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Caixa traz textos pouco conhecidos de Rubem Braga sobre política, música e artes

Escritor alternava humor com acidez para revelar seu conhecimento sobre música, política e artes plásticas

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2016 | 05h00

O Rubem Braga cronista incomparável, aquele que redimensionou o gênero no Brasil, é amplamente conhecido. Também o Rubem Braga correspondente de guerra, o mesmo que conseguiu a proeza de apontar para aspectos tocantes durante momentos tão terríveis. E ainda o Braga ecologista, o visionário que defendia a natureza em uma época em que isso mais parecia um capricho, já foi, de idêntica maneira, muito bem divulgado. Mas o cronista capixaba tratou com igual clareza e sensibilidade de assuntos pouco lembrados, como política, música e artes visuais. São justamente esses temas que compõem a coleção de três volumes lançada agora pela editora Autêntica, Rubem Braga – Crônicas.

O cronista (1913-1990) deixou, em 62 anos de atividade profissional, a impressionante marca de 15 mil textos. Profissional da escrita, ele opinava sobre quase tudo com rara sensibilidade. Por meio de colunas escritas para a imprensa, Braga empenhava-se em defender a soberania do homem – e não apenas em crônicas líricas e delicadas. “O escritor capixaba sempre defendeu a democracia e os direitos humanos e criticou a desfaçatez dos donos do poder, a violência policial, a miséria dos trabalhadores rurais e a situação desastrosa da educação e saúde públicas”, atesta o também escritor Milton Hatoum, cronista do Caderno 2, no texto da orelha do volume Bilhete a um Candidato & Outras Crônicas Sobre Política Brasileira, organizado por Bernardo Buarque de Hollanda, convidado pela editora assim como os dois outros selecionadores.

Braga costumava diferenciar seus artigos de jornal do gênero da crônica, observa Hollanda, no posfácio da edição. “O primeiro tipo, para o escritor capixaba, era material efêmero, circunscrito ao interesse ordinário do dia a dia, cuja importância se esfumava com a passagem do tempo”, escreve. “O segundo, ao contrário, embora divulgado no mesmo suporte diário, era capaz de ter vida longeva, pelo significado mais amplo nele contido e projetado.”

De fato, neste volume, Braga discorre sobre o poder em textos datados da década de 1940 à de 1980, período que cobre desde o fim da ditadura de Getúlio Vargas até o incompleto mandato de Fernando Collor de Melo. É particularmente interessante a cortante ironia com que o cronista trata do caudilho gaúcho que, durante seu governo imposto, promoveu a prisão de vários intelectuais, entre eles, Braga. Em texto escrito para o Correio da Manhã e datado de 1951, o cronista aproveita o relato da inauguração de 8 mil casas a comerciários, cerimônia comandada pelo então presidente, general Eurico Gaspar Dutra, para apedrejar a pompa e circunstância que sempre marcaram as cerimônias chefiadas por Vargas, enquanto Dutra foi “acompanhado apenas de oito pessoas, além de dois moleques que andavam por ali e saíram no retrato”.

“Lidos em conjunto, os artigos ressoam com força nos dias de hoje, como se o cronista também olhasse para o futuro”, continua Hatoum que, como prova, destaca um trecho publicado em 1949: “Há uma cansativa tristeza, um tédio infinito nesse joguinho miúdo de combinação através dos quais se resolve o destino da pátria”.

Um olhar arguto e também premonitório Braga revelava quando tratava de música, tema do segundo volume, Os Moços Cantam & Outras Crônicas Sobre Música, organizado por Carlos Didier. Apesar de se autodenominar um “homem de pouca música e nenhum ritmo” e de ser um “homem de ouvido grosso”, Braga foi um visionário. Didier lembra que ele já usava a expressão bossa nova cinco anos antes de ela se tornar corriqueira (“ontem à noite entrou com uma bossa nova de cantar”), além de ser um dos primeiros a notar o talento de um certo Chico Buarque (“a maior revelação da música popular brasileira dos últimos tempos”). 

