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Fotógrafa Vivian Maier ganha nova biografia

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

06 Julho 2014 | 02h 00

Artista era babá, mas gostava mesmo era de fotografar gente comum

O que se sabe dela é pouco. Descrita por quem a conheceu como uma espécie de Mary Poppins excêntrica, que vestia casacos pesados no verão e sapatos de encanador, Vivian Maier (1926-2009) passou seus 83 anos de vida na mais completa obscuridade. Nascida em Nova York, em 1926, ela viveu na França com a mãe após a separação dos pais, voltando à cidade natal aos 25 anos. Em 1951, uma mulher sozinha, sem formação, tinha poucas chances de trabalho decente na metrópole. Ela, então, decidiu trocar Nova York pelo subúrbio de Chicago cinco anos depois, arranjando um emprego de babá. Passou 40 anos cuidando de crianças e, nas horas vagas, fotografando gente comum como ela, tanto nas ruas de Nova York como de Chicago. Morreu num asilo.

Nem mesmo essa breve biografia era conhecida quando o corretor de imóveis John Maloof, também historiador, descobriu numa casa de leilões, entre móveis e antiguidades, uma caixa com negativos. Maloof conta que estava pesquisando para escrever um livro sobre a zona noroeste de Chicago quando o acaso o colocou diante de um tesouro com 30 mil negativos e 1.600 rolos de filmes não revelados. Inicialmente, não deu muita importância à caixa, pela qual pagou algo em torno de US$ 400 (R$ 890), mas a qualidade das imagens era tão óbvia que ele se sentiu compelido a aprender fotografia e conseguir informações sobre a autora das fotos, cujo nome viu impresso num envelope da caixa.

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Vivian era uma outsider por opção

Descobriu que Vivian era uma outsider por opção - ou por causa de sua difícil personalidade. O dono da loja de fotografia onde comprava rolos de filmes a descreveu como do tipo "mantenha distância". Seu obituário no Chicago Tribune, em 2009, era lacônico: "Vivian Dorothea Maier, de origem francesa e moradora em Chicago nos últimos 50 anos, morreu em paz na última segunda-feira. Foi uma segunda mãe para John, Lane e Matthew". O jornal ainda a descrevia como uma mulher de mente aberta e sempre pronta a dar uma opinião. De fato, pelo tanto que se sabe, Vivian se considerava crítica de cinema - especialmente do europeu, não ligando muito para os filmes americanos, segundo Maloof, que hoje acumula mais de 100 mil negativos da fotógrafa em sua coleção.

Analisando as paisagens e tipos urbanos de Vivian Maier, é possível atestar que o cinema neorrealista italiano e a nouvelle vague francesa foram duas portas de entrada para a fotografia da babá, uma socialista com olhar para os despossuídos da urbe, registrados no livro Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua, que a editora Autêntica coloca nas livrarias. Simultaneamente, nos EUA, são lançados mais dois livros sobre ela, Vivien Maier: Out of Shadows (City Files Press, US$ 60) e Vivian Maier: Self Portraits (Powerhouse Books, US$ 50).

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Vivian Maier, lembra o crítico inglês Geoff Dyer no prefácio do livro, aprendeu, como babá, a espreitar a vida doméstica

O último é bastante revelador sobre a obsessão da fotógrafa por autorretratos e seu imaginário cinematográfico. O autorretrato reproduzido nesta página evoca, voluntariamente ou não, a cena de Rita Hayworth no espelho em A Dama de Xangai, de Orson Welles, assim como a foto maior, do casal beat, lembra o do primeiro filme da nouvelle vague francesa, Le Beau Serge (Nas Garras do Vício, 1958), de Chabrol. É possível, além de fotógrafos de cinema como Rudolph Maté ou Henri Decaë, notar a influência de mestres como Edward Steichen, Dorothea Lange, Walker Evans, Eugene Smith e Wegee - especialmente os quatro últimos - na construção da cena e escolha dos personagens de Vivian. São quase todos outsiders, como ela, ou mulheres da classe alta, que servem de contraponto aos bêbados e proscritos captados por sua Rolleiflex (posteriormente ela usaria outros tipos de câmeras, inclusive uma sofisticada Leica IIIc, o que prova sua necessidade de aprimorar estilo e técnica).

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Nos autorretratos, segundo análise da crítica Maria Popova, estaria a resposta para a reclusão de Vivian Maier.

Nos autorretratos, segundo análise da crítica Maria Popova, estaria a resposta para a reclusão de Vivian Maier. Décadas antes de Diane Arbus e da onda dos "selfies", a fotógrafa se colocava diante da câmera como um desafio à solução de seu enigma (muitos autorretratos, inclusive, são sombras projetadas). "É humano tentar interpretar o semelhante, e eu não sou imune a essa tendência", admite Popova, antes de arriscar que Vivian buscava na arte um veículo de conexão, de pertencimento social. "Suspeito que ela fosse lésbica e que sua integração à sociedade só fosse possível através da lente de uma câmera." É só especulação, mas faz sentido. No entanto, os adultos que foram cuidados por ela quando crianças a descrevem como um tipo intrépido, atirado, que pedia carona no furgão do leiteiro para levar as crianças à escola e por vezes trazia para casa uma cobra morta, atiçando a curiosidade dos pequenos.

Quem contou isso ao colecionador Maloof foi uma das crianças de quem ela cuidou nos anos 1950, citadas no obituário do Chicago Tribune: John, Matthew e Lane Gensburg. Vivien não tinha família e os irmãos Gensburg, em sua velhice, deram amparo à fotógrafa, pagando a casa de repouso onde morreu, após cair e bater a cabeça num pedaço de gelo, no centro de Chicago. Sem dinheiro para pagar o depósito onde guardava os inúmeros chapéus, câmeras e negativos, seus objetos foram leiloados, mas comprados por alguém que hoje cuida desse acervo com dedicação. Maloof já dirigiu um documentário sobre seu trabalho (Finding Vivian Maier, coredigido por Charlie Siskel)e foi curador de algumas exposições, a primeira delas realizada em 2011.

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A fotógrafa jamais falava sobre sua vida ou seu passado, conta a matriarca da família Gensburg, Nancy

O colecionador falou com 90 pessoas para montar seu quebra-cabeças cinematográfico sobre Vivian. A fotógrafa jamais falava sobre sua vida ou seu passado, conta a matriarca da família Gensburg, Nancy: "Ela não tinha o mínimo interesse em ser babá, mas não sabia fazer outra coisa". Como se precisasse. Vivian Maier, lembra o crítico inglês Geoff Dyer no prefácio do livro, aprendeu, como babá, a espreitar a vida doméstica. Daí para a rua foi apenas um passo. Para a liberdade.

VIVIAN MAIER: UMA FOTÓGRAFA DE RUA

Autor: John Maloof.

Trad.: Eduardo Soares

Editora: Autêntica (136 págs., R$ 108)