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'Desconhecer' expõe maturidade do poeta Ricardo Lima

Livro compõe paisagem com quatro elementos, rio, estrela, árvore e pássaro

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Mariana Ianelli,
ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Março 2016 | 21h32

Com trajetória de mais de 20 anos de poesia, Ricardo Lima publica seu sexto livro, Desconhecer, que reúne poemas de 2009 a 2012. Quem já frequentou a obra do autor vai reconhecer os motivos que lhe são recorrentes, o cíclico do tempo lastreando o cíclico de certas imagens e pensamentos. Aos 40 (a idade é uma das marcações temporais que aparecem nos livros), Ricardo revisita suas árvores, o apagamento da cidade onde impera o céu, a capina do quintal, a montanha, o grito dos pássaros. Também a lua reaparece, observante, imensa – e, nela, “a pegada que o homem deixou para quem?” –, a presença algo nostálgica da infância, uma obsessão pela finitude, a atenção aos sentidos do corpo e uma solidão cujo tamanho se mede pela sombra.

Dos livros do poeta, curiosamente, este é o que se mostra mais solar. Mesmo que “azul do luto” deixe aí sua marca, é o amarelo que fala mais alto, numa acácia, num ipê, numa “lâmpada de canteiro”, na manhã que “nasce clara e grave”. E porque todos os poemas se conversam, o sentido de um livro ensolarado remete ao verso de Primeiro Segundo, de 1994: “Escrever é o sol de se expor”. Isso converge para a epígrafe de Clarice Lispector que inspira o recente título: “Quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer”.

Nesse desnudamento do ser e de seu entorno, quando “chega o momento de não entender”, nesse despojamento em que as coisas e as letras igualmente vão perdendo sentido, até o ponto em que o poeta as desconhece, “perder” é um ato poético que tem o mérito da madureza. E Ricardo explora esse “perder” em sua acepção vária: “Perder ainda jovem / um amor / depois / (...) / a criança que cresceu / com a idade / dentes e os últimos rios de cabelo / (...) / a hora / na manhã que não tocou / a intimidade na roupa sem perfume / e o olhar / inutilmente / na paisagem do futuro”. Um “perder” que é também um entregar-se, um render-se ao tempo diário dentro do espectro total do tempo de uma vida, desconhecendo o que existiu antes dessa vida e o que virá depois dela.

Assim, perdendo, mais e mais se despojando, o poeta se atém ao mínimo elementar, em versos breves, abolindo inclusive as vírgulas, trabalhando com pausas internas, de modo a compor uma paisagem com alma cada vez mais nua e viva em seus quatro elementos: estrela, árvore, rio e pássaro. Escassa, a palavra “completa / o silêncio / do que a dor não matou”, de maneira que há também o que ainda não se perdeu, mesmo para alguém “de rotina precária”, que “não quer nunca mais / a tragédia da promessa”. Há um céu escuro que ainda se abre, há “uma árvore cinza que rejuvenesce”, “muda / vigorosa”, há uma planta que “se impõe”, e “na carne / tremor”. O futuro, que o poeta admite desconhecer, surpreendentemente talvez seja feito de um mundo cultivado por ele: “Neto do meu filho / (...) / sombra de algumas sementes / (...) uma encosta / com floresta”. Sem tragédia, “perder” e “perder-se” é o que faz vingar para Ricardo Lima um novo começo, e é sempre o que o traz de volta.

* MARIANA IANELLI É POETA E AUTORA DE O AMOR E DEPOIS, ENTRE OUTRAS OBRAS

DESCONHECER

Autor: Ricardo Lima

Editora: Ateliê (104 págs.;R$ 40)

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