‘ECCE HOMO’, DE HIERONYMUS BOSCH/STÄDEL MUSEUM
‘ECCE HOMO’, DE HIERONYMUS BOSCH/STÄDEL MUSEUM

‘Bíblia’ tem versão grega traduzida por Frederico Lourenço, tradutor de Homero

Nova versão quer priorizar a compreensão do texto grego; intelectual português será convidado da 15.ª Flip

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2017 | 04h00

Uma nova versão da Bíblia em português chega agora ao Brasil com tradução direta do grego de Frederico Lourenço, renomado tradutor luso da Ilíada e da Odisseia. Este é o primeiro dos seis volumes, com os quatro evangelhos. O projeto é da Companhia das Letras. O intelectual português também será um dos convidados da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – onde ele lançará a edição brasileira de Livro Aberto: Leituras da Bíblia (Oficina Raquel), coletânea de ensaios sobre as escrituras.

Segundo o autor no prefácio da nova edição da Bíblia – feita a partir da versão grega (leia mais abaixo) – o novo texto “privilegia de forma não doutrinária, não confessional e não apologética a compreensão do texto grego”. Lourenço é professor de estudos clássicos na Universidade de Coimbra e o mais recente vencedor do Prêmio Pessoa, um dos principais reconhecimentos literários de Portugal. Sobre o trabalho, que desenvolve desde 2014, ele respondeu a algumas questões do Estado.

O senhor considera a comunidade católica de Portugal – ou alguma parte dela – intelectualmente estimulante?

Eu próprio já não sou católico há muitos anos. Não sou ateu, pois não me custa admitir que Deus exista, mas não pertenço a nenhuma igreja. Hoje, considero-me somente um historiador dos primórdios do cristianismo, com enfoque no Novo Testamento. Tenho bons amigos católicos, com quem tenho conversas estimulantes, mas como não estou inserido na comunidade católica é difícil para mim ter uma ideia dos católicos no seu conjunto. 

Essa pergunta se relaciona com a anterior: como foi, na sua visão, a acolhida que a sua tradução teve entre pensadores religiosos em Portugal?

Não é fácil num país como Portugal, dominado desde sempre pela Igreja Católica, aceitar a nova realidade de uma tradução da Bíblia empreendida sem vínculo religioso e baseada apenas em critérios históricos e linguísticos. Apesar disso, houve uma acolhida positiva (sobretudo do público leitor). O meu trabalho não visa a pôr em causa a religião: apenas pretende dar a ler a Bíblia de uma forma objetiva.

Uma dúvida: é a primeira tradução para o português publicada em larga escala e feita fora do espectro dogmático/religioso? Pergunto isso porque, como o senhor bem sublinha no prefácio, a tradução e até a leitura da Bíblia quase sempre tiveram um estrito controle religioso, especialmente católico.

Em Portugal, a novidade é precisamente essa: é a primeira vez que está disponível uma tradução do Novo Testamento que não foi feita por um padre católico ou por um pastor protestante. Isso marca uma mudança, que algumas pessoas podem considerar incômoda.

Traduções brasileiras fizeram parte da sua pesquisa?

A minha opção foi no sentido de limitar a consulta de traduções em língua portuguesa, para manter a frescura da abordagem. Trabalhei sobretudo com comentários focados no texto grego (e não na sua teologia), em inglês e alemão.

Um articulista português, católico, disse que “a Igreja Católica não tem nada a temer com a tradução portuguesa da Bíblia grega feita sob perspectiva histórica, não confessional. O mesmo não direi de algumas denominações fundamentalistas em contexto protestante”. Isso é uma preocupação para o senhor, em algum nível?

Não é preocupação para mim, pois realizei o trabalho com plena consciência de que os meus critérios são diferentes daqueles que presidem as traduções católicas e protestantes. Mas sei que o protestantismo tem um largo espectro de denominações: penso que muitas estão abertas ao estudo crítico e histórico da Bíblia.

O senhor vê conexões de ordem literária, estética, entre os textos gregos (penso em Homero) e os livros da Bíblia – especialmente os evangelhos? É possível comparar esses textos de alguma forma?

