FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Faturamento do livro digital corresponde a 1% do mercado editorial brasileiro

Censo do Livro Digital, pesquisa inédita da Fipe, revelou números do setor; dados de autopublicação não estão incluídos

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2017 | 12h22
Atualizado 23 Agosto 2017 | 17h26

O mercado do livro digital no Brasil representa 1,09% do faturamento total das editoras, segundo o inédito Censo do Livro Digital, divulgado nesta quarta-feira, 23, pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL). Quando considerado apenas o setor de obras gerais (sem contar livros técnicos, didáticos e religiosos), o digital equivale a 2,38% do faturamento das editoras. 

O estudo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) mapeia pela primeira vez o mercado de livros digitais no Brasil, com um grande nível de detalhes e servirá como base para comparações nos anos futuros.

Os números não levam em conta vendas ao governo, apenas ao mercado. Toda a pesquisa é baseada nos dados que as editoras fornecem à Fipe.

Foram investigadas 794 editoras no País e, dessas, apenas 294 produzem e comercializam livros digitais (37%). Ou seja, 63% (praticamente duas em cada três) das editoras brasileiras não produzem conteúdo digital para comercialização – o que pode ser uma das razões para os números baixos.

Dados relacionados à autopublicação ficaram de fora do mapeamento, justamente porque os grandes players que atuam na área não fornecem dados de nenhuma natureza. Mas é fato reconhecido pelo mercado internacional que a modalidade tem cada vez mais importância, em algumas áreas até mesmo superando vendas de grandes editoras. 

No Brasil, só a Amazon.com.br tem em seu catálogo mais de 110 mil livros digitais em português à venda – segundo o Censo, o acervo total de e-books no Brasil é de 49.622 títulos (o ano base é 2016). O acervo da Amazon inclui todos os livros publicados pela KDP, a plataforma de autopublicação da loja.

Mesmo assim, e de acordo com a professora da Fipe responsável pela pesquisa, Leda Paulani, a representatividade do livro digital no mercado total é de fato baixa no Brasil.

Mas o olhar do setor não é apocalíptico: segundo o presidente do SNEL, Marcos da Veiga Pereira, o investimento que as editoras brasileiras fizeram nos últimos anos “valeu a pena”. Ele falou de um crescimento de 20% no setor digital em 2016 na Sextante, editora da qual é publisher. “O digital cria uma fidelidade do leitor de uma maneira muito rápida”, disse. Outras grandes editoras consultadas pelo Estado também colocaram esse número – 20% – como a taxa de crescimento do último ano do faturamento digital. A Intrínseca, por exemplo, diz ter acumulado um crescimento de 34% no ano passado.

Outros países. Quando se compara com um país vizinho, como a Argentina, o volume é parecido – lá, 2% dos livros vendidos ao mercado são em formato digital (dados da Cámara Argentina del Libro referentes a 2015). No México, segundo a instituição equivalente (Caniem), as vendas também representam menos de 3%. No Brasil, o número é 1,19%. Em países com índices de leitura maiores e num contexto econômico diferente, como no Reino Unido, as vendas digitais chegam a bater 25% do mercado, segundo dados da Nielsen Book Research UK.

Diferenças. Marcos da Veiga Pereira, do SNEL, apontou na apresentação do Censo do Livro Digital uma discrepância com o mercado do livro físico, no qual o setor didático representa 37% do faturamento de vendas para o mercado. No digital, essa parcela é de 3%. Apenas uma em cada cinco das editoras de livros didáticos produzem conteúdo digital para comercialização. O presidente do SNEL aponta especificidades do setor, que envolvem todo o sistema de educação, como razões para a enorme diferença.

Outro ponto que chama atenção nos dados apresentados pela Fipe é a alta concentração do faturamento digital nas 30 maiores editoras (cerca de 10% do total de casas que produzem conteúdo digital para vender). Elas respondem por 85% do faturamento digital total.

Falando de volume: 2.751.630 unidades de e-books foram vendidas em 2016 (87% dessas foram do setor de obras gerais), segundo o Censo.

O faturamento com a venda de e-books foi de R$ 34 milhões. O rendimento total foi de R$ 42 milhões no ano. Esse número inclui venda de livros digitais, conteúdo fracionado (capítulos ou fascículos) e aluguel/assinatura (bibliotecas de conteúdo jurídico, por exemplo).

Por ser a primeira edição da pesquisa, não é possível comparar dados desse Censo com outras pesquisas anteriores – uma série histórica começa em 2018.

NÚMEROS

63% das editoras brasileiras não produzem conteúdo digital para vender. Esse dado demonstra que, embora a produção digital esteja sedimentada no mercado brasileiro como ideia, muitos empresários ainda não aderiram.

2,38% é o faturamento digital das editoras de obras gerais (livros mais comuns, como de literatura e não ficção, sem contar técnicos, didáticos e religiosos). Levando em conta apenas as 15 maiores editoras, o porcentual sobe para 4,51%.

87% dos e-books vendidos no Brasil em 2016 são do setor de obras gerais – o que revela uma diferença enorme com o mercado de papel, no qual a maior fatia (37%) pertence ao setor de livros didáticos. O problema é estrutural.

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