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Em Daniel Sada, rigor e humor se unem em universo peculiar

Escritor mexicano exibia um grande rigor com a construção literária e o ritmo, mas não deixava de lado a graça

Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2018 | 06h00

“Para mim, ler um livro é como ouvir música. Qualquer um tem uma história para contar, mas, se não há sensibilidade na linguagem, prefiro escutá-la em uma cantina”, afirmou, certa feita, Daniel Sada. A declaração de princípios é uma mostra do rigor com a construção literária e o ritmo, mas também de seu humor.

O mexicano se notabilizou justamente por uma escrita peculiar, que se desdobrou em mais de 10 romances e várias seleções de conto e poesia. Jornalista de formação, Sada largou o ofício após alguns anos, mas sempre se manteve fiel à leitura de poesia. Costumava contar que, quando criança, a única biblioteca disponível era a de sua professora primária, integrada apenas por clássicos, como as obras do Século de Ouro espanhol.

O ouvido afinado nos versos de Quevedo e Góngora sorveu também muito da cultura popular, notadamente dos corridos, canções tradicionais ainda hoje muito presentes no Norte mexicano. Some-se a isso a atenção de Sada às peculiaridades da fala da região: ele chegou a gravar conversas com pessoas mais velhas e anotava regionalismos para depois usá-los em sua obra.

Sada iniciou a carreira literária na poesia. Ao se embrenhar na prosa, não abandonou o interesse pela métrica, o que o levou inclusive a produzir romances onde há um predomínio de formas fixas, como nos octossílabos de Albedrío. Mesmo ao abandonar esse recurso, não abriu mão do cuidado ferrenho com o ritmo, o que se traduziu por exemplo em um uso incomum (e abundante) dos dois pontos e das reticências.

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O cenário de grande parte de sua obra foi o Norte mexicano, o mesmo de Juan Rulfo. Teve o pai de Pedro Páramo não apenas como ídolo, mas também como professor no Centro Mexicano de Escritores. Para se distanciar do antecessor, fugiu da contenção do mestre e investiu em uma linguagem abundante para narrar o deserto.

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A preocupação formal talvez assuste alguns. Mas é preciso não confundir rigor com falta de humor. Em De Duas, Uma, por exemplo, a insólita investida das gêmeas Gamal para dividir o namorado tem passagens francamente divertidas e renova com esse estilo peculiar a longa tradição dos duplos na literatura. 

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