Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Em novo livro, B. Kucinski fala sobre a relação com o filho adotivo e sua jornada de autodestruição

'Pretérito Imperfeito' narra história real e de grande aprendizado para o escritor

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2017 | 06h02

Bernardo Kucinski se deu conta da finitude da vida há cerca de dois anos. Ele, que já tinha publicado obras sobre economia e política ao longo de sua carreira de jornalista e que estreou na ficção aos 74 com K. Relato de Uma Busca, sucesso entre acadêmicos e leitores brasileiros e estrangeiros, decidiu que era hora de escrever sobre o que só ele poderia escrever. Coisas suas, o que viu e viveu. Hoje, aos 80, ele lança Pretérito Imperfeito, uma história vivida a duras penas por ele, sua mulher e o filho adotivo do casal.

Se elaborar um luto sem corpo, caso de K., sobre sua irmã desaparecida na ditadura militar, é pesado, mesmo escrito quatro décadas após o ocorrido, desistir do filho vivo, depois de anos de aflição, sofrimento e derrotas, pode ser ainda mais difícil.

+++ Bernardo Kucinski reflete sobre 'K.', a ditadura, a culpa, o luto e sua irmã desaparecida

E é essa a história que lemos na nova ficção de Kucinski - que de ficção, diz o autor, só tem alguns elementos acessórios. “A essência é real: coisas acontecidas e que ainda estão acontecendo”, conta.

Tudo começa com o narrador nos contando da carta de rompimento que envia ao filho de quase 40 anos e que, desde a adolescência, tem problemas com drogas e álcool. Não é uma narrativa fácil, ele admite. “Mas escrever não foi difícil. Houve, sim, muita discussão interna, mas ao longo dos anos fui adquirindo um prazer na escrita. Portanto, escrever não foi difícil. Viver isso tudo, sim.”

+++ Leia trechos de 'K.' e de 'Você Vai Voltar Para Mim', de Bernardo Kucinski

O garoto chegou ainda bebê ao casal que não conseguia ter filhos. Os problemas de saúde eram inúmeros, e lemos com detalhes o começo conturbado da nova família. Também são detalhadas as buscas, madrugada adentro, desse pai por seu filho, que saiu de casa e não voltou. As emergências, internações e prisões, as mentiras, a esperança e as recaídas, a ausência de um impulso de vida naquele que lutou tanto para sobreviver.

+++ O percurso do Senhor K. nos subterrâneos brasileiros

Como tudo começou? Acompanhamos o narrador nessa busca pelo primeiro sinal que poderia sugerir um futuro tortuoso - o sentimento de abandono pela mãe biológica?, a ausência de informações para ajudar a construir sua história de vida?, o racismo sofrido por ser negro? 

“Minha maior preocupação é com a recepção do livro pelas pessoas e, principalmente, pelo protagonista”, diz. Pensou em publicá-lo com um pseudônimo, mas assumiu a autoria por concluir que este poderia ser um livro útil, já que a história é comum a muitas famílias.

O protagonista leu os manuscritos. “Leu com dificuldade. Parou, voltou. Apoiou a publicação. Pode ser que isso tudo ainda tenha algum efeito que a gente não sabe porque suscita coisas ruins que estavam esquecidas, mas ter escrito, e ele ter lido, nos ajudou.”

Kucinski já trabalha num novo livro, que vai mostrar o reencontro de amigos que rememoram o passado e discutem o presente do País. E que país é esse? “Supera até o realismo mágico, só García Márquez para dar conta de tão estapafúrdio e esdrúxulo tudo o que está acontecendo”, diz.

O autor tem esperança de que a continuação da história que conta em Pretérito Imperfeito seja boa, mas o mesmo não diz sobre o Brasil. “Todas as regras do jogo foram quebradas. Não dá para saber o que virá”, conclui.

PRETÉRITO IMPERFEITO

Autor: B. Kucinski

Editora: Companhia das Letras (152 págs.; R$ 39,90)

Lançamento: Segunda, 4, às 19h, Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.