Barry Feinstein/Divulgação
Barry Feinstein/Divulgação

Ao ser agraciado com o Nobel de Literatura, Bob Dylan pisa de vez no panteão dos grandes poetas

Artista era nome frequente nas casas de apostas nos últimos anos, mas decisão da Academia Sueca foi surpreendente

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2016 | 05h00

Quantas estradas um homem deve percorrer antes de sair consagrado como o artista mais importante do século? Bob Dylan caminhou mais uma, e das grandes, nesta quinta-feira, 13. O Prêmio Nobel de Literatura concedido pela primeira vez pelas letras de um cantor e compositor causou uma reação negativa em alguns poucos literatos, mas agradou uma quantidade muito maior. Sua nomeação pode ter mudado o Nobel para sempre, isso depois que a sua arte, em 54 anos de atividade praticamente ininterrupta, mudou o mundo.

Aos 75 anos, Dylan era nome frequente nas casas de apostas nos últimos anos, mas o anúncio realizada na manhã de ontem, em Estocolmo, pegou o mundo cultural de contragolpe - usualmente cedido a escritores “tradicionais”, quase sempre fora do mainstream, o Nobel reconheceu Dylan por “ter criado novas expressões poéticas no interior da grande tradição da canção americana”.

O livro que garantiu a entrada de Dylan num panteão que reúