Em nova biografia, Ortega y Gasset aparece menos convicto do que se acreditava

Mario Vargas Llosa escreve sobre o livro de autoria de Jordi Gracia publicado recentemente na Espanha pela Editorial Taurus

Mario Vargas Llosa, Especial para O Estado de S. Paulo

30 Junho 2014 | 02h00

Eu teria gostado de ouvir uma conferência de Ortega y Gasset, ou melhor ainda, seguir alguns de seus cursos. Todos que o ouviram dizem que ele falava com a mesma elegância e inteligência com que escrevia, num espanhol rico e fluido, muito seguro de si, com algumas grosserias vaidosas que não ofendiam ninguém pela enorme cultura que exibia e a clareza com que era capaz de desenvolver os temas mais complexos. A doutora Margot Arce, que foi sua aluna, me contava em Porto Rico, meio século depois de o ter ouvido, o silêncio reverencial e extático que sua palavra impunha ao auditório. Posso imaginá-lo muito bem; mesmo quando o lemos – e eu o li bastante, sempre com prazer – temos a sensação de o estar ouvindo, porque em sua prosa clara e frondosa há sempre um quê de oral.

A biografia que Jordi Gracia (Editorial Taurus) acabou de publicar mostra um Ortega y Gasset muito menos rígido e firme em suas ideias e convicções do que se acreditava, um intelectual que, de vez em quando, experimenta crises profundas de desânimo que paralisam esta energia que, em outras épocas, parece inesgotável e o leva a escrever, estudar e meditar sem trégua, durante semanas e meses, produzindo artigos, ensaios, uma correspondência enorme, dando aulas e conferências, e desenvolvendo ao mesmo tempo um trabalho editorial que deixava uma pegada importante na cultura de seu tempo. Mostra também que este trabalhador infatigável era, como um Isaiah Berlin, praticamente incapaz de planejar e terminar um livro orgânico, apesar de ter a intuição premonitória de tantos que jamais chegaria a escrever, porque a dispersão o dominava. Por isso, ele foi, sobretudo, um escritor de artigos e pequenos ensaios, e, seus livros, todos eles com exceção do primeiro – as Meditações do Quixote – recompilações ou inconclusos. Nada disso empobrece nem retira a originalidade de seu pensamento; pelo contrário, como ocorre com os textos quase sempre breves de Isaiah Berlin, os artigos de Ortega são geralmente algo muito mais rico e profundo do que costuma ser um artigo jornalístico, questionamentos, exposições ou críticas que com frequência abordam temas de altíssimo nível intelectual e carregados de sugestões por vezes deslumbrantes e, no entanto, sempre acessíveis ao leitor não especializado.

Por isso Jordi Gracia fez muito bem rastreando como um sabujo toda a trajetória dos artigos de Ortega y Gasset; é a maneira mais segura de aproximar-se de sua intimidade de pensador e de escritor, e de averiguar como discorria nele sua vocação de filósofo e de literato.

Tudo começava com uma ideia ou uma intuição que ele vertia num artigo (às vezes em vários). Dali, esse embrião passava pela prova de uma sala de aula ou de uma conversa pública e, enriquecido, coalhava em um ensaio. Embora ele tivesse muitas vezes a ideia de prolongá-lo num livro, no geral não passava dali porque outra intuição, achado ou invenção genial o desviava para outro artigo que, logo, seguindo o mesmo itinerário, terminava desembocando em um desses ensaios – com frequência excelentes e amiúde soberbos – que são a coluna vertebral de sua obra e que ocuparam grande parte de sua vida.

Jordi Gracia mostra também que a vocação política foi tão importante em Ortega como a intelectual. Em sua juventude, em sua precoce e média maturidade, as duas vocações se fundiram em uma; ele queria ser um grande pensador e um grande escritor para mudar a Espanha pela raiz, torná-la europeia, modernizá-la, democratizá-la, o que para ele – como para os intelectuais que atraiu para a Agrupación al Servicio de la Republica – significava levar ao governo do país seus filhos mais cultos, inteligentes e decentes, em vez da classe política que ele desprezava por ser medíocre, carente de ideias e de criatividade, acomodatícia e cínica.