O grande denominador comum é a língua grega. A palavra “evangelho” já ocorre na Odisseia de Homero. É muito importante perceber a história das palavras gregas que dão corpo ao Novo Testamento. Discordo dos biblistas sobretudo católicos que querem passar a ideia de que a língua grega em que foi escrito o Novo Testamento é “grego bíblico”, sem relação com a história anterior da língua grega. 

Edição preenche lacuna das traduções em português

Além da abordagem não dogmática, esta é a primeira vez em que a totalidade da Bíblia grega é vertida para o idioma

A versão da Bíblia que Frederico Lourenço está traduzindo é a chamada Bíblia grega. O Novo Testamento teve seus 27 livros escritos originalmente na língua de Homero. Dos 46 livros do Antigo Testamento no cânone católico, sete têm originais gregos. Os restantes 39 foram originalmente escritos em hebraico (com algumas seções menores em aramaico).

A partir do século 3.º a.C., por conta da crescente “helenização da cultura judaica da Diáspora”, os textos em hebraico passaram a ser vertidos para o grego e durante os séculos seguintes uma versão grega da Bíblia se estabeleceu, e inclusive alguns dos textos originais em hebraico se perderam. A Bíblia grega passou a ser então fundamental para o estudo histórico do judaísmo e do cristianismo, “não esquecendo sua belíssima urdidura póetico-literária”, segundo o tradutor. A versão também possui sete livros a mais do que o cânone hebraico. A versão helênica é a citada por Jesus segundo os evangelistas – Paulo, cujos escritos em grego compõem grande parte do Novo Testamento, também construiu sua teologia com base nesses textos.

Outra diferença em relação à versão “canônica”: o texto chamado massorético, que constitui a Bíblia hebraica há mil anos, foi estabelecido entre os séculos 7.º e 10.º da era cristã. Portanto, o texto grego reflete um texto hebraico ainda mais antigo – tudo isso, segundo o detalhado prefácio de Frederico Lourenço na edição da Companhia das Letras. Lourenço diz que não tem competência teológica para analisar o texto das escrituras, mas ele cita uma miríade de estudiosos nas centenas de notas de rodapé do livro – este primeiro volume abarca os quatro evangelhos.

O prefácio também compreende uma breve história da Bíblia em Portugal – a primeira versão, pelas mãos de João Ferreira de Almeida (protestante), chegou em meados do século 18, na época proibida de circular no país, altamente católico. Houve outras versões, mas foi só em 1943, com uma encíclica do papa Pio XII que a Igreja romana passou a incentivar traduções. Segundo Lourenço, depois dessa data começaram a surgir versões do Novo Testamento (originalmente em grego) e, no caso do Antigo Testamento, a partir dos originais em hebraico. “O texto integral da Bíblia grega ficou para trás. Espero, assim, que o presente projeto venha preencher essa lacuna.”

Já em Livro Aberto: Leituras da Bíblia, que a Oficina Raquel, do Rio, publica em julho, Lourenço usa sua prosa cristalina para refletir sobre a aproximação aos textos, com uma perspectiva nem religiosa nem irreligiosa. “Sou sensível (diria mesmo hipersensível) ao apelo do Divino”, escreve. No prefácio, ele diz acreditar na existência de um homem real chamado Jesus, “que foi de fato crucificado em Jerusalém na década de 30 do século 1.º da era cristã”. De resto, ele garante: “Pessoalmente, considero Jesus de Nazaré a figura mais admirável de toda a história da Humanidade”.

QUEM É - Frederico Lourenço

Lourenço nasceu em Lisboa em 1963, e foi professor da universidade da cidade entre 1988 e 2009, quando assumiu a cadeira de estudos clássicos da Universidade de Coimbra. Com um misto equilibrado de erudição e clareza, traduziu a ‘Ilíada’ e a ‘Odisseia’ de Homero, bem como duas tragédias de Eurípides. Em 2016, lhe foi atribuído o Prêmio Pessoa.

BÍBLIA – NOVO  TESTAMENTO

Tradução: Frederico Lourenço

Ed.: Companhia das Letras (424 págs., R$ 69,90)

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