Marcia Alves/Estadão - 9/3/1998
Marcia Alves/Estadão - 9/3/1998

Claudio Willer dedica livretos a cinco poetas brasileiros contemporâneos

Nova coleção do autor traz nomes como Eunice Arruda e Péricles Prade

Wilson Alves-Bezerra, ESPECIAL PARA O ESTADO

12 Janeiro 2018 | 18h43

O poeta, tradutor e crítico literário Claudio Willer acaba de lançar uma série de cinco livretos, dedicados a poetas brasileiros contemporâneos: Eunice Arruda (1939-2017), Péricles Prade (1942), Celso de Alencar (1949), Floriano Martins (1957) e Mirian de Carvalho. Os livros, de 48 páginas cada um, são acompanhados de uma breve antologia do autor analisado. Levam o selo da editora Quaisquer e trazem na capa uma obra do artista plástico Valdir Rocha, também responsável pela editora.

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É interessante indagar-se sobre o que pensaria um curioso leitor futuro, brasileiro, apreciador de poesia, quando, vasculhando num sebo, encontrasse os pequenos volumes temáticos assinados por Willer. Pois são, no campo do ensaio, os sucessores de dois importantes livros do escritor: o alentado Um Obscuro Encanto (Civilização Brasileira, 2010), que tratava - com fôlego invejável - da gnose e do gnosticismo na tradição da poesia ocidental, de William Blake a Hilda Hilst - fruto de sua tese de doutoramento na Universidade de São Paulo; e também Os Rebeldes - Geração Beat e Anarquismo Místico (L&PM, 2014), resultado de um pós-doutorado na mesma universidade, no qual analisava aquele grupo de poetas norte-americanos - sobretudo Jack Kerouac - a partir da heresia medieval do Espírito Livre.

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Ao impertinente leitor futuro não escapará a passagem da análise de poetas do cânone, sobretudo estrangeiros, nos volumes das grandes editoras, aos livretos de poetas menos conhecidos, estudados e comentados, todos brasileiros. Como tampouco lhe passará despercebido que os livros da Quaisquer não trazem nem código ISBN, endereço, telefone ou e-mail de contato - praticamente uma heresia no mundo do capitalismo e das comunicações imediatas. Na contramão da ideia de tentar chegar ao máximo de leitores, os livros da Quaisquer já declaram que estão fora do mercado, que serão vendidos em feiras, lançamentos ou de mão em mão.

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Assim a artesanal coleção willeriana remete - seja em sua produção, temática ou circulação - de modo quase imediato a outra, publicada há meio século, também por um artista, o editor Massao Ohno (1936-2010): a coleção dos Novíssimos. Marcada igualmente pela heterogeneidade, a coleção de Ohno lançava poetas que estavam na casa dos 20 anos, dentre eles, além do próprio Willer, dois dos escritores agora recobrados: Péricles Prade e Eunice Arruda.

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Sob o signo da heterogeneidade, Willer se debruça sobre a produção dos veteraníssimos poetas. No que diz respeito ao mais jovem deles, o editor da revista Agulha, o cearense Floriano Martins, parte da perturbadora série de poemas Blacktown Hospital Bed 23. Os poemas são fruto de uma experiência-limite do autor: vítima de uma embolia pulmonar, escreve poemas delirantes que, nas palavras de Willer, “interessam não pela excepcionalidade da circunstância de sua criação, porém pela continuidade com relação ao todo constituído por sua produção”; e do livro escava e recolhe fragmentos como “A noite se dilui como uma sopa de gemidos. / Alguém me tire daqui. / Eu não quero eu não posso morrer antes de mim”.

Do demiurgo Martins, pode-se passar à recém-falecida Eunice Arruda, “a mais intimista das poetas públicas”, para cuja análise Willer recorre ao controverso binômio vida-obra de modo bastante fecundo, sob a luz da máxima de Sontag: “Não se pode interpretar a obra a partir da vida. Mas se pode, a partir da obra, interpretar a vida”. Assim é que cavouca a melancolia - “Ninguém chora mais que / eu / Ninguém chora mais baixo / que / eu” (1963) - nos textos da autora como que a buscar decifrar algo da discreta colega, com quem conviveu desde os anos 60, e de quem sabe “nada ou quase nada de sua vida pessoal”. Um ardoroso exercício de delicadeza exegética de Willer.

Outro pequeno deus é Péricles Prade, que anuncia em um poema o mistério tal como o concebe e resgata em sua poética - “É o divino / que me atrai / na morada dos venenos” - e também a ironia, tratada pelo ensaísta tanto em chave esotérica quanto demasiado humana: “O prazer do enforcado / é a beleza da corda (...) / O enforcado tudo confessa / e só não canta porque não pode”. Desse último poema, do livro Os Faróis Invisíveis (1980), Willer mostra como se cruzam o arcano do tarô e a denúncia das torturas da ditadura brasileira.

Mais do que um gesto de recusa ao mercado, há algo mais nesta pequena coleção de livros: uma aposta de editor e autor no que a literatura tem de humano, a tentativa de reter o gesto e a letra de poetas de talento, que construíram trajetórias consistentes, não necessariamente acompanhadas do reconhecimento público. Numa palavra: há uma aposta não só nos leitores presentes, mas no leitor futuro, que encontrará esses livros num sebo de alguma cidade, e levará adiante, com fervor ou discrição, o legado que se lhe oferece.

De Claudio Willer pode-se dizer que se encontra no vigor de seu exercício crítico, porém não se pode dizer o mesmo de sua situação econômica. Ativo, aos 77 anos de idade, sente o preço que a sociedade brasileira cobra pelo não reconhecimento econômico da poesia e dos poetas. Há alguns dias, o Instituto Hilda Hilst lançou uma campanha de ajuda financeira a Willer, aberta à contribuição de quaisquer interessados. Dias antes, em seu blog, ele declarara, no dia de seu aniversário: “Adquiram meus livros”.

* WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR, TRADUTOR E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR

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