Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Ator e poeta lança livro sobre o cinema de poesia de Pasolini

Davi Kinski começou a ver os filmes do cineasta italiano aos 14 anos e, aos 28, publica seu primeiro ensaio sobre o diretor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2016 | 04h00

Ator, poeta e cineasta, o paulistano Davi Kinski lança dia 12, no Museu da Imagem e do Som (MIS), o livro Pasolini, do Neorrealismo ao Cinema Poesia. O título faz referência a um ensaio do cineasta italiano em seu livro Empirismo Herege, sobre a possibilidade de se fazer um cinema antinaturalista, “poderosamente metafórico”, capaz de transformar a realidade em fábula. É assim que o jovem Kinski, de 28 anos, indicado ao prêmio de melhor ator em Gramado (2008) por Nome Próprio, de Murillo Salles, vê o cinema de Pasolini posterior a O Evangelho Segundo São Mateus (1964).

Antes dele, isto é, nos primeiros filmes dirigidos pelo cineasta italiano (Accattone, Mamma Roma e o episódio A Ricota, de RoGoPaG), Pasolini seguiu a escola neorrealista de Rossellini, conforme a divisão de Kinski, que começou a se interessar pelo diretor aos 14 anos, atraído pelo conteúdo sexual de seu As Mil e Uma Noites.

É uma ironia que um filme tão delicado – de fato, uma recriação fabular abjurada por seu criador por ter sido consumida como pornografia nos países desenvolvidos, – tenha justamente despertado no poeta paulistano o desejo de ver todos os filmes dirigidos por Pasolini. Aos 14 anos, claro, algumas metáforas passaram ao largo na leitura de Kinski, em particular a da representação dos corpos dos povos negros e mestiços dos países subdesenvolvidos como resistentes ao controle da sociedade colonialista branca. “Estava na puberdade e o filme mexeu comigo por outras razões”, lembra. “Simplesmente fiquei excitado”.

Com efeito, As Mil e Uma Noites é um manifesto libertário que contrapõe a obsessão das sociedades ricas pelo poder à busca do prazer pelos despossuídos. “O olhar de Pasolini se distancia da passividade burguesa e do cinema industrial, e, coincidentemente, no mesmo ano em que seu livro Poesia em Forma de Rosa foi publicado, em 1964, revelando essa impotência diante do neocapitalismo, registrou-se o lançamento de O Evangelho Segundo São Mateus, que ainda mantém vínculos com o neorrealismo, mas anuncia seu cinema de poesia”.

Pasolini era escritor, antes de se dedicar ao cinema, assinando roteiros para Bolognini e criando diálogos para Fellini. Lançou três livros de poesia (La Meglio Gioventù, Le Ceneri di Gramsci, L’Usignolo della Chiesa Cattolica) até 1961, ano da estreia de Accattone (Desajuste Social). “Pasolini era um poeta, não ficaria engessado no neorrealismo”, observa Kinski, vendo em sua investigação do mundo antigo – as tragédias Édipo Rei (1967) e Medea (1969) – a busca de uma poética para discutir o mito. Ele afastou-se do presente histórico para “fazer o elogio da barbárie e expressar os contrastes entre a cultura arcaica, baseada no mundo mágico e possuidor do sentido do sagrado, ao mundo moderno, racional e materialista”.

Para o poeta paulistano, essa discussão se aprofunda em Teorema (1968), o polêmico filme do diretor italiano, em que um industrial hospeda em sua mansão um jovem do qual nada se sabe – essa misteriosa visita representa a violenta irrupção do sagrado em sua família. “É um dos exemplos mais fortes do cinema poético de Pasolini, em que ele trabalha a arte do cinema e a expressão literária de forma indivisível, assumindo seu lado hermético, alegórico, sem se preocupar com a forma de recepção”. Isso é o que faz um poeta, conclui Kinski, criador do projeto transmídia Poemaria e do aplicativo Declamaí, que pretendem tornar acessível o acesso à produção de poetas contemporâneos.

Kinski produz paralelamente uma série documental em 12 capítulos dedicados a escritores brasileiros. Já estão prontos os dedicados à poeta mineira Adélia Prado e ao romancista Ignacio de Loyola Brandão. “É uma série que investiga as razões de a poesia andar, hoje, tão distante das pessoas”. O escritor publicou seu primeiro livro de poemas, Corpo Partido, há dois anos, pela editora Patuá, que será agora lançado em francês. Seu livro sobre Pasolini é publicado pela Laranja Original, que estreou na última Bienal do Livro e patrocina o evento de lançamento do livro.

Parábola. Fábula sobre as relações conturbadas entre cristianismo e marxismo, Gaviões e Passarinhos chega aos 50 anos com o frescor dos clássicos. Lançado em 1966, o filme de Pasolini será exibido dia 12, no MIS, em parceria com a editora Laranja Original. No mesmo dia, que marca o lançamento do livro de Davi Kinski, Pasolini, do Neorrealismo ao Cinema Poesia, também está programada uma projeção do filme de estreia de Pasolini, Accattone (Desajuste Social, 1961), seguida de debate do autor e seu prefaciador, o professor e crítico Franthiesco Ballerini, com a cineasta Lina Chamie. A mediadora será a jornalista Flávia Guerra. Na ocasião, estarão expostas as belas ilustrações de Marcos Garuti para o livro.

Pasolini já era um cineasta consagrado e premiado ao realizar Gaviões e Passarinhos, sua fábula estilizada sobre a deglutição da ideologia encarnada por um corvo filósofo, declaradamente marxista, que segue dois homens comuns sem destino, o pai e o filho, por uma estrada chapliniana. Subitamente, eles são transportados para o século 12 e instruídos pelo santo Francisco de Assis a converter gaviões e passarinhos. Mas logo descobrem que a natureza dos bichos nem a religião muda: o destino dos pardais é sempre o de ser devorados pelos gaviões.

Para ilustrar de forma didática sua parábola, Pasolini faz Totó e Ninetto, pai e filho, cobrarem de uma família miserável, que não tem o que comer, o aluguel do terreno que pertence a eles, para, logo em seguida, inverter a situação, tornando-os vítimas de um engenheiro que exige o pagamento do dinheiro que emprestou a ambos.

A despeito da descoberta dessa condição ambivalente e tremendamente incômoda, ambos não são muito vocacionados para a reflexão, mesmo com um corvo filósofo e falastrão disposto a gastar seu método dialógico para converter essas pobres almas ao marxismo. Totó e Ninetto fazem perguntas embaraçosas demais para um pássaro erudito que não entende as gírias e os dialetos da matula ignorante. Intelectual e povo estão a quilômetros de distância, mesmo quando caminham sobre a mesma estrada.

Esse encontro casual não acaba bem. Cansados do discurso da ave, eles matam o corvo e comem a ideologia. Contudo, também esse ato pode ser interpretado como uma devoração simbólica do intelectual por dois tipos populares esfomeados que representam a humanidade – finalmente capaz de assimilar algum tipo de conhecimento ao deglutir o verborrágico corvo.

Já em Accattone, sua estreia na direção, Pasolini explorava a crueldade de subproletários urbanos ao expor o drama de um vagabundo de periferia, que nunca trabalhou, e que inicia uma inocente na prostituição. Predomina em Accattone a mesma lógica de Gaviões e Passarinhos, só que num registro cru, realista.

GAVIÕES E PASSARINHOS. MIS.

Av. Europa, 158, tel.: 2117-4777.

Sessão no dia 12, às 17h, seguida de debate, às 19h. Antes, às 14h30, ‘Accattone’. Grátis

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