Se a política e a situação social do País podiam lhe deixar mais casmurro, a música representava um bálsamo para Rubem Braga, fiel frequentador da noite e cultivador de boas amizades. As crônicas do volume traçam um panorama completo do cenário da canção carioca, desde as boates mais badaladas como Sacha’s até o descompromissado Zicartola, onde, relata ele em uma crônica de 1964, antes de assistir a uma homenagem a Dorival Caymmi, conseguiu ouvir Cartola, Ismael Silva e Nelson Cavaquinho. “Cartola está com muita música boa, mas tive um ataque de saudosismo e pedi para ele cantar aquele samba que começa assim: ‘Não quero mais amar ninguém’, que ouvi de sua boca, em 1935, na Estação Primeira”.

Se era generoso com artistas e estilos (“O samba! Foi uma coisa que nunca me deixou desanimar do Brasil”, escreveu em 1948), Braga sabia também ser rigoroso até com as unanimidades. Como no artigo Um Bom Retrato de Vinicius, publicado em 1984, na Revista Nacional – o cronista é direto: “É claro que entre as letras de Vinicius há muitos instantes de boa poesia, mas a verdade é que a grande maioria, lida sem música, é da maior banalidade”. 

Tal coragem artística também marcou sua produção sobre artes visuais, tema do terceiro volume Os Segredos Todos de Djanira & Outras Crônicas Sobre Artes e Artistas, organizado por André Seffrin. “Se no período em que mais escreveu sobre o tema, as décadas de 1950 e 1960, havia uma tendência concretista de julgar e estimular a arte, propondo procedimentos matemáticos e industriais de produção, a postura de Rubem está diametralmente oposta”, observa o escritor Miguel Sanches Neto, na orelha do livro. “Fixa-se nos perfis biográficos, valorizando não as teorias, mas o contato com os artistas (muitos de origem proletária) com o mundo, os fracassos diante da vida, as lutas para se construir uma trajetória de genialidade em um país ainda sem mercado para arte e sem instituições que a estimulassem plenamente.”

Durante meio século, Braga acompanhou a arte de forma crítica, ainda que escondido atrás do descompromisso. Fez perfis, olhou com precisão o trabalho de novos artistas e não relutava em apontar os caminhos que julgava mais corretos. “Todo analista de arte afina aos poucos suas ferramentas de trabalho, e Rubem foi muito mais que um bom analista de arte, foi grande poeta, e conheceu e conviveu com arte como qualquer crítico especializado do período”, disse Seffrin ao Estado.

Seffrin lembra que o cronista opinava sem medo de errar ou criar constrangimentos, e nunca pretendeu ser um crítico oficial. “Era um cronista que gostava de escrever sobre arte, o que fez com muita propriedade. Na maneira de escrever, Rubem nasceu pronto e, em matéria de arte, se fez aos poucos até dominar muito bem a matéria, assim como acontece com os críticos profissionais.”

O crítico fala ainda sobre a relação de Rubem Braga com Mario Pedrosa, um dos principais (se não o principal) crítico de arte do Brasil, com quem o cronista manteve uma amável discordância. “Foram amigos, e os atritos se davam apenas nos jornais, havia um respeito mútuo”, atesta Seffrin. “E sempre existiu atrito entre ‘poetas da crítica’ e ‘críticos oficiais’, estes em geral de perfil mais acadêmico. Como Rubem era um provocador e Mario um teórico, os atritos existiam, como também entre Pedrosa e Manuel Bandeira, que, nesses confrontos, se mostrava às vezes meio áspero, meio irritado. Já Rubem superava tudo isso com muito humor e em certos momentos até com sarcasmo.”

RUBEM BRAGA – CRÔNICAS

Autor: Rubem Braga

Organizadores: André Seffrin, Carlos Didier e Bernardo Buarque de Hollanda

Editora: Autêntica (736 págs., R$ 134,90)

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Rubem Braga Crônica

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