1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Em '41 Inícios Falsos', Janet Malcolm analisa de Virginia Woolf a Salinger

- Atualizado: 13 Fevereiro 2016 | 04h 00

Escritora é um dos nomes mais prestigiados da revista 'New Yorker'

Janet Malcolm, 82 anos, pertence a uma geração de jornalistas que julgava impossível traçar o perfil de um entrevistado sem conviver com ele. Essa fidelidade ao compromisso firmado com o outro, a despeito do ceticismo com que Malcolm encara a profissão, levou a repórter, biógrafa e ficcionista a criar histórias extraordinárias sobre gente ordinária, que paga assassinos para matar pessoas próximas, como em Anatomia de Um Julgamento. Seus personagens favoritos, no entanto, são artistas e escritores, as principais profissões abordadas em 41 Inícios Falsos, que chega neste sábado, 13, às livrarias de todo o país em edição da Companhia das Letras, a mesma de outros três livros seus: O Jornalista e o Assassino (2011), A Mulher Calada (2102), análise crítica das biografias da poeta Sylvia Plath, e Anatomia de Um Julgamento (2012).

Um dos nomes mais prestigiados da revista New Yorker, Janet Malcolm desconfia que os biógrafos sejam um pouco como ladrões – e que seus leitores não passem de voyeurs. Sua opinião sobre o jornalismo não é muito diferente. Não é uma profissão que ajude alguém além do próprio jornalista, argumenta. Ela, por exemplo, assume o oportunismo jornalístico ao revelar em 41 Inícios Falsos a fragilidade intelectual do fotógrafo alemão Thomas Struth quando este confessa não ter lido Proust. A despeito disso, Struth ousa traçar uma analogia entre o trabalho do fotógrafo Eugène Atget e a literatura do romancista francês. Malcolm, então, pergunta o que Atget tem a ver com Proust. Struth silencia. O circo desaba.

Por seu livro, uma reunião de textos publicados nos últimos 30 anos, desfilam outros fotógrafos, como Edward Weston e Diane Arbus, artistas visuais – David Salle, Richard Serra – e escritores, de Virginia Woolf a Salinger, passando por Joseph Mitchell. Alguns, mais longos, como Uma Casa Toda Sua (1995), sobre a lenda modernista de Bloomsbury (Virginia Woolf e companhia), outros mais curtos, como Reflexões Sobre Uma Autobiografia Abandonada (2010), em que confessa seu tédio ao encarar o projeto de contar a própria vida. A memória, diz ela, não é uma ferramenta de jornalista. A memória não mostra nada com nitidez. E o jornalista ainda corre o risco de atrofiar seus poderes de invenção, por causa da obsessão pela objetividade que tem o jornalismo diário, conclui. Por fim, diz ela, a autobiografia é um exercício “de perdoar a si mesmo”. Melhor cuidar da vida alheia. E isso ela faz muito bem.

O título de seu livro, 41 Inícios Falsos, é revelador do rigoroso exame de consciência de Janet Malcolm. Extraído do primeiro ensaio, de 1994, sobre o pintor pós-moderno americano David Salle, em evidência nos anos 1980, o título revela a dificuldade de começar um perfil de alguém que se desaprova – ou que desperta pouca simpatia, como o diluidor Salle, que fez paródia do neoexpressionismo e da arte pop. Essa narrativa tanto pode começar contando a história banal de um garoto do Kansas, filho de família judia remediada, como pela análise de sua pintura, que nunca foi lá grande coisa, segundo críticos como Robert Hughes.

Malcolm hesita, reescreve o início da história, até ter uma ideia um tanto embaraçosa: levar Salle para ver uma exposição de Lucien Freud, que Hughes classificou de o maior realista de sua época. Comentário de Salle: “Por que as imagens horríveis feitas por um homossexual (Freud) são mais corretas do que aquelas feitas por um heterossexual (ele)?”. Observação final de Malcolm: “Escrever sobre David Salle é ser forçado a fazer uma espécie de paródia de sua arte melancólica de fragmentos”.

Malcolm prefere o genuíno apego do fotógrafo Edward Weston ao pictorialismo ao falso caráter fotográfico das pinturas de Salle. Ela é uma repórter que revela sem rodeios suas preferências. Elogia a crítica Rosalind Krauss, mas despreza Patricia Bosworth pela sensacionalista biografia da fotógrafa Diana Arbus. O melhor do livro, porém, está no ensaio A Garota do Zeitgeist, perfil da editora Ingrid Sischy, editora da Artforum morta em novembro, um comovente exercício para entender a mulher que mudou a influente revista de arte.

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em CulturaX