AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO

Com ‘A Vista Particular’, Ricardo Lísias lança romance ácido sobre o Brasil

Em novo romance, escritor provoca o senso comum nacional com história irônica situada no Rio

Entrevista com

Ricardo Lísias

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2016 | 07h00

Um artista plástico de certa reputação desce a Rua Sá Ferreira até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, completamente pelado e fazendo um gingado particular: dezenas de curiosos filmam a “performance” e sobem os vídeos no YouTube. Ele vira uma estrela na web, conhece o chefe do tráfico no morro Pavão-Pavãozinho e inicia sua obra-prima: uma intervenção na comunidade, uma espécie de metonímia, sinédoque, que acaba tomando dimensões inesperadas. Essa é a premissa um tanto quanto maluca do novo livro de Ricardo Lísias, A Vista Particular, publicado pela Alfaguara.

No meio desse aparente surrealismo, o autor aborda de perto vários temas do Brasil contemporâneo, como a Olimpíada, a violência policial, a espetacularização de tudo via redes sociais e uma permanente injustiça social. Entre as obras que o personagem monta na sua instalação, estão, por exemplo, “Família com um filho no tráfico e outro na escola” e “Local em que a polícia pega a parte dela”. Tudo isso com uma estrutura narrativa particular e irônica.

O livro já estava pronto no Rio quando um tiroteio (real) assustou os moradores da comunidade e obrigou os comerciantes da região do Pavão-Pavãozinho, numa área nobre da zona sul do Rio, a fecharem as portas. Um homem foi baleado pela polícia e caiu de uma encosta do morro, talvez a mesma que apareça em algumas cenas de A Vista Particular. “Ligaram da minha editora e me contaram. Não acreditei. Foi um negócio bizarro, porque eles poderiam estar na laje que os personagens dão uma pirada. Que loucura”, conta Lísias.

Desde 2009, com O Livro dos Mandarins, o escritor se firmou como uma das vozes mais criativas da literatura brasileira contemporânea (cinco livros vieram antes). No Mandarins, o notável era a engenhosidade da narrativa; com O Céu dos Suicidas (2012) e Divórcio (2013), ele explorou com força os limites da autoficção; com a série Delegado Tobias (e-galáxia) e com o Inquérito Policial: Família Tobias (Lote 42), experimentou formatos e plataformas, sem nunca perder de vista a trama – e foi o Delegado que lhe trouxe, sim, um problema com a polícia.

Em setembro de 2015, Lísias recebeu uma intimação para comparecer à sede da Polícia Federal em São Paulo e esclarecer suposta falsificação e uso de documento público. O motivo era uma peça fictícia criada para a série. A pedido do Ministério Público Federal, a PF era obrigada a instaurar um inquérito. Lísias então teve que contratar um advogado e o processo todo durou quase um ano. Sobre isso, e sobre A Vista Particular, Lísias falou ao Estado.

O que aconteceu no processo envolvendo o Delegado Tobias?

Houve uma tarde inteira de depoimentos e o processo foi arquivado. A PF no final das contas fez um ótimo trabalho, o delegado estava numa situação parecida com a minha. Foi bem desagradável. Tem gente que trata esse negócio como uma conquista minha, o que eu acho absurdo. Sofri uma violência, tive que contratar um advogado. Imagina investigar personagem de livro? Tudo terminou bem com a sentença, mas e o gasto do poder público com isso? Uma coisa dessa não poderia ter acontecido.

Um dos temas de A Vista Particular é a incapacidade de a justiça lidar com a arte.

Veio direto desse episódio, foi um telegrama. A Justiça não consegue lidar, mas não só, são as pessoas em geral. É uma coisa que fui aprendendo aos poucos: as pessoas compreendem as coisas mais incríveis a partir da arte. A impressão é que o aspecto artístico é o que não é compreendido, é deixado de lado. Qualquer outra coisa ganha da arte. É impressionante. Quando li o inquérito verdadeiro, pensei que eu que tinha escrito. Os caras me plagiaram por antecipação. Eles escreveram o que eu escreveria, se aquilo fosse ficção. Mas não era. É um troço doido, porque a coisa vai aumentando. Vai indo até uma hora que explode tudo, acaba. Minha tentativa (nesse livro novo) foi essa, as coisas vão se demolindo por si mesmo. É a impressão que dá do negócio todo. E as pessoas assistindo, comemorando.

Por que escolher o Rio de Janeiro como cenário?

O Rio tem um negócio muito impressionante: é muito hipócrita. Os caras jogando um ao outro lá de cima, aquela p... fuzilaria, Amarildo, e tudo do lado de Ipanema, etc. A Claudia… aí os caras: “cidade maravilhosa”. Cidade linda. As mais belas vistas… Porra, vocês estão doidos. Que loucura. O Divórcio é muito paulistano, aí fui buscar outro ambiente. O Rio caiu como uma luva. E a Olimpíada? Os caras fecharam ali e deu tudo certo. É espantoso, deu tudo absolutamente certo. Assim que acaba eles anunciam que não vão pagar a limpeza. Eu fui na UERJ no mês passado, e o governo não paga a limpeza, acha que está tudo de boa. Aí vai na praia… é um universo inacreditável. É bizarro. Rio de Janeiro é f.... Eles fazem tour na favela. É bizarro, sai do hotel. Pensei em fazer, mas não fiz. Não queria chegar tão perto, queria ficar distante de um realismo muito cru. Não era para ser realista. 