Ele dedicou boa parte de seu tempo a tratar da formação de um movimento que materializasse esse projeto, pois estava convencido de que se tratava de uma ação cultural de disseminação de ideias novas e férteis, e isso explica que se dedicasse desse modo a uma tarefa jornalística, em jornais e revistas, convencido de que essa era a melhor maneira de mudar a política vigente, contagiando entusiasmo por ideias e valores que deviam chegar ao grande público da mesma maneira que chegavam a seus alunos, por meio da persuasão. Nisso consistia o que ele chama de seu “liberalismo”, embora muitas vezes ele lhe acrescentasse a palavra socialismo para indicar que aquela revolução cultural da vida pública não estaria isenta de um forte conteúdo social. A república lhe pareceu o regime mais propício para a transformação política da Espanha.

No entanto, aqueles não eram tempos para a sã controvérsia de ideias, como queria Ortega, mas dos fanatismos encontrados em que os insultos e as pistolas substituíam rapidamente os debates e os diálogos entre os adversários. Este será o grande fracasso de Ortega, a absoluta inoperância daquela pacífica revolução cultural que ele propunha e que, primeiro a violenta experiência republicana e depois a sublevação fascista e a guerra enterrariam por mais de meio século.

O livro de Jordi Gracia dá conta pormenorizada e com admirável objetividade da traumática experiência que significou para Ortega o desmoronamento de todos seus anelos políticos. Primeiro, a desilusão que ele teve com a república que não se parecia em nada com aquela ilustrada coexistência na diversidade que ele havia previsto, e depois, a sublevação militar e a Guerra Civil. A impotência o conduziu ao silêncio. Mas ele nunca traiu seu próprio ideal, embora admitisse que, naquela circunstância, era simplesmente impraticável, desprovido de toda realidade. O silêncio que ele conservou em tantos anos de exílio, na França, em Portugal, na Argentina, desprestigiou Ortega aos olhos de muitos. Eu acredito que foi um ato de grande coragem, uma procura para se manter à margem, sem tomar partido, por duas opções que lhe pareceram igualmente inaceitáveis: o fascismo e uma república muito pouco democrática, dominada pelos extremismos sectários.

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Vocação política foi fundamental na obra de Ortega y Gasset
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Creio que foi um grande erro de sua parte voltar à Espanha em plena ditadura, acreditando ingenuamente que com o pós-guerra o regime se abriria; e a verdade é que ele pagou caro por isso, pois, como mostra com riqueza de detalhes Jordi Gracia, enquanto continuava sendo atacado (e silenciado) com ferocidade pelo nacionalcatolicismo, alguns setores falangistas tratavam de se apropriar dele, semeando a confusão de tal modo que seguidores tão fiéis como Maria Zambrano chegaram a acreditar que ele havia traído seus velhos ideais. Nunca os traiu; até o fim de seus dias, ele foi laico e ateu e defensor de uma democracia liberal marcada pela tolerância. Ao mesmo tempo, em que pese o incômodo político permanente em que passou seus últimos anos, sua vitalidade intelectual nunca cessou de se manifestar, em ensaios e artigos que recobravam, às vezes, o vigor expressivo e a riqueza criativa de outrora. O reconhecimento que teve nos últimos anos foi no estrangeiro, na Alemanha sobretudo, mas também na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na Espanha, por sua vez, e até hoje, ele nunca foi totalmente reivindicado porque, para uns, é uma figura ambígua e reticente que manteve durante a Guerra Civil e o pós-guerra imediato um silêncio covarde que constituía uma discreta cumplicidade com os fascistas, ou um conservador da velha cepa, inadaptado e irremissivelmente inimigo da modernidade.

Um dos grandes méritos do livro de Jordi Gracia é que, sem desculpar-lhe nenhum de seus equívocos e erros políticos, nem deixar de assinalar como a vaidade às vezes o cegava e o levava a exagerar suas grosserias, feito o balanço, Ortega y Gasset é um dos grandes pensadores de nossa época, e que, precisamente no tempo em que vivemos – não no que ele viveu – suas ideias políticas foram em boa medida confirmadas pela realidade. Ler suas obras agora não é um passatempo arqueológico, mas a imersão num pensamento candente, muito útil para encarar a problemática atual, e, ao mesmo tempo, desfrutar do prazer raro que produz um escritor que pensava com grande liberdade e originalidade e expressava suas ideias com a beleza e a precisão dos melhores prosadores de nossa língua. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

MARIO VARGAS LLOSA É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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