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Entrevista. Jean-Pierre Mourey

Romance de Bioy Casares ganha adaptação feita pelo francês Jean-Pierre Mourey

Chega ao Brasil 'A Invenção de Morel' em quadrinhos

Guilherme Sobota

08 Junho 2014 | 19h 37

 “Perfeita” foi a palavra que Jorge Luis Borges usou para definir a trama de A Invenção de Morel, livro que Adolfo Bioy Casares publicou em 1940 e que ganhou uma bonita adaptação aos quadrinhos feita pelo francês Jean-Pierre Mourey, publicada no Brasil pela L&PM.

O desafio não era simples: o romance de Bioy Casares transita por um realismo mágico que, mesmo no plano das palavras, está situado num terreno complexo e difícil de imaginar. Transportar toda a força poética do livro para uma série de imagens visuais não parece tarefa fácil. Mourey conseguiu.

Criando um esquema bicromático, circular e simétrico, o quadrinista faz com que cada segmento do seu livro corresponda a uma parte do romance. Segundo ele, no posfácio, adaptar é “na verdade, conduzir uma espécie de investigação para decifrar esse mecanismo e recriar um dispositivo narrativo inteiramente novo”. Uma crítica literária, uma releitura, uma reinvenção.

Jean-Pierre Mourey nasceu numa pequena cidade no oeste da França (Luxeuil-les-Bains) e estudou artes plásticas. Leu Bioy Casares quando jovem e se impressionou com a complexidade narrativa do romance. A tentativa foi, então, de não perder elementos ao transpor a obra para os quadrinhos. “O interesse do trabalho de adaptação está em encontrar soluções, equivalentes gráficos e narrativas interessantes em relação ao texto original”, diz o quadrinista ao Estado.

Reprodução/Jean-Pierre Mourey
Mourey fez um trabalho com cores para recriar o ambiente cíclico do livro

Uma das soluções, portanto, foi transformar elementos fundamentais da história, como o ciclo da lua, em peças gráficas presentes e importantes para a adaptação. É bom destacar que os registros do francês operam sempre na área do realismo: representações de pessoas e coisas são uma reprodução proporcional da realidade. A narrativa dá conta de “aliar o fantástico ao sentimental”, e é aí que a obra ganha relevância.

Em conversa com o Estado, Mourey falou sobre o processo de adaptação do romance, ofereceu algumas chaves de leitura para a própria produção gráfica e forneceu verdadeiros ensinamentos sobre a adaptação de obras literárias.

De onde surgiu a inspiração para adaptar este romance?

As numerosas reflexões suscitadas pela leitura do livro coincidiam com algumas ideias que eu tinha a respeito das possibilidades narrativas e formais próprias dos quadrinhos. Foi, portanto, a partir desse estímulo intelectual que me propus a adaptar o romance, atacando, em primeiro lugar, a dificuldade de conceber uma estrutura narrativa específica dos quadrinhos, equivalente à construção muito elaborada do romance.

Reprodução/Jean-Pierre Mourey
Quadrinista criou um esquema narrativo próprio para o complexo romance

Qual foi o processo que lhe permitiu encontrar o equilíbrio entre os realismos e as relações fantásticas, fundamentais no livro de Bioy Casares? 

Como o descreve Jorge Luis Borges em seu prefácio do romance de Bioy: “A Invenção de Morel é uma obra ‘de imaginação raciocinada’”. As noções de fantástico e de real são importantes na condução da história, É por essa razão que, na adaptação, optei por um grafismo estilizado e baseado em elementos do realismo. A tonalidade fantástica da história me levou, em certas sequências, a quebrar o caráter linear da narrativa: o encadeamento, a articulação de casos para, às vezes, ser cronológica. No conjunto, todos os elementos gráficos, os detalhes dos quadrinhos (como, por exemplo, os ciclos da lua ou os motivos dos costumes dos diferentes personagens) são muito importantes, eles participam ao mesmo tempo da estética e do sentido profundo da história.

Um dos pontos fundamentais do livro de Bioy Casares é particularmente o fato de os personagens, embora vivendo em grupo, experimentarem a impossibilidade de se comunicar. Por narrarem a história por intermédio de imagens, os quadrinhos reforçam um pouco essa ironia, concorda?

O dispositivo inventado por Morel inscreve-se numa engrenagem mais ampla que é a trama narrativa elaborada por Bioy: achei interessante acrescentar a esses arranjos complexos as dimensões do desenho e da sequencialidade, próprias dos quadrinhos. O personagem principal da história deixa-se, de certo modo, enredar na máquina de Morel, e o jogo de imagens e layouts, que me esforcei por desenvolver nesta adaptação, aumenta, na realidade, o sentimento de incomunicabilidade e de solidão que ele pode experimentar em relação aos outros habitantes da ilha.

No que esse processo resultou para você?

Em geral, esse trabalho de adaptação me permitiu refletir sobre os mecanismos e a linguagem dos quadrinhos, em relação aos múltiplos níveis de sentido suscitados pelo texto de Bioy: a meditação metafísica sobre a circularidade do tempo, sobre a possibilidade de reproduzir as imagens, a exploração da fantasia amorosa.

Um dos pontos mais interessantes do seu trabalho é o processo de recriação do universo cíclico do livro. 

Toda a história é tratada em bicromia: eu utilizei cinco cores que são divididas simetricamente entre a primeira e a segunda parte da narrativa. Essa utilização peculiar das cores tem duas funções: por um lado, permite marcar a passagem de um capítulo ao outro; por outro lado, a organização destas bicromias desempenha um papel fundamental na estrutura do quadrinho.

É um trabalho original sobre um clássico da literatura marcado pela originalidade. 

A Invenção de Morel baseia-se numa narração circular; ao chegar ao fim da história, o leitor pode se sentir estimulado a lê-la de novo. O quadrinho é um meio de expressão peculiar que, por meio da página, permite ao leitor contemplar ao mesmo tempo começo, meio e fim de uma ação, no próprio ritmo e com as possibilidades de antecipação e de retroatividade na leitura. Achei que essa ideia de coexistência de passado, presente e futuro se coadunava com o engenhoso dispositivo do romance. 

Como você vê a questão da adaptação dos grandes clássicos da literatura aos quadrinhos?

Na adaptação de obras literárias em quadrinhos, o problema que deve ser evitado é limitar-se simplesmente a ilustrar as obras. Considero importante manter o equilíbrio entre a compreensão aprofundada da obra literária original e a criação de uma história em quadrinhos que seja um objeto totalmente novo e singular, e que leve em conta os recursos próprios da narração gráfica.

A INVENÇÃO DE MOREL

Autor: Adolfo Bioy Casares

Adaptação: Jean-Pierre Mourey

Tradução: Alexandre Boide

Editora: L&PM (128 págs., R$39,90)

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