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Grandes livrarias se recusam a comercializar o livro 'Minha Luta'

Obra máxima do nazismo foi lançada pela editora Centauro em janeiro e vendeu mais da metade da primeira tiragem apenas no comércio online

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Amilton Pinheiro,
ESPECIAL PARA O ESTADO

23 Janeiro 2016 | 03h00

As maiores livrarias do Brasil (Saraiva, Cultura, Travessa e da Vila) decidiram não vender em suas lojas físicas e virtuais a edição impressa de Minha Luta, de Adolf Hitler, lançada pela editora Centauro e disponível no mercado desde o dia 4 de janeiro. Uma das obras mais polêmicas já publicadas, entrou em domínio público este ano e vem gerando debates sobre a necessidade de sua reedição para um público mais amplo.

A Saraiva e a Livraria Cultura preferiram não explicar os motivos, dizendo apenas se tratar de uma ação comercial.

Já o diretor de Comunicação e Marketing da Livraria da Travessa, Benjamin Magalhães, explicou que não cadastrou a edição da Centauro em suas unidades para a venda porque esta não traz comentários ou notas explicativas contextualizando o conteúdo livro. “Vamos vender em nossas unidades apenas as edições comentadas e contextualizadas. Assim, pretendemos comercializar a edição a ser lançada pela Geração Editorial, que vai trazer essas informações junto com o conteúdo de Minha Luta”, afirmou. “Consideramos de extrema necessidade explicar o conteúdo de uma obra tão polêmica.”

A Geração promete lançar em março sua edição (que vai ter cerca de mil páginas e com tradução de William Lagos) a partir de uma edição norte-americana editada em 1939. O volume terá 354 notas explicativas, além de dois textos introdutórios de especialistas e uma nota do publisher da editora, Luiz Fernando Emediato, em que apresenta sua justificativa para lançar a obra.

Já Flávio Seibel, diretor Comercial da Livraria da Vila, prefere esperar pelo volume comentado da Geração. “Se nosso departamento comercial decidir vender essa edição, vamos cadastrá-la em nosso sistema para uma eventual procura tanto em nossas lojas físicas como na venda por internet.”

Para Seibel, o conteúdo do livro traz o pensamento de seu autor. “Não estamos aqui para julgar e nem para condenar nada. Não podemos deixar de vender livro nenhum. Já comercializei livros que negam o Holocausto”, afirma.

Por outro lado, a livraria Martins Fontes comercializa a edição lançada pela Centauro em sua loja da Avenida Paulista, além de atender pedidos pela internet. “Não podemos julgar se vamos ou não vender um livro por causa do seu conteúdo. O livro, apesar do racismo e de inverdades, é um documento histórico e, como tal, é importante”, disse o diretor executivo Alexandre Martins Fontes.

Ednilson Xavier, diretor da Livraria Cortez, que tem uma unidade em São Paulo, revelou que não comercializa o volume da Centauro por problemas de distribuição da própria editora. “Por se tratar de uma empresa pequena, a Centauro tem dificuldades em distribuir seus livros para livrarias menores. Se não fosse isso, teríamos certamente o livro em nossa loja.”

Proprietário da Centauro, Adalmir Caparros Fagá revelou que, mesmo não conseguindo vender sua edição de Minha Luta, traduzida por Klaus von Puschen, em 2001, nas grandes redes, já comercializou mais da metade da primeira tiragem de 6 mil exemplares em livrarias virtuais, como a Livro Bom e Barato (LBB) e a Estante Virtual, que vende livros novos e usados dos sebos. “Cerca de dois mil livros foram comprados pelo LBB e, em média, estamos vendendo 30livros por dia. Por causa disso, já planejamos uma segunda reimpressão.”

Editores. Os editores ouvidos pela reportagem do Estado, em sua maioria, são contrários à publicação de Minha Luta. Jacó Guinsburg, dono e fundador da Perspectiva, acredita que o texto de Hitler é infame e maldito. “Jamais iria editar Minha Luta ou qualquer livro que negue ou faça apologia ao Holocausto, uma das mais tristes páginas de nossa história”, disse. Também contrário à reedição da obra, Otávio Costa, da Companhia das Letras, justificou: “Não queria ter no meu currículo o fato de ter sido editor de um livro de Adolf Hitler, muito menos o fato de ter ajudado a difundi-lo”.

Carlos Andreazza, editor executivo da Record, pensa diferente. “Não se trata de difundir ou não um livro”, explica. “Afinal, seu texto sempre esteve disponível e ainda hoje é facilmente encontrado na rede. E aqui surge uma reflexão importante: o editor é um mediador, um intermediário de excelência, e uma das funções consiste em qualificar essa difusão.”

Em um dos textos introdutórios que vão figurar na edição a ser lançada pela Geração Editorial, Eliane Hatherly Paz, professora da PUC do Rio de Janeiro, entende que a publicação do livro “é a melhor forma de combater leituras equivocadas ou uma possível exaltação da obra de Hitler”.

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