Wani Olatunde
Wani Olatunde

Chimamanda Ngozi Adichie tem livro de contos lançado pela primeira vez no Brasil

Em 'No Seu Pescoço', autora nigeriana explora temas que também aparecem nos seus romances

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 06h01

Chimamanda Ngozi Adichie virou uma estrela na internet: suas participações no programa de palestras TEDTalks somam milhões de visualizações. Um trecho foi usado por Beyoncé na canção Flawless (outros 60 milhões de cliques no YouTube). Suas duas obras mais recentes são manifestos feministas que figuram nas listas de mais vendidos mundo afora. Mas o livro que chega agora ao Brasil, No Seu Pescoço, uma reunião de contos publicada nos EUA em 2009, vem para lembrar que a nigeriana é, antes de tudo, escritora de ficção.

Em 12 histórias curtas, a autora explora temas que também aparecem nos seus romances, especialmente Meio Sol Amarelo e Americanah (romance de 2014, outro dos trabalhos que transformaram Chimamanda em celebridade): migrações entre África e EUA, relacionamentos amorosos, a relação de mulheres negras com o próprio cabelo. Racismo.

O desafio que ela se coloca, entre ser artista e ser ativista ao mesmo tempo, é buscar a “verdade emocional”, porque ela concorda que escritores em uma missão podem se tornar maus autores. “Quando artistas permitem que a missão afunde todo o resto, quando personagens se tornam não defeituosos e complexos, mas falantes achatados, isso (fazer arte ruim) pode ser verdade”, diz, por e-mail, ao Estado.

“Dito isso, eu realmente acho que a maior parte dos artistas está numa missão, a questão é se essa missão é bem executada. O próprio ato de escrever, de contar uma história, é político. Porque a arte não cai do céu. A arte que criamos é um produto dos espaços que ocupamos no mundo. E eu não penso que a missão deva ser grandiosa, ela pode simplesmente ser, por exemplo, a missão de humanizar uma parte do mundo que há muito foi enredada no estereótipo.”

O sucesso com o ativismo feminista também é ambíguo para a escritora - ela relata vários casos de pessoas (homens) que lhe dirigiram hostilidades em eventos públicos, num nível que ela não havia experimentado antes. “E agora me chamam para qualquer evento feminista no mundo”, brincou em outra entrevista recente.

“Quando escrevo sobre feminismo, isso vem de um lugar por fim ideal, de um desejo de trabalhar em direção a um mundo que é verdadeira igualitário”, diz. Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto também foi lançado pela Companhia das Letras este ano (o título original é Dear Ijeawele, or A Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions).

A obra é uma versão reduzida de uma carta que Chimamanda enviou para uma amiga, que lhe pediu conselhos para criar a filha como feminista. “Penso que é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens”, escreve - ela também é mãe de uma pequena de 20 meses. O livro é um dos 10 mais vendidos do Brasil este ano na categoria não ficção, segundo o PublishNews.

Sobre os contos de No Seu Pescoço, Chimamanda diz que eles representam um lugar na sua carreira, mas não demonstra muito entusiasmo ao falar deles: a recepção crítica em língua inglesa, na época do lançamento, foi mista.

Michiko Kakutani escreveu no The New York Times que o livro mostra a África “em uma comovente coleção de contos, e que não é aquela África com que os americanos estão familiarizados pela televisão ou manchetes de jornal”. Em outra resenha no mesmo veículo, o crítico Jess Ross escreve que em alguns contos Chimamanda parece tentar “entregar as notícias que o Ocidente quer ouvir sobre a África: vítimas de dar pena, vilões incorrigíveis, sobreviventes inspiradores”. Em seguida, porém, ele ressalta que essa impressão não dura muito e que a autora “calmamente eviscera as pretensões dos ocidentais cujo interesse na África mascara uma venalidade gananciosa e vaidosa”.

“Para mim, escrever ficção é um processo de contar a minha própria verdade e, ao mesmo tempo, espero levar outras pessoas comigo”, diz Adichie ao Estado. “A decisão de escrever cabe a uma pessoa, mas a decisão de publicar o trabalho é sobre outras pessoas. Eu não pretendo, na minha ficção, mudar a cabeça de ninguém, mas sempre fico feliz ao escutar que mudei.”

Ela rejeita a ideia de que os contos tratam sobre mal-entendidos. “Culturas são diferentes e pessoas olham de maneiras diferentes para as mesmas coisas”, explica. Ela também não quis comentar se mais ficção vem aí. “Sou uma mulher igbo supersticiosa e não falo sobre trabalhos em andamento”, ressalta.

Em uma entrevista ao Estado em 2014, Chimamanda se dizia feliz com Obama na presidência, embora não concordasse com algumas decisões do ex-presidente americano. Agora, com Trump destilando ataques contra imigrantes, ela diz se sentir muito mal. “Esse fato (a eleição de Trump) me fez perceber como todas as democracias são profundamente frágeis”, admitiu ainda.

TRECHO

“Você está vivo”, perguntei. Eu estava bastante abalado. Minha família e eu havíamos visto Ikenna no dia de sua morte, em 6 de julho de 1967, o dia em que evacuamos Nsukka às pressas, com um estranho sol incandescente no céu e, perto dali, o bum-bum-bum dos canhões, enquanto os soldados federais avançavam. A milícia nos deu passagem pelos portões do câmpus e gritou que não devíamos nos preocupar, pois os vândalos - era assim que chamávamos os soldados federais - seriam derrotados em questão de dias, e nós poderíamos voltar. (...) Achei que ele estava sendo muito imprudente em voltar, já que o som dos canhões parecia cada vez mais próximo, e nossas tropas iam afastar os vândalos em uma ou duas semanas (...). Mas eu também estava convencido de nossa invencibilidade coletiva, da justiça da causa de Biafra e, por isso, não pensei muito mais no assunto até que soubemos que Nsukka se rendeu no mesmo dia (...). O homem que nos deu a notícia, um parente do professor Ezike, também nos contou que dois professores tinham sido mortos. Um deles tinha discutido com um soldado federal antes de levar um tiro. Ninguém precisou nos dizer que tinha sido Ikenna.”

NO SEU PESCOÇO

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Trad.: Julia Romeu

Editora: Companhia das Letras (240 págs., R$ 39,90)

TRECHO

“Ensine a ela que ‘papéis de gênero’ são totalmente absurdos. Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa ‘porque você é menina’. 'Porque você é menina’ nunca é razão para nada. Jamais. Lembro que me diziam quando era criança para ‘varrer direito, como uma menina’. O que significava que varrer tinha a ver com ser mulher. Eu preferiria que tivessem dito apenas para ‘varrer direito, pois assim vai limpar melhor o chão’. E preferiria que tivessem dito a mesma coisa para os meus irmãos.”

PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS

Trad.: Denise Bottmann

Editora: Companhia das Letras (96 págs., R$ 14,90)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.