Você faz um uso deliberado da ironia na sua literatura?

Eu não acho esse livro engraçado, de gargalhar. Um leitor carioca disse que morreu de rir. Mas não acho engraçado. Não queria que o narrador fosse levado a sério, porque não acho que as coisas podem ser levadas a sério. O livro vai se desconstruindo. Não levo mais a sério a literatura, pelo menos o gênero romance, o gênero ficção. As coisas são muito difíceis de alcançar. Não é cabotinismo, mas acho muito difícil a linguagem. Por outro lado, não poderia levar a sério nem a mim mesmo nem ao livro, se não é ridículo. Aí botei outro narrador. As pessoas levam a arte a sério demais. Não dá para levar. Artistas contemporâneos já perceberam isso. É muito falha a literatura. Diante da precariedade da situação toda, eu queria mostrar a minha própria precariedade, e a do projeto. Aí tem um pouco de ironia, sim.

O uso da ironia é um traço que ficou mais raro na produção contemporânea?

Não, por exemplo, tem o Michel Houllebecq, o Coetzee... No geral, as pessoas já notaram que vivemos um momento atual que já não é de crise. A crise talvez seja o Nouveau roman, o Samuel Beckett… Já somos o pós-crise. E, nas artes plásticas, então nem se fala. A ficção não vai dar conta: você percebe que tem que fazer outras coisas. Que também não dão conta. O Beckett já falava: vai dar errado. Agora já temos essa consciência. E você fica fazendo, fazendo de novo, meio que vendo, olhando, é um troço bem doido. O Divórcio foi um auê, pessoas dizendo “essa parte aconteceu”, “essa parte não”... etc. Hoje em dia eu falo que tudo aconteceu, e que nada. É o que você quiser. 

O livro parece tratar de uma desconexão entre o artista e a vida política do Brasil, uma desconexão geral entre tudo e entre todos. É isso mesmo?

As pessoas acreditam em ‘realidade’. Eu fui viajar no dia da eleição municipal (2 de outubro), à noite, e no aeroporto vi o resultado. Até um pouco antes de sair de casa, tinha gente dizendo: “o Fernando Haddad vai pro segundo turno…”. E não é gente burra, as pessoas são inteligentes, sérias. A catástrofe estava diante delas, era visível, mas ninguém olha. Aí ficam com esse negócio de ‘realidade’. Aí vão na arte e querem ver a realidade na arte. É alguma tara por realidade. Eu me espanto porque a filosofia já terminou com isso faz um século, por baixo. Os estudos linguísticos já estabeleceram que a linguagem não reproduz a realidade. Isso é Saussure. E, no fim das contas, a galera fica lá, “vai dar certo…”. Não vai dar certo. É visível.

Você se diria um pessimista?

Já é um pós-pessimismo. A situação é um horror. Absolveram os caras do massacre do Carandiru. Aí li no jornal que prenderam um ladrão de salame. Por que eu não seria preso (com o processo do Delegado)? Não aconteceu, mas como é que pode se achar que as coisas estão bem? A gente está num estado catastrófico. Na UERJ, os sacos de lixo ficam empilhados. Austeridade, na Europa, já foi vencida. Aqui eles querem fazer, começar. O dia inteiro saindo gráfico, matéria, dizendo que vai dar errado. Os rendimentos dos ricos não são tributados. Não é cortar o dinheiro do lixo da UERJ que vai fazer funcionar. É bizarro. Nem a Angela Merkel leva esse troço a sério. E os caras aqui fazendo agora. Sou totalmente pessimista.

TRECHO

“A exposição ‘Comunidade brava: turismo Brasil’ trouxe algo de novo para a cidade do Rio de Janeiro. As artes plásticas não são a minha praia, continuou um dos jornalistas mais lidos do Brasil, Merval Pereira. Não vou entrar no mérito artístico das obras expostas. Estive duas vezes no Pavão-Pavãozinho e gostei do que vi. E, mais ainda, do que não vi. Além dos que estavam expostos, nenhum traficante desfilava com armas à vista, a violência parecia abolida daquele ambiente e as drogas viraram coisa de museu. Mesmo assim não posso deixar de perguntar: para onde vai a renda dos ingressos? O pagamento é feito em dinheiro. Aquela quantia toda é depositada em um banco ou vai para o caixa 2 do Partido dos Trabalhadores?

A pergunta incendiou as redes sociais, como tudo o que diz respeito à exposição. Biribó ficou incomodado com a repercussão. Isso de depositar dinheiro é uma bobagem. Imaginando a reação do colega videomaker, Arariba enviou um e-mail (...). Não se preocupe, ele respondeu à pergunta do outro, abra sim a exposição hoje. Para evitar qualquer inconveniente, Biribó deixou de sobreaviso os homens que não trabalham no evento e instruiu dois olheiros a dar o alarme caso algo acontecesse na entrada do morro.”

A VISTA PARTICULAR

Autor: Ricardo Lísias Editora: Alfaguara (128 páginas, R$ 34,90)

Mais conteúdo sobre:
Rio de Janeiro Samuel Beckett

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