As memórias sem culpa de um torturador

Prêmio Nobel de 2002, Imre Kertész situa ficção na América Latina para driblar censura stalinista

Bernardo Kucinski - Especial para O Estado de S. Paulo, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2014 | 18h43

A ditadura acabou. Um torturador aguarda na prisão seu julgamento por crimes cometidos contra presos políticos. Torturas, assassinatos, chantagem sexual, empalação, estupro. O que de mais sórdido se pode imaginar. Esse é o tema da curta novela História Policial, do judeu húngaro Imre Kertész, prêmio Nobel de 2002, que acaba de ser lançada no País.

Poderia haver trama mais pertinente para nós, nos nossos dias? Difícil. O torturador pede papel e caneta e na cadeia descreve candidamente como se envolveu com “O Departamento”. Ele, um policial de carreira, habituado a lidar apenas com bandidos, é persuadido a se juntar à máquina da repressão que precisa de reforço porque tem pressa e trabalho demais. O pagamento também é melhor, claro. 

Não sabe interrogar presos políticos? Aprenderá na prática, dizem-lhe, quando reclama da precariedade do treinamento. Há passagens que parecem copiadas de edições recentes de nossos jornais, como esta: “Fazemos com que o delinquente perca o juízo, deixamos seus nervos em frangalhos, paralisamos seu cérebro, reviramos todos os seus bolsos, lapelas até mesmo as entranhas...”. Comparem com “O cara urra de dor”, dito pelo nosso ex-torturador Riscala Corbaje, codinome Nagib. Ou “os dentes a gente quebrava, as mãos cortava daqui para cima...” dito à Comissão Nacional da Verdade pelo nosso ex-torturador Paulo Malhães.

A novela não é do gênero policial. Não há um enigma a ser decifrado, ou um detetive atrás de pistas, ou um elenco de suspeitos a açular a argúcia do leitor. É uma novela política na qual o narrador e protagonista é um policial torturador. 

Mas há, sim, um elemento comum às novelas policiais: um final inesperado. É difícil explicar quais foram as motivações centrais de Kertész – e a justificativa do título: a tese da universalidade e inevitabilidade dos comportamentos policiais, com ou sem ditadura. E de novo caímos na surpreendente atualidade disso tudo, nós que hoje perguntamos em plena democracia: “Onde está Amarildo?”. 

Há um diálogo em que o chefe do “Departamento” explica ao personagem, ainda “novato” na repressão política, que mesmo polícias de países inimigos não são inimigas entre si: “Os policiais nunca são inimigos em lugar nenhum”.

Esse torturador chefe nutre um sonho curioso, uma obsessão: o dia em que todos os policiais do mundo estarão unidos. Na sua utopia – paródia macabra do chamamento “proletários de todo o mundo uni-vos” –, os policiais unidos é que transformarão o mundo.

Sobre o funcionamento da máquina policial há ainda esta reflexão síntese do narrador e protagonista principal: “Está claro que uma pessoa fichada mais cedo ou mais tarde se transformaria em suspeito”.

O outro personagem importante da novela é um grande empresário cujo filho se sente transtornado com o golpe que implantou a ditadura e de tal forma atormentado por sua impotência que cogita o suicídio ou o engajamento apressado em qualquer grupo que lutar contra o poder – o que é o mesmo que o suicídio. 

Esse é o segundo tema motivador da história: o do conformismo, da alienação, da indiferença das pessoas que continuam seu cotidiano banal, pouco se importando com a ditadura. É a existência inútil ou inexistência ou o “não existencialismo”, como vai filosofar o filho do rico empresário.

Kertész deu a seus personagens nomes hispânicos, Coronel Diaz, o chefe do Departamento, Enrique o jovem transtornado, Salinas, o rico empresário. Rodriguez, o torturador sádico. Diz o autor que transportou a trama para o cenário de uma ditadura genérica latino-americana para driblar a censura húngara da era estalinista. 

Curiosamente, ou talvez para fazer ironia ou glosar o sistema, ao mesmo tempo ele deu ao personagem principal um sobrenome nada latino: Martens, nome de um pequeno animal das florestas do Hemisfério Norte, e de famílias na Bélgica e arredores.

Ao transpor a história para um país fictício latino-americano, ela se torna também uma alegoria. Para nós, que aqui vivemos, transmite familiaridade – ao ponto de eu suspeitar que Imre andou fazendo alguma pesquisa sobre nossas ditaduras –, mas ao mesmo tempo estranheza. 

É indisfarçável o caráter europeu da narrativa. O próprio autor dá dicas europeias, quando – além do nome Martens – fala na autoestrada para uma Costa Azul. Ou quando denomina Balança de Boger, a máquina inventada pelo Departamento para torturar – um aperfeiçoamento do rústico, mas terrivelmente eficaz, pau de arara de nossos Departamentos. 

Principalmente, destoa da nossa experiência latino-americana a crise existencial de Enrique, que em nada lembra a nossa juventude dos anos 60 e 70, contestadora antes do golpe e depois dele revolucionária, sem grandes dúvidas existenciais, antes ou depois. Enrique tem nome hispânico, mas é, em tudo, um jovem europeu, um personagem da nouvelle vague.

O enredo é simples, mas a forma de narrar do autor é complexa. Lembra a estrutura de sua novela Liquidação (Companhia das Letras), na qual o narrador e protagonista encontra o manuscrito de uma peça de teatro na qual ele próprio é personagem e a compulsa ao longo da narrativa. 

Em História Policial, o torturador se apossa do diário de sua vítima, Enrique, consulta-o e nele se apoia, reproduzindo longas passagens, para escrever a sua história. Ou seja, o autor introduz o policial, que introduz o diário de Enrique, que introduz a fala de seu pai, o rico Salinas. Pensei naquelas bonecas russas em que se tira uma de dentro da outra e da outra, e de mais outra. Complica ainda mais porque há descrições de cenários e diálogos sem atribuição clara. Não emergem das lembranças do torturador nem do diário do jovem. 

Tem-se a impressão de que Kertész adota de propósito uma montagem complexa e uma sintaxe despedaçada, embora não ao extremo do seu Kadish para Uma Criança Não Nascida (Imago) que, com sua sucessão de digressões e incompletudes, mais parece uma corrida de obstáculos em forma escrita. É como se ele quisesse transmitir sua visão de um mundo apocalíptico e insolúvel na própria estrutura acidentada da escritura, não apenas no argumento. 

Antonio Martens, o ex-torturador, não se orgulha nem se arrepende do que fez. Exatamente como os nossos ex-torturadores. Mas diferentemente dos nossos, ele está preso. É na cadeia que escreve o seu relato. Sabe que será condenado e castigado pelos seus crimes. Só ele, porque o chefe de tudo, o coronel Diaz, conseguiu fugiu. 

Aqui, ninguém precisou fugir. E nenhum dos torturadores foi preso.

História Policial

Autor: Imre Kertész

Tradutor: Gabor Aranyi

Editora: Tordesilhas (120 págs., R$ 27,50) 

Bernardo Kucinski é autor de K. Relato de Uma Busca e de Você Vai Voltar para Mim e Outros Contos

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