Em 'Mil Rosas Roubadas', o crítico e romancista Silviano Santiago relembra Ezequiel Neves

Mineiro cria um novo gênero literário capaz de celebrar a amizade que manteve com o produtor musical

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Junho 2014 | 16h41

Romance à clef, Mil Rosas Roubadas, do crítico literário e romancista Silviano Santiago, fala da amizade entre o escritor e o crítico e produtor musical Ezequiel Neves (1935-2010), ambos mineiros. Cruzamento híbrido de biografia, autobiografia e ficção, o livro testa os limites entre os gêneros ao falar da longa amizade entre o autor e Zeca, nome que escolheu para Ezequiel, que conheceu em 1952, em Belo Horizonte, quando ambos esperavam o mesmo bonde.

Escrito, segundo Santiago, na tradição de autores mineiros que dramatizaram a vida de conhecidos, entre eles Cyro dos Anjos, Mil Rosas Roubadas acompanha os últimos dias de Zeca num leito de hospital. O autor relembra o começo dessa amizade, o afastamento (Silviano foi estudar em Paris) e o reencontro com ele. Santiago revela que o crítico, que atacou indistintamente Renato Russo (o “bispo Macedo do rock”) e Caetano Veloso, devia algo à língua da escritora americana Dorothy Parker, aquela que usou como epitáfio a frase: “Perdoem pelo pó!”

Lá pela metade do livro você faz a pergunta se não seria o narrador/protagonista do romance A Náusea, de Sartre, que deve pesquisar a vida pública e privada de um marquês, mas passa a escrever um diário íntimo. Foi isso que o fez escolher o gênero romance para falar de sua vida?

Primeiro, a questão de gênero. O romance é sem dúvida um gênero mais desinibido e mais poderoso que a biografia. A biografia é conformada pelo verbete de enciclopédia e o tem como modelo distante e ideal. Já o romance, desde seu nascimento, é tido como fora da lei (lawless, dizem os teóricos anglo-saxões). Não me sentiria à vontade se estivesse a escrever uma biografia. O que distancia Mil Rosas Roubadas do gênero biografia é também o fato de querer entrelaçar – pelo afeto e pela admiração – o narrador e o personagem. O narrador não é objetivo no desenho do perfil do personagem como não será objetivo no próprio autorretrato. Como parceiros de vida, narrador e personagem se significam simultaneamente. Referindo-me ao romance de Sartre, A Náusea, digo que aproveitei o conflito interno do narrador, dividido entre relatar a biografia medíocre do Marquês de Rollebon ou sua própria vida, em diário íntimo. Comportando a biografia de Rollebon e o diário íntimo, Sartre me ensinou que um personagem de biografia pode não a merecer (e quantos no Brasil de hoje não a merecem), mas um personagem de romance, se não for rico, sedutor e complexo, morre na praia. 

Sendo o narrador de Mil Rosas Roubadas um historiador, ele se dá conta de que é impossível falar de seu biografado ignorando o contexto social em que viveu e, mais ainda, sem falar de si mesmo. Como resolveu o conflito entre a objetividade jornalística de um relato biográfico e a subjetividade do romancista?

Fui socorrido pela tradição mineira. Qualquer leitor da literatura brasileira sabe que o escritor mineiro tem preferência por dramatizar em prosa e poema sua vida e a dos que lhe são próximos. Lembre-se que Cyro dos Anjos desenhou a si e a seus companheiros de geração em O Amanuense Belmiro. Acontece até fato pitoresco. Facilmente reconheço meu antigo professor de filosofia, o kantiano Artur Versiani Veloso, no personagem Silviano. Coincidência fantástica porque nasci depois de o personagem ter sido criado. A tradição mineira trabalha com o que se conhece na literatura francesa como roman à clef. Os personagens são autênticos e fortes, mas se o leitor tiver acesso à chave, pode descodificá-los pela carteira de identidade. Ele terá assim uma segunda trama, que posso chamar de jornalística, que corre por debaixo da trama romanesca que lhe é oferecida pela superfície do texto.

