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‘Boloriê: A Origem dos Alimentos’, uma narrativa indígena para além do livro infantil

Ariabo Kezo, que prepara gramática de seu idioma, o umutina, lança livro como forma de afirmação e resistência

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado

28 Dezembro 2015 | 04h00

Quem consultar o Atlas das línguas do mundo em perigo, editado pela Unesco em 2010, verá que a língua umutina, dos indígenas umutina-balatiponé, encontra-se extinta desde anos 1950 do século 20. Os umutina-balatiponé são um grupo indígena que se mantém ainda hoje, numa reserva em Barra do Bugres, em Mato Grosso. São descendentes de 23 sobreviventes que, em meados dos anos 1940, instalaram-se naquela região. Como o Serviço de Proteção ao Índio, à época, enviou outras etnias à região, a língua majoritária passou a ser o português. O Museu do Índio dispõe em seu acervo do filme Os Umutina, filmado por Harald Schultz, em 1945, que resgata o cotidiano daqueles 23 indígenas.

Quem tiver contato com os trabalhos do jovem balatiponé Ariabo Kezo conhecerá outra versão do parágrafo acima: ele ensina que a língua umutina não morreu, mas manteve-se viva no âmbito familiar, transmitida por alguns anciãos. Ariabo decidiu que era preciso resgatar e difundir o idioma umutina e sua cultura. Para tanto, ingressou no curso de Letras no interior de São Paulo, na UFSCar, onde teria condições de elaborar uma gramática de sua língua, dirigida tanto à academia quanto ao seu povo.

Como parte desse processo de resgate cultural, Ariabo está lançando a narrativa Boloriê: A Origem dos Alimentos. O livro, disponível para leitura em leetra.ufscar.br/biblioteca, poderia ser considerado, pelo leitor brasileiro, como literatura infantil, pois traz uma narrativa curta, ilustrada, de um garoto indígena, a qual explica, à maneira de lenda, o surgimento de vegetais no cotidiano dos balatiponé. Porém, dizer isso seria redutor. O que faz Ariabo não se reduz à pedagogia ou ao folclore para o dia do índio; diz ele: “Estamos na história do Brasil até hoje, todos os dias”.

Trata-se antes da fixação, por um indígena balatiponé, de uma narrativa escrita majoritariamente em língua portuguesa – mas com palavras em umutina – que conta a história de um núcleo familiar – pai, mãe, filho – com espaço para o nascimento, a morte, o desespero e o luto. A narrativa contempla ainda o ciclo vital, que vai da sepultura do filho prematuramente morto ao surgimento de novos grãos e raízes para nutrir a comunidade: “A mãe resolveu investigar aquilo, e então descobriu que dos olhos de Ariamunú havia brotado uma planta que ela denominou dumadaká, de seus braços e pernas surgiram outras a que chamou de hutuyô e bodokwá e, por último, dos testículos nasceu uma a qual nomeou balakupú”. O livro traz ainda grafismos dos balatiponé e ilustrações do próprio autor, além de belas aquarelas de outros jovens não indígenas, Eld Johonny e Pedro Alberto Ribeiro Pinto, quer fortalecem o caráter intercultural da obra.

O leitor brasileiro tem a ganhar com a leitura do livro, por poder conhecer elementos de um dos povos nativos destas porções de terra que hoje habitamos, mas ficará certamente com a impressão de estar diante de um texto que não é dirigido – ao menos não exclusivamente – a ele. Há sim o cuidado de preservar, sistematizar e transmitir o conhecimento cultural; porém há mais. Ariabo Kezo dirige-se, também, em grande medida, à sua própria comunidade. A iminência da desaparição de seu povo, de sua língua, pressupõe que cada escrito, que cada gesto, traga uma dimensão de afirmação e resistência. Nota-se isso, por exemplo, no posfácio, quando o autor pode escrever, finalmente, palavras de sua língua mescladas ao português, sem as notas de rodapé, afirmando uma cultura diferente da do brasileiro: “Quando eu era abiolô eu dormia com a minha imako mixotó. Pouco antes de eu dormir de fato, ela tinha o costume de contar histórias ou cantar para mim, sem a utilização de livros, músicas gravadas em CDs ou em pen drive, mas histórias e músicas que estavam registradas em sua memória”.

A criança brasileira que ler Boloriê terá a ganhar, porque se dirige a ela um indígena que não a infantiliza, mas a respeita em sua diferença e sua singularidade; e que trata dos temas fundamentais, como a relação com o outro e os sentimentos que primeiro vivem no âmbito familiar. E entenderá ainda que em seu país se falam diversos idiomas para além da língua portuguesa.

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DE LITERATURA NA UFSCAR E AUTOR DE ‘VERTIGENS’ (ILUMINURAS)

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