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Sérgio Castro|Estadão

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Autor de ‘Faz Escuro Mas Eu Canto’, Thiago de Mello comemora 90 anos em São Paulo

O poeta não quer publicar mais poesia, mas prepara livro de memória centrado nos amigos que o fizeram chegar até aqui

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Maria Fernanda Rodrigues,
O Estado de S. Paulo

15 Março 2016 | 06h00

Às vésperas de completar 90 anos, Thiago de Mello não perde a esperança. Voz de sua geração, o autor de Faz Escuro Mas Eu Canto e do emblemático poema Os Estatutos do Homem, sua resposta ao AI-5, ele ainda acredita na construção de uma sociedade mais justa. Incansável, o poeta faz sua parte. Foi no Rio de Janeiro, para onde se mudou no fim do colégio, que aprendeu que a pessoa vive para servir. Na mala, levava as lições, seguidas até hoje, de vida e humildade da mãe, que também o ensinou a ler e a escrever ainda em Barreirinha, na floresta amazônica. Foi lá que ele nasceu em 30 de março de 1926. Foi para lá que quis voltar, em 1977, depois do exílio e de dois enfartes. 

Thiago não quer mais publicar poesia, mas prepara um livro sobre as pessoas que o fizeram chegar até aqui. Fala dos amigos, sempre presentes em seus poemas e em sua memória – a lista é grande e inclui de Neruda, Drummond, Volpi e Glauber Rocha a Carlos Heitor Cony, que, coincidentemente, comemorou seus 90 anos recentemente. 

Vivendo há cerca de 10 anos em Freguesia do Andirá, ainda mais para dentro da floresta, ele não desiste de suas causas – a educação, a terra, o povo. “Hoje, quem não escolher a utopia corre o risco de cair no apocalipse”, ele diz, em entrevista ao Estado. E, nesta quarta, 30, a comemoração será em casa.

O senhor acredita que escritores têm missão? Tem uma?

Li em A Essência da Poesia, de Heidegger, que a poesia é um dom de nascença e que todo poeta tem uma missão. Eu disse: Como é cumprir desconhecida missão? Só vim saber que eu tinha que fazer a minha parte, para servir à determinada causa, quando fui atingido pelo raio da pobreza e da injustiça. Aos 15, com a formação que tive dos meus pais – da minha mãe, sobretudo – comecei a ter uma consciência solidária. Tempos depois, no Rio de Janeiro, li que a gente vive para servir. Trabalho muito mais hoje do que quando eu tinha 40 anos. Escrevo com mais alegria, com mais gosto, como quem cumpre um dever escrevendo. O que me deixa contente é que hoje, com 90 anos, minha esperança é muito mais poderosa do quando eu estava preso.

Por quê?

Opera a lei de Newton: toda ação chama uma reação em sentido contrário. Se estou com 90 anos, tenho menos tempo para servir e tenho que trabalhar sem errar. Devo fazer a minha parte da melhor maneira que puder. Minha esperança é para o Brasil. O povo, de repente, está falando, está na rua. Redobro minha convicção de que é possível, sim, a construção de uma sociedade humana solidária. Será possível se cada um fizer a sua parte. Estão chamando isso tudo de crise, mas crise sempre houve. É que a perda de certas virtudes humanas fundamentais assustou, de repente, a sociedade brasileira. Houve uma grande falta de respeito, para não dizer que foi uma grande falta de amor. Além da esperança, a minha capacidade de indignação cresceu também. Quem não se indignar está sendo cúmplice. 

Há quem diga que um golpe está sendo armado.

Pessoas que não passaram pela ditadura e que estão pedindo isso estão profundamente equivocadas. São vozes infelizes. Onde está a raiz desse equívoco, dessa infelicidade que pede o poder do fuzil? Nenhum sociólogo teve tempo de estudar, mas acho que é fruto da deseducação do Brasil.

O que deve acontecer daqui para a frente?

O que queremos – um pouco mais de decência. Isso não será do dia para a noite. Esse processo de mudança será uma conquista. E tomara que se inclua aí um novo cuidado – respeitoso, amoroso – pela necessidade de educar o povo porque o povo educado não escolhe ladrão para governar.

O senhor subiria ao palanque nessas manifestações atuais?

Por que não?

No final de 'Acerto de Contas' (2015), o senhor escreve que ele será o último. E já disse isso outras vezes. Por que é tão difícil parar?

Acho que não há um ponto final, mas não tenho temas, preocupações e esperanças novas. 

Não quer mais publicar poesia, mas continua escrevendo?

Os poemas que ainda escrevo vão para um caderno e só. Trabalho num livro chamado Os Outros Comigo, que quero entregar no meio do ano. Nele, falo de pessoas que iluminaram a minha vida – da infância até hoje.

O senhor sempre conversa com essas pessoas nos poemas. Quem faz mais falta?

Várias pessoas. Quando fiz a opção de morar na floresta, Cony disse que eu seria esquecido.

E ninguém esqueceu.

Esquece. A floresta me fez perder muito da convivência com seres admiráveis, entretanto, a distância e o tempo fazem com que cresça a permanência da pessoa dentro de nossa vida.

Entre todas as lutas, qual foi a mais difícil?

É muito pouco o que se consegue nesse trabalho de conscientização. O campo não é fértil. Você planta e não brota muito. Mas é preciso fazer. É a arma que temos para servir.

Foi preso por sua posição política. Ameaçado de morte por sua luta ambiental. Teve medo?

Não vou dizer que não tive medo. Eu vivia no Chile e, no 5.º dia do golpe do Pinochet, me prenderam. Ouço a pergunta: ‘Matamos aqui?’ Imediatamente me lembrei que, no meu caminho, vi atirarem num homem ajoelhado. Pensei que não podia morrer naquela hora porque ainda tinha muita coisa a fazer. E não podia ter medo. Fui levado ao quartel onde aconteceu um milagre: o oficial de plantão era allendista e conhecia meus versos traduzidos pelo Neruda. No comício dos 100 mil, em 1968, fui preso em casa. Numa cela estreita, leio na parede: ‘Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar’. O meu verso escrito na parede por outro passou a me dar uma força danada. 

O senhor foi uma voz importante de sua geração. Os escritores de hoje estão dizendo algo?

Olhe nos meus olhos e veja a minha tristeza. Não estão. Você pode servir à exigência da qualidade imprescindível da poesia, que é a beleza artística. Pode conseguir a beleza artística e, ao mesmo tempo, servir não apenas àqueles que foram à universidade. É preciso usar uma linguagem acessível ao leitor comum. As metáforas têm que se abrir. Minha posição frente aos concretistas é de respeito, porque eles foram os melhores tradutores, mas eles decidiram que a plataforma do concretismo era eliminar o sentimento da poesia e o verso. Era o desmembramento da palavra. Uma brincadeira. O difícil é fazer poesia com a palavra que o povo usa. 

O que o senhor guarda do menino que foi?

É esse menino que está conversando com você. A minha grande força vem do poder mágico da infância, da infância que tive. Acredita que ainda empino papagaio? Mas não quero dizer o verso que pensei agora porque vou dizê-lo na terça à noite.

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