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'Brasil: Uma Biografia' é síntese primorosa do passado nacional

Obra tira de letra dilemas, ainda mais com um país que - já dizia Mário de Andrade - arromba qualquer concepção que se faça dele

Elias Thomé Saliba, Especial para O Estado de S. Paulo

09 Maio 2015 | 05h00

O maior pesadelo dos historiadores é que, num belo dia, as pessoas sobre as quais escrevem possam, de alguma forma, como o fantasma de Hamlet, voltar à vida para dizer o que pensam de suas biografias. Pesadelo que exprime fantasticamente não apenas os impasses de qualquer reconstrução do passado, mas, sobretudo aquele dilema maior de toda e qualquer forma de biografia. Porque não basta narrar o que uma alguém fez no passado - é necessário mergulhar naquele tempo e deslindar um conjunto de processos mentais muito peculiares, do qual nem mesmo o biografado se mostra ciente. Também não pode se ater obsessivamente apenas ao curriculum vitae do que foi realizado, é preciso trazer à tona aquilo que o personagem não fez: projetos inviáveis, desejos inexequíveis, apostas perdidas. Mais ainda: para dar alguma profundidade e um pouco de perspectiva comparada à biografia, é necessário distanciar-se do passado e retornar ao presente. Se a tarefa é difícil com personagens que já viraram fantasmas, imaginem com pessoas vivas, comunidades ou países inteiros? Como falar de vidas inconclusas e revestir de mínima coesão narrativa algo que não cessa de se fazer e se desfazer? Como embalsamar em narrativa uma identidade que ainda não se deslindou por inteiro? 

Se o empreendimento biográfico já é tarefa desanimadora quando o biografado é uma pessoa, imaginem quando se trata de um país enorme, com a idade de cinco séculos e alguns quebrados? É este o desafio que enfrentam as experientes historiadoras Lilia M. Schwarcz e Heloisa Starling, em Brasil: Uma Biografia - uma síntese primorosa do passado brasileiro que tira de letra muitos daqueles dilemas, ainda mais com um país que - já dizia Mário de Andrade - arromba qualquer concepção que se faça dele.

Uma das regras de ouro de alentadas biografias é não saturar-se daquelas tediosas notas de rodapé, cuja leitura alguém já comparou ao ato de interromper uma relação amorosa para atender o telefone. Mas as autoras compensam este excesso de referências, resumindo, tanto quanto possível, as diversas versões e interpretações dos episódios mais controversos da história brasileira. Tarefa difícil, dado o extraordinário desenvolvimento das pesquisas históricas e a massa de novas publicações das últimas décadas. Esta biografia do Brasil revela pesquisa incansável e, felizmente, nos redime um pouco daquelas pseudo-histórias, inomináveis fast-food, publicadas por certas franquias do “politicamente incorreto”. 

Difícil destacar o que é melhor numa narrativa informal, despretensiosa e didática, mas que, como um insidioso ímã, atrai sempre outros significados e aglutina novas reflexões. É também a mais abrangente possível, cobrindo desde os primitivos habitantes dos sambaquis até o primeiro governo de FHC. O começo já surpreende: em lugar de preencher a infância do biografado apenas com a lista das inumeráveis peripécias da esquadra de Cabral, descreve minuciosamente, com base em atualizadas sondagens arqueo-antropológicas, como era a vida brasileira dos seus antigos habitantes. O leitor certamente se encantará com a narrativa detalhada de episódios completamente ausentes em outros livros do gênero, como a Revolta da Cachaça em 1660, os motins do Maneta em 1711, a Conjuração Bahiana em 1798 ou o Levante dos Malês em 1835. Ou com as descrições minuciosas da vida cotidiana dos escravos e do “tráfico de viventes”, que dizimou milhares de vidas, num esquecido e nem sequer nomeado Holocausto brasileiro. 

“Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos.” Este conselho que o pai dá ao filho no famoso Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, já fornece o tom da linguagem que vai reger a grande orquestra da cultura política brasileira. Aliás, Brasil: Uma Biografia é um dos primeiros livros a destacar a sintaxe peculiar da cultura brasileira, pinçando episódios ou contextos nos quais ela vai se inventando. Lá estão também os refrões que surgem da oralidade e da fala popular, a partir de eventos nos quais, raras vezes, o mundo da oralidade abandona o silêncio, tais como “para inglês ver”; “o que não tem remédio, remediado está”; ou ainda, o atualíssimo “quem rouba pouco é ladrão, que rouba muito é barão”. Lá estão ainda inúmeras histórias pitorescas, como a de Chica da Silva, Tia Ciata e até de Joaquim Silvério dos Reis, talvez um imprevisto pioneiro do instituto da “delação premiada”. Enfim, a sintaxe da cultura política brasileira bem que merecia um dicionário à parte, iniciando-se talvez com o epígrafe do então líder do PSD, Tancredo Neves: “Entre a Bíblia e O Capital, o PSD fica com o Diário Oficial”. Esta nova biografia do Brasil também nos traz uma afinadíssima narrativa da história mais recente dos nossos últimos 60 anos, o que a transforma numa leitura não apenas prazerosa, mas, sobretudo, quase obrigatória para as novas gerações de estudantes e demais interessados nos tortuosos caminhos da construção da cidadania no País. 

Seja como for, fica garantido que o personagem biografado por Lilia e Heloisa (“este Brasil que nos persegue!”, como já dizia Gregório de Mattos) não reaparecerá como o fantasma de Hamlet, mas, com certeza, continuará vivo, amealhando imagens, mitos e esperanças da sua incrível história no imperecível formato de livro.

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO

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