, Especial para O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2017 | 03h00

Histórias sobre assassinos são complicadas de se retratar. Por isso, para contá-las, ninguém melhor do que quem conviveu com os criminosos. É o caso de Meu Amigo Dahmer, graphic novel do norte-americano Derf Backderf, lançada no Brasil recentemente pela DarkSide, editora dedicada ao terror. 

O livro é um relato do autor sobre a adolescência do seu famoso colega de ensino médio, Jeffrey Dahmer, condenado em 1992 pelo assassinato de 15 homens e garotos entre 1978 e 1991. Acredita-se, porém, que o número real de mortes seja ainda maior. Dahmer, cujos crimes envolviam prática de estupro, necrofilia e canibalismo, foi morto em 1994 por um colega de prisão. 

Em seus desenhos, o autor mostra o retrato de como foi crescer nos EUA nos anos 1970 – e de como jovens eram negligenciados, a ponto de um serial killer nunca ter chamado a atenção dos adultos. “Certamente, existem lições em Meu Amigo Dahmer, mas não acho que os EUA estão interessados em aprendê-las, infelizmente”, diz Backderf em entrevista ao Estado, por e-mail. “Mas vale trazer alguns debates”, completa o quadrinista, ao relembrar casos mais recentes de tragédias envolvendo jovens em escolas do país.

Por ser jornalista, Backderf teve um cuidado especial para produzir Meu Amigo Dahmer. Além das suas próprias lembranças, Derf conversou com amigos para relembrar acontecimentos e consultou centenas de arquivos oficiais sobre o caso, assim como publicações e entrevistas do serial killer e seus familiares. O autor só desenhava uma cena se ela fosse confirmada por pelo menos duas fontes diferentes.

Toda a pesquisa fez o processo de produção do livro, que começou após a morte do assassino, durar 20 anos. “Pesquisei por uns 18 anos, enquanto trabalhava com outras coisas, até finalmente sentar para começar a desenhar”, relembra. 

Além do cuidado com as fontes, Backderf precisou se precaver para não romantizar o jovem Dahmer, que até hoje, estranhamente, tem dezenas de fãs. O livro termina com o primeiro assassinato. No prefácio, o autor esclarece que é ali que se encerra qualquer simpatia pelo jovem. “Ele escolheu se tornar um assassino e levar infelicidade a incontáveis pessoas”, escreve. 

“Há muitos fãs de Dahmer por aí. Curiosamente, de modo geral, são jovens mulheres”, explica. “Eu mostro Dahmer como um jovem que sucumbiu à loucura e perdeu sua humanidade, até que não houvesse nada além do monstro.” Tal forma de relatar a história, segundo o quadrinista, não agradou aos fãs do serial killer. “Eles não ficaram muito felizes com a história porque não se encaixa em suas fantasias”, acredita. “Mas é estranho, eu não entendo”, diz sobre o fanatismo. 

Quem também não ficou muito contente com o livro, de acordo com Derf, foram os diretores atuais da escola em que eles estudaram e onde se passa boa parte da história, o Colégio Revere, na pequena cidade de Bath, em Ohio. “A escola ainda tem alguns problemas, é conhecida como ‘Escola Dahmer’. Eu não sou o egresso favorito deles”, brinca. Bath, porém, seguiu em frente. Poucos são os efeitos da história de Dahmer na cidade. “Foi há muito tempo, a maior parte dos adultos da época já se foi.”

A história de Backderf, agora, vai ganhar os cinemas, com um filme dirigido por Marc Meyers e rodado na própria Bath, na casa real em que viveu Dahmer. No papel principal, o astro da Disney Ross Lynch, que surpreendeu pela semelhança. “Sentei com Lynch para conversar e tive que pedir para ele tirar os óculos, estava me assustando.” Derf só conseguiu ficar no set do filme por um dia. “Era demais para lidar.”

MEU AMIGO DAHMER

Autor: Derf Backderf

Editora: DarkSide (288 páginas, R$ 59)

Nova editora aposta em livros clássicos de terror e fantasia

Responsável pela publicação de Meu Amigo Dahmer no País, a editora DarkSide ficou conhecida por focar em livros de terror e fantasia, com edições bem elaboradas, coloridas e com desenhos, por vezes, exclusivos. “Sempre fomos fãs destes segmentos e o Brasil nunca teve uma editora 100% voltada a esses gêneros”, explicam Christiano Menezes, diretor editorial, e Chico de Assis, diretor comercial da DarkSide. 

“Nosso marketing é prezar pelo produto final; o design é uma ferramenta para novos formatos no negócio editorial”, afirma, ao justificar o grande investimento nas edições, mesmo em tempos de crise. “Naturalmente, a crise é uma preocupação, afinal o poder de compra do leitor foi afetado e ele precisa fazer escolhas ao definir qual título poderá comprar.” Lançado em 2017 no Brasil pela editora, Fragmentos do Terror, do japonês Junji Ito, foi o best seller da recente promoção da loja Amazon. Em cinco anos, a DarkSide já lançou quase 100 obras, 27 só em 2016. O número, segundo a empresa, deve ser ainda maior este ano. A editora já adaptou Twin Peaks e Star Wars.

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