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ENTREVISTA: Angelo Abu

Cultura

Macunaíma

Em domínio público, ‘Macunaíma’ ganha adaptação em HQ

O volume intergra a coleção ‘Clássicos em HQ’, da Peirópolis, e é o resultado do trabalho de Angelo Abu e Dan X

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Maria Fernanda Rodrigues

16 Janeiro 2016 | 05h00

Para o ilustrador Angelo Abu, Macunaíma nasceu gibi, “mesmo que desdesenhado”. Ele foi convidado pela editora Renata Farhat Borges a adaptar um clássico literário para quadrinhos. Escolheu Macunaíma, convidou Dan X para fazer com o trabalho com ele, esperou a obra entrar em domínio público e lança, nos próximos dias, Macunaíma em Quadrinhos, pela Peirópolis. No posfácio, também em HQ, a dupla conta os bastidores da produção.

De uma fazenda em Mogiquiçaba, no sul da Bahia, onde está imerso em oficinas de uma residência artística, ele respondeu as perguntas do Estado em duas versões: ‘macunaimês’ e português mesmo.

Quais foram os desafios de adaptar 'Macunaíma'?

Escolher que parte que não ia entrar não. Essa era a parte mais difícil. Mas outras vezes também era a mais fácil e gostoso poder destrinchar toda aquela pacuera escrita.

E ter um Macunaíma tão forte no imaginário do brasileiro foi um problema?

Espinho que pinica de pequeno já traz ponta. Quanto mais versões, mais vasta a realidade. Porém o mal ganhado diabo leva.

Por que fazer a quatro mãos?

Por causa de tudo ficar sempre muito virado em tudo no livro e por causa de ter tantas histórias caxinauás, ariti taulipangue bororo, de todas estas gentes dentro da história, era por bem deixar o estilo de tudo bem metamorfado. Fizemos. Misturei meus desenhos com os do meu cumpadre, variamos nosso próprio jeito em cada quadro, mudamos de material quando deu na veneta, nos fingimos de pintor, deixamos tudo bem miscigenado de tudo.

Uma adaptação substitui o original? Acredita que quem ler 'Macunaíma' pela primeira vez em HQ vai querer ler o romance depois

As pessoas vão querer ler o livro na língua escrita por amor de sentir raiva das partes que deixamos de fora. E também pra dar água de chocalho pra imaginação pra enxergar tudo muito diferente.

Quando você leu Macunaíma pela primeira vez, com o que você se encantou?

A cor de araraúba e jenipapo da pele de Iriqui.

Agora, a segunda versã0:

Quais foram os desafios de adaptar 'Macunaíma'?

Acho que o desafio maior em uma adaptação está em conciliarmos a fidelidade à essência do original com o despudor em nos apropriarmos dele para que algo novo saia dali. Por se tratar de uma obra modernista, movimento que usou a apropriação cultural como objeto, conceito e mesmo linguagem, o nosso despudor foi maior. Nos sentimos um tanto livres para criarmos a nossa visão da obra com a desculpa de estarmos de certa forma canibalizando os antropófagos, numa espécie de Antropofagofagia.

E ter um Macunaíma tão forte no imaginário do brasileiro foi um problema?

Conversando com as pessoas, percebi que o Macunaíma do filme interpretado pelo Grande Othelo é muito forte no imaginário do brasileiro. Isso nos deu mais tranquilidade para jogar outra versão dele no mundo, livres da sensação de estarmos restringindo a imaginação dos leitores do original. Também aproveitamos o mutantismo mágico da história para variarmos bastante o traço de cada personagem de um quadro a outro, aproximando com isso da falta de precisão visual própria da literatura, do Macunaíma imaginado por cada leitor do livro.

Por que fazer a quatro mãos?

Pelo tamanho e relevância da missão achei que enriqueceria o projeto ter um parceiro tanto para debater ideias e conceitos no processo da adaptação do texto, quanto para a execução em si dos desenhos. Conheci o Dan nos anos 90 e sempre tivemos muita afinidade em ideias e alguma experiência em trabalharmos juntos com quadrinhos para a revista Graffitti. O processo foi muito simbiótico, com nossos desenhos hora se fundindo, hora querendo mesmo marcar diferença, dependendo de cada cena.

Uma adaptação substitui o original? Acredita que quem ler Macunaíma pela primeira vez em HQ vai querer ler o romance depois?

A adaptação é uma interpretação sobre o original. Um único recorte entre tantos possíveis. Sem dúvida a HQ é um convite para cada leitor se voltar para o original para encontrar sua própria visão da obra.

Quando você leu Macunaíma pela primeira vez, com o que você se encantou?

Com a linguagem em si e com aquela mistura de humor, erotismo, poesia e escracho.

Leia também: Mário de Andrade entra em domínio público e editoras já apresentam novas edições

 

MACUNAÍMA EM QUADRINHOS

Autores: Angelo Abu e Dan X

Editora: Peirópolis (80 págs., R$ 39; nas livrarias nos próximos dias)

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