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Entrevista. Isabel Moustakas

Romance policial marca a bela estreia de Isabel Moustakas, e escritores buscam descobrir quem está por trás desse pseudônimo

‘Esta Terra Selvagem’ traz um notável retrato da violência provocada pelo xenofobismo

Repórter policial do Estado, João investiga uma série de crimes hediondos que o levarão a conhecer um grupo racista, que assassina imigrantes, homossexuais, negros, nordestinos e judeus, assombrando São Paulo. Esse é o ponto de partida de Esta Terra Selvagem (Companhia das Letras), que marca a estreia de Isabel Moustakas. Um romance enxuto, que impressiona pela escrita ágil e também pelo realismo da violência.

Tais qualidades chamaram a atenção de outros escritores que, como a reportagem, saíram em busca da nova autora. Isabel, porém, aparentemente não participa das redes sociais. E os dados fornecidos pela editora são evasivos – nasceu em Campinas, em 1977, formada em Direito e vive na zona norte de São Paulo, com o marido e a enteada. A desconfiança de que se tratava de um pseudônimo cresceu.

Bairro do Limão. Ação se passa na zona norte de SP
Bairro do Limão. Ação se passa na zona norte de SP

Também autor de policiais, Raphael Montes tornou pública a dúvida em seu blog. “A julgar pela maturidade do texto, é o pseudônimo de um autor experiente”, escreveu ele que, para o Estado, revelou um suspeito: o gaúcho Antônio Xerxenesky, autor de F, belo romance sobre uma assassina de aluguel. Outro atento ao mercado editorial, o escritor e tradutor Joca Reiners Terron confirmou idêntica suspeita. Procurado, Xerxenesky jura pelo próprio gato não ser ele. “Tenho obrigações demais até para publicar algo com meu verdadeiro nome”, garante.

Apesar da dúvida ainda persistir – Raphael Montes não descarta a divertida teoria de que Rubem Fonseca teria voltado para a Companhia das Letras, agora com pseudônimo –, sabe-se que Isabel Moustakas é um pseudônimo. Informação confirmada por ela, por e-mail. 

E, a pedido do Estado, ela cedeu a imagem que está na capa deste Caderno 2 (reproduzida abaixo) e mais alguns dados pessoais: “Nasci em Campinas, há quase 39 anos. Sou filha única. Meu pai era médico. Ele morreu num acidente de carro quando eu tinha 13. Depois da morte dele, minha mãe vendeu nossa casa, pegou as economias e nos mudamos para São Paulo. Estudei. Fiz Direito e trabalho faz um bom tempo advogando em causas trabalhistas. Conheci aquele que hoje é meu marido em 2011. Fernando era divorciado e tem uma filha, Ana, hoje com 18 anos. Ana é uma leitora e tanto, e acabou me contagiando com isso. Graças a ela, leio muito mais do que antes e ambas compartilhamos o gosto por narrativas policiais, thrillers e histórias de terror. Eu nunca tinha escrito ficção antes de me sentar e colocar Esta Terra Selvagem no papel, no final de 2014. Sou alta, magra, fumo demais e continuo advogando”.

Mesmo que tais informações continuem gerando dúvidas, o fato é que o nome Isabel está grafado em um dos grandes lançamentos do ano. Por e-mail, ela (ou seja lá quem for) respondeu às seguintes questões.

Ela?. Foto de alguém que se diz ser a autora
Ela?. Foto de alguém que se diz ser a autora

A escrita revela-se bem planejada. Como arquitetou o livro?

Escrevi Esta Terra Selvagem em apenas 11 dias. Desde o momento em que esbocei a história, pensei que ela deveria ser tensa e ágil, sem muito espaço para digressões. Se eu a escrevesse assim, a toque de caixa, talvez conseguisse contaminar o texto com a urgência que queria ver nele. Logo, não houve muito planejamento, exceto por um esquema dos capítulos em que eu estipulava o que aconteceria em cada um deles.

Sua escrita parece mostrar uma relação íntima entre a literatura e a realidade mais imediata.

Só leio coisas que têm uma relação imediata com a realidade. Vivo em São Paulo há tempo demais para me interessar por histórias muito abstratas. O concreto, a sujeira e a brutalidade dessa cidade anularam em mim qualquer possibilidade de pensamento metafísico. Só vejo corpos se amontoando nas ruas, no metrô, nas calçadas, todos respirando o mesmo ar imundo. Somos todos loucos de viver amontoados desse jeito. Mas, por outro lado, não consigo me imaginar em nenhum outro lugar. Se o que escrevo consegue dar conta dessa realidade, um pouco que seja, já me considero uma autora realizada.

