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Capital é cenário de sequestro e morte no livro de Tony Bellotto

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 03h 00

Músico e escritor retoma seu detetive após nove anos

Depois de publicar a terceira aventura de Remo Bellini, detetive que vive em São Paulo, no romance Bellini e os Espíritos (2005), o escritor e músico Tony Bellotto entrou em uma espécie de saturação da literatura policial, mesmo com uma carreira ainda iniciante no gênero. “Passei a ser convidado apenas para encontros que discutiam tramas de suspense e, pior, lá, as pessoas mais se preocupavam em desvendar mistérios que com a literatura em si”, justifica ele, que partiu para outros campos, lançando Os Insones (2007), No Buraco (2010) e Machu Picchu (2013) - os dois últimos, aliás, seus romances mais distantes do policial. “Uma maneira de comprovar que leio com o mesmo prazer Raymond Chandler e Ernest Hemingway.”

Mas as livrarias acabam de receber Bellini e o Labirinto (Companhia das Estrelas), com o detetive agora desvendando um crime em Goiânia. O que aconteceu? Bellotto explica: “Há mais de um ano, fui convidado por André Conti (um dos editores da Companhia) para criar o texto de uma graphic novel sobre meu detetive, com desenhos de Pedro Franz. Fiquei animado e escrevi Bellini e o Corvo, que me permitiu reencontrar meu personagem, agora já idoso, em um futuro indefinido em Florianópolis”, conta. “Foi o suficiente para começar a escrever um novo romance policial com o prazer de quem reencontra um velho amigo.”

Divulgação
Filme. Fábio Assunção em ‘Bellini e a Esfinge’, de 2001

De fato, os nove anos que separam essa aventura da anterior provocaram algumas mudanças no detetive, mas com a inteligência e a verve intactas, além do hábito de almoçar todos os dias no boteco Luar de Agosto. Bellini e o Labirinto o leva agora a Goiânia, onde vai investigar o sequestro seguido de assassinato de Brandão, milionário que forma uma famosa dupla sertaneja com o irmão, Marlon.

A trama permitiu que Bellotto tratasse de assuntos que o intrigavam. Primeiro, a música, em especial a sertaneja, que alcança muitos fãs. “É um universo que conheço por também fazer excursões pelo Brasil”, justifica o escritor/músico, que também planejava ambientar algum de seus romances na capital goiana.

“Goiânia é uma cidade louca. Eu a visito desde os anos 1980, quando comecei a fazer apresentações com os Titãs por lá e sempre observei que se trata de uma capital cosmopolita com ar de província: carrões convivendo com carroças”, conta Bellotto, inconformado ainda com o acidente radiológico acontecido em 1987, em Goiânia, o chamado acidente com o Césio 137. “Foi a maior tragédia nuclear acontecida fora de uma usina atômica e, apesar de ter causado problemas de contaminação e afetar a saúde de diversas pessoas, tornou-se um assunto esquecido.”

Ele aproveitou para incluir o fato também na história, o que alimentou a espiral de traições e desconfianças na qual Bellini acaba inserido, confusões que o fazem suspeitar da própria sanidade. Com o novo romance, Tony Bellotto aprimora o estilo da escrita policial, aproximando-se de seus ídolos do gênero, como o belga Georges Simenon (1903-1989), cujo personagem mais famoso é o comissário Maigret, e o catalão Manuel Vásquez Montalbán (1939-2003), criador do detetive Pepe Carvalho. “São autores cujo trabalho admiro muito”, conta.

BELLINI E O LABIRINTO

Autor: Tony Bellotto

Editora: Companhia das Letras (280 págs., R$ 39,50)