Claudio Bresciani/ Reuters
Claudio Bresciani/ Reuters

Escândalo de vazamentos e abuso sexual abalam a Academia sueca, responsável pelo Nobel

Vários acadêmicos suecos falaram sobre a perda de prestígio da instituição

Anxo Lamela, EFE

06 Dezembro 2017 | 16h13

COPENHAGUE - A Academia Sueca, instituição que todos os anos outorga o Prêmio Nobel de Literatura, viu-se atingida por acusações contra o marido de uma de suas integrantes. Ele teria cometido abusos sexuais, além de deixar vazar o nome de vários vencedores do prêmio de elevado prestígio.

Dezoito mulheres revelaram anonimamente há poucos dias supostas acusações de assédio e abuso, alguns cometidos nas dependências ligadas à academia, e três delas agora afirmam que a mesma pessoa revelou antecipadamente, em público, em três ocasiões, o nome vencedor do Nobel, informou o jornal Dagens Nyheter.

Tais ganhadores do prêmio seriam a austríaca Elfriede Jelinek (2004), o britânico Harold Pinter (2005) e o francês Patrick Modiano (2014), segundo o principal jornal sueco, o que sugere que o indivíduo em questão também se gabou de estar envolvido na concessão do Nobel de 2008 ao francês Jean-Marie Gustave Le Clézio.

Embora Dagens Nyheter mantenha o anonimato desta "personalidade cultural", como foi apelidado o homem, outros meios de comunicação identificam Jean-Claude Arnault, dramaturgo francês e fotógrafo que vive na Suécia há décadas e é casado com a escritora Katarina Frostenson, um dos dezoito membros da academia.

"Nada me surpreende mais sobre essa pessoa, esse canalha. Imagino que ele tivesse acesso às informações por sua esposa", disse Peter Englund, secretário permanente da Academia sueca entre 2009 e 2015.

Englund admitiu que ele próprio recebeu informações, de um artigo na imprensa francesa, apontando para Arnault como um possível informante, mas que ele negou tudo.

Suspeitas sobre vazamentos anteriores do Nobel de Literatura foram comuns nos últimos anos, com casos marcantes como Le Clézio, quando a casa de apostas britânica Ladbrokes teve que encerrar as apostas horas antes do anúncio, porque o autor tinha ido de 15 a 1 para 2 a 1.

O antecessor de Englund, Horace Engdahl, disse então estar convencido de que tinha sido um vazamento, mas agora se recusava a falar sobre o caso, dizendo que isso violaria as regras da instituição, da qual ele permanece um membro.

As turbulências em torno da Academia Sueca começaram há duas semanas, com denúncias públicas de dezoito mulheres sobre abuso e assédio cometidos entre 1996 e 2017 nos aposentos da instituição em Estocolmo e Paris por Arnault, diretor de um fórum cultural apoiado financeiramente pela organização.

Os rumores sobre o comportamento sexual do dramaturgo não eram desconhecidos no mundo da elite cultural sueca, como admitiram personalidades como Englund, que nas redes sociais disse sentir-se aliviado com o fato de o caso "finalmente ter sido exposto".

Dois dias depois das denúncias e após uma reunião em que se soube que vários membros da Academia e parentes foram expostos a uma "intimidade indesejada ou tratamento inadequado" da parte de Arnault, a instituição interrompeu seu contato com ele e contratou uma empresa de advogados para estudar se ele teria influenciado o trabalho institucional.

Apesar das medidas adotadas, vários acadêmicos suecos falaram sobre a perda de prestígio da instituição e exigiram a renúncia de Engdahl e Englund, que haviam solicitado há alguns anos um salário vitalício, pago pelo Estado, para Arnault.

Os acadêmicos recusaram-se a pedir demissão, afirmando que isso não é permitido pelo estatuto social, já que eles são membros vitalícios.

A academia anunciou, no entanto, que vai reforçar as regras sobre incompatibilidade em resposta a críticas que também fazem alusão ao compadrio, ao conceder os prémios literários ou bolsas de estudo.

Outras instituições asseguraram que reconsiderarão seu apoio econômico ao fórum cultural de Arnault e o governo sueco falou em revogar uma condecoração real dada há dois anos, embora, no final, tenha reconhecido que isso não é viável. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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