O mal é aliado da literatura?

Talvez eu não esteja apta a responder. Mas digo o seguinte: como sou católica, a ideia do mal é algo muito presente em mim; e, como vivo em São Paulo, vejo o mal adquirindo as formas mais diversas, e isso em cada esquina, em cada estação de metrô (especialmente da Linha Vermelha), em todo lugar. Como escrevo a partir do que vivo e sinto ao andar por aí, o mal é um aliado porque instiga a minha criatividade. E, como sou católica, provavelmente irei direto para o inferno por escrever com tanto gosto essas barbaridades.

Há um parentesco entre literatura de suspense e psicanálise?

Conheço muito pouco sobre psicanálise para responder com propriedade. Posso dizer que, no que eu escrevo, faço um esforço para ser o mais explícita possível. E, do meu ponto de vista, o personagem principal de Esta Terra Selvagem é um sujeito que é mais atropelado pelos fatos do que alguém que se detém neles para desvendá-los. Não há distanciamento. Ele é engolido pelos acontecimentos, mastigado e depois cuspido. A minha intenção é que o leitor experimente essas coisas junto com ele, até onde isso for possível.

Leonardo Sciascia usava o suspense para falar sobre identidade.

Nunca li Sciascia, mas já anotei aqui. Acho que, de um jeito ou de outro, toda literatura fala sobre questões de identidade. O que eu mais gosto na literatura policial é a ausência de firulas. Acho que é aquilo de refletir sem filosofadas sobre a realidade, e fazer isso de forma dura, brutal. Por exemplo: o personagem A mata B por causa de C, e D entra de gaiato na história; então, no fim, descobrimos que B não estava morto, D enlouquece e C mata A por engano. Não é maravilhoso?

Acredita-se que o romance, hoje, deve muito ao policial, que sempre manteve a necessidade de categorias claras: personagens, investigação, demanda, conclusão. Concorda?

Concordo. Acho que ter em vista categorias bem claras é importante até para os que preferem experimentar e subverter as regras. Quero dizer, como o autor vai subverter se ele não é familiarizado com as regras? Nesse caso, ele só faria um experimentalismo estéril, masturbatório, sem ligação com nada, seja com a realidade, seja com a tradição literária. Em tempo: não tenho nada contra a masturbação, desde que ela não venha encadernada, tenha 500 páginas e custe R$ 90.

Amargura e tédio são os grandes males contemporâneos?

São males desde que o mundo é mundo. Talvez a angústia e a raiva estejam mais à flor da pele porque o período pelo qual estamos passando é de tremenda incerteza, inclusive politicamente, com todo esse negócio de impeachment, grampos. Além disso, o brasileiro sempre conviveu com a violência. Ela é onipresente. E existe uma boa parcela da população que parece se alimentar dela. Às vezes, assistindo ao Datena e vendo aquelas coisas horríveis, me ocorre que o Brasil é um país de vampiros. Talvez use essa imagem no próximo livro. 

Confira um trecho da obra:

“Chegaram a cogitar parricídio, e parte da imprensa sugeriu que se tratava de uma versão piorada de Suzane von Richthofen (o colunista de uma revista semanal escreveu um longo artigo sobre como o fogo, isto é, o ato de imolar os pais, seria ainda mais horrível que espancá-los até a morte com barras de ferro). Quando encontraram a menina desmaiada, nua, costelas, nariz e dentes quebrados, cheia de hematomas, marcas de cigarro e outros sinais evidentes de toda espécie de abuso, a cabeça raspada, no chão de um banheiro de posto de gasolina, não houve mea-culpa, é claro, mas, no máximo, uma singela mudança de tom e de perspectiva. Ela era vítima, afinal. Claro, sou um jornalista e estava, como os demais, louco por uma exclusiva, mas não pude esconder a minha admiração por ela ter preferido não falar com ninguém além da polícia, recusando-se a tomar um lugar no centro do picadeiro. Meu editor não parecia tão admirado, mas, como ninguém obtinha nada dela, acabou se conformando. Meses depois, quando a história já tinha esfriado e a avó dela ligou na redação à minha procura, desliguei pensando em se tratar de um trote. Ela ligou outra vez e colocou a menina na linha.”

ESTA TERRA SELVAGEM

Autora: Isabel Moustakas

Editora: Companhia das Letras (120 págs., R$ 34,90 versão impressa; R$ 23,90 o e-book)

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