Festival da Mantiqueira começa com debate entre escritores

Marçal Aquino, Suzana Amaral e Moacyr Scliar discutiram o dálogo entre cinema e literatura

Ubiratan Brasil, de O Estado de S.Paulo

31 Maio 2008 | 14h22

O primeiro dia de debates do Festival da Mantiqueira, que reúne até domingo escritores nacionais na cidade paulista de São Francisco Xavier (distrito de São José dos Campos), começou com o encontro entre Marçal Aquino, Suzana Amaral e Moacyr Scliar. O tema da discussão era o diálogo que pode existir entre cinema e literatura.   Diretora de filmes como A Hora da Estrela, transposição do último romance de Clarice Lispector, Suzana Amaral disse ser roteirista de todos seus longas e, por conta disso, bebe direta e unicamente na literatura. "É um importante ponto de partida e minha intenção, ao recriar (não gosto do termo"adaptar"), é buscar a essência da obra original", disse. "O livro me é útil até o momento em que sei que posso criar algo a partir dali. Nesse instante, esqueço da história original e passo a trabalhar em uma nova obra."   Já o escritor Moacyr Scliar, cujo livro Sonhos Tropicais foi levado ao cinema pelo cineasta André Sturm (responsável pelo Festival da Mantiqueira), lembrou que sua geração foi decisivamente influenciada pela linguagem do cinema. "Basta comparar a literatura criada no século 19 com a do século 20, que é até menor em número de páginas", disse ele, apontando, no entanto, para uma diferença básica entre as duas artes. "Há um fosso profundo entre imagem e palavra e o comum entre ambos é o diálogo."   A importância do diálogo, aliás, provocou a principal polêmica do debate. Para Scliar, o diálogo é apenas um recurso para preencher espaço em uma história. "Quando me deparo com um livro, busco descobrir a quantidade de diálogos que estão ali. Se forem muitos, não acredito que seja um bom livro."   Contestado pela platéia, especialmente pelo escritor e dramaturgo Mário Prata, que defendeu a importância do diálogo para qualquer obra, especialmente a teatral, Scliar considerou que há honrosas exceções, como o argentino Manuel Puig, o americano Ernest Hemingway e, entre os nacionais, Nelson Rodrigues. "Eles trabalham o diálogo com maestria."   Escritor e "roteirista acidental", como gosta de se denominar, Marçal Aquino foi taxativo ao comparar literatura e cinema: o livro é sempre melhor quando comparado com sua adaptação para a tela grande. "Concordo com Federico Fellini, que dizia ser uma boa adaptação aquela que não respeitava em nada o original", disse. "O que deve ser filmado é o que ficou na inconsciência depois da leitura." Ele também não considera roteiro de cinema uma peça literária. "Roteiro é uma ferramenta, como uma receita culinária. Ninguém come a receita, mas o bolo que se faz a partir dela. Com o roteiro acontece a mesma coisa."

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