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'Béla Guttmann' ganha ensaio biográfico na esteira de lançamentos sobre futebol

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

10 Junho 2014 | 02h 00

Trajetória de vida do ex-treinador e jogador é narrado em livro

Ele foi uma espécie de judeu errante do futebol. Andou pela Europa, EUA e América do Sul. Treinou times na Hungria, Áustria, nos Estados Unidos, em Portugal, no Uruguai, Brasil e uma série de outros países. Globalizado avant la letrre, amava o futebol-arte e é tido como responsável pela introdução do sistema 4-2-4, que, em bom futebolês, define uma forma de jogar com quatro atacantes em busca do gol. Em sua passagem pelo Brasil fez do São Paulo Futebol Clube o campeão paulista de 1957 e suas ideias teriam influenciado o também são-paulino Vicente Feola, que viria a ser o treinador da seleção brasileira de 1958, campeã do mundo na Suécia..

Essa trajetória de vida é narrada em Béla Guttmann: Uma Lenda do Futebol do Século XX, de Detlev Claussen (Estação Liberdade). Em meio à enxurrada de livros de e sobre o futebol, lançada à véspera da Copa do Mundo, Béla Guttmann se destaca por sua pesquisa, análise e qualidade narrativa. Foge sempre ao banal, e abre possibilidades de leituras diferentes para o futebol, debruçando-se sobre um personagem tão encantador quanto misterioso.

De fato, há uma vida bastante conhecida de Béla Guttmann, nascido em Budapeste em 1899 e falecido em Viena em 1981. Ele foi um meio de campo de talento da seleção da Hungria na Olimpíada de 1924 e jogou no Hakoah de Viena, entre outros clubes. Fugindo do antissemitismo que grassava na Europa, emigra para os Estados Unidos, onde joga pelo New York Giants.

E essa é uma das primeiras surpresas do livro. Damos como assentada a afirmação de que os Estados Unidos são um dos poucos grandes países do mundo onde o futebol não tem apelo popular. O que Claussen nos diz é que havia uma florescente liga norte-americana de futebol nos anos 1920, que acolhia muitos estrangeiros fugidos da tensa situação europeia. Da mesma forma que Hollywood empregava cineastas, roteiristas e atores que não queriam permanecer na Europa, e com isso se enriquecia de talentos, a liga americana acolhia excelentes jogadores e técnicos de futebol, grande parte deles de origem judaica. Não fosse a crise na Bolsa de 1929, e a depressão dos anos 30, talvez o nascente futebol norte-americano não tivesse sido desmontado e hoje eles seriam potência esportiva em mais uma modalidade. De qualquer forma, Guttmann jogou em vários clubes de Nova York até 1932, quando deu por encerrada sua carreira de jogador e voltou à Europa para iniciar carreira de técnico.

Essa é parte que se conhece. O que não se sabe é o que aconteceu com Béla Guttmann entre 1939 e 1945, ou seja, durante a longa e sangrenta 2.ª Guerra Mundial. Ele nada dizia a respeito. O que se sabe é que em 1938 estava morando em Viena e fugiu para Budapeste quando a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista. Não se tem ideia de como e onde sobreviveu durante o período da guerra, mas há fontes que garantem ter passado escondido na própria Hungria.

Após o fim do conflito, sua carreira de treinador deslanchou, mas só depois de alguns trabalhos menores como salvar times italianos da queda para a segunda divisão ou treinar o argentino Quilmes, também da divisão inferior. Então começam os grandes trabalhos no Milan e no Honvéd Budapest. A joia na coroa de Béla Guttmann é sua passagem pelo Benfica, no início dos anos 1960, com o qual conquistou duas vezes a Liga dos Campeões da Europa, acabando com a hegemonia dos espanhóis no torneio. O topo de sua carreira pode ter sido o jogo em que o Benfica venceu do Real Madrid, de Puskas e Di Stefano, por 5 a 3. Demitiu-se após a vitória.

Divulgação
Béla Guttmann à frente do Benfica, aplicando ideias que influenciaram também a seleção brasileira de 1958. campeão do mundo

Era um dos seus procedimentos. Sair quando estivesse por cima. Guttmann acreditava que os ciclos no futebol não ultrapassam dois anos. Após esse tempo, o desgaste é inevitável e a autoridade do técnico se esboroa. Guttmann precisava da liderança sobre o elenco como de ar para os pulmões. Isso porque, para colocar em prática suas ideias de jogo, impunha pesada carga de trabalho aos jogadores. Treinos em dois períodos, prática obsessiva de chutes a gol e outros fundamentos, cama antes das 11 da noite, disciplina tática férrea. Tudo para que a filosofia ofensiva, da qual era profeta, pudesse triunfar. Guttmann tinha uma concepção estética do jogo, mas sabia que, para sustentar a beleza do espetáculo, precisava dos resultados favoráveis no placar.

Daí se vê que essa tola dicotomia entre futebol-arte x futebol de resultados não começou outro dia com a famosa declaração de Muricy Ramalho ("Aqui é futebol, meu. Quem quiser espetáculo, vá ao teatro"). E nem lá atrás, na derrota do Brasil para a Itália por 3 a 2 em Sarriá, na Copa do Mundo de 1982. É anterior, coisa dos anos 1940. Guttmann era fruto e ao mesmo tempo artífice da escola húngara, que jogava com graça, eficácia e em direção ao gol - mas que perdeu a Copa da Suíça em 1954 para a Alemanha, em Berna.

No futebol, não basta possuir uma boa e generosa ideia. É preciso que ela seja melhor que a ideia contrária do adversário. Em outras palavras: sem resultados, nada feito. É a lição de Béla Guttmann. Vale até hoje. E não apenas para o futebol.

BÉLA GUTTMANN: UMA LENDA DO FUTEBOL DO SÉCULO XX

Autor: Detlev Claussen

Editora: Estação Liberdade (176 págs., R$ 39)

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