Você e Zeca eram pessoas radicalmente diferentes. Você pergunta no livro se escreveu essa biografia por querer ser perseguido e ferido por quem perseguiu e feriu toda a vida. No final, qual a resposta que o fim de Mil Rosas Roubadas lhe oferece?

Não sou eu quem oferece a resposta. Foi a vida e sua foice que ofereceram a resposta. Uma frase extraída do romance As Brasas, de Sándor Márai, levou-me a compreender a tragédia existencial por que passa qualquer sobrevivente. Coloquei-a em epígrafe do romance e a cito de novo: “Sobreviver a uma pessoa que amamos tanto, a ponto de nos dispormos a matar por ela, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida. O Código Penal não o menciona”. Ao matar a pessoa que amamos antes de nos matar, a vida é uma assassina impiedosa e cruel. Será que age de modo sorrateiro e inconsciente? Não sei. Sei que ela não nos rouba apenas o ente querido. Tampouco é apenas a solidão o sentimento dominante na vida de quem sobrevive. Mil Rosas Roubadas é um romance sobre o assassinato da pessoa amada. O sobrevivente ferido está presente na cena do crime, não é culpado e nada pode fazer para salvar a vítima. Tem as mãos atadas pela vida.

Dorothy Parker virou uma obsessão na vida de seu biografado. Você acha que Ezequiel, ao criticar Renato Russo ou Caetano Veloso, foi ferino para imitar o exemplo de Dorothy, criando o próprio mito do crítico exigente?

Exemplos não existem para ser imitados, mas para ser trabalhados. Tanto por parte de quem vive como por parte de quem sobrevive. Na condição de detetive em busca de um estilo que não fosse o meu, de narrador, mas que pudesse ser um estilo compatível com o personagem, eu fui por assim dizer reler os livros que no passado Zeca e eu lemos ao mesmo tempo. Sobressaiu Dorothy Parker, lida pela primeira vez nos anos 1950 numa antologia de contos editada em Portugal. De repente, ao reler o conto A Valsa, como que baixou o santo. Ali estava o estilo dele, escarrado. Dorothy Parker era seu heterônimo ideal. Mas a atitude crítica superior e debochada que o Zeca desenvolveu e aperfeiçoou durante toda a vida tem origem concreta em Minas e está desenhada no romance de maneira nítida. 

Numa entrevista recente, a uma pergunta sobre sua opinião a respeito da produção biográfica no Brasil, você respondeu que era possível aprender com filmes como Madame Satã e Diários de Motocicleta como construir uma biografia. Os filmes de Karin Aïnouz e Walter Salles retratariam seus biografados de maneira mais crítica que as biografias literárias? 

Todas as coisas ao mesmo tempo. Vivemos numa sociedade informatizada e informada por canais de televisão com nítido teor educativo. As biografias convencionais das grandes figuras – feitas segundo o padrão enciclopédico e escolar – deveriam procurar esses meios de comunicação, aliás, de massa. Ponto a favor. Nem todo mundo merece uma biografia e menos ainda um livro. Antônio Houaiss é um gênio. De tal maneira desenhou a Enciclopédia Mirador que nos descobriu o que o Brasil é: uma nação sem heróis. Sua enciclopédia não se organiza pelo modo convencional, o do verbete com o nome próprio. Ou seja, Houaiss nos diz que nem o grande brasileiro merece um verbete solitário na enciclopédia. Mesmo a vida dos nossos melhores é insuportavelmente fragmentada. Por que então seguir a trajetória convencional e realista de nascimento, fases sucessivas da vida e morte? Não seria melhor escolher um determinado momento “definitivo” da vida de um personagem – por exemplo, Che Guevara quando mapeava a América Latina em motocicleta – e mostrar cuidadosa e completamente essa passagem de sua biografia a fim de torná-la emblemática, simbólica de toda a vida? Foi isso o que tentei fazer em 1981 com o romance Em Liberdade. Surpreender Graciliano Ramos nos dois meses e meio de liberdade, que sucedem à prisão, período que não é narrado nas Memórias do Cárcere. Meu principal modelo não foram as memórias, mas o romance Angústia e as cartas escritas à esposa.

Mil Rosas Roubadas

Silviano Santiago

Editora: Companhia das Letras (280 págs., R$ 42,50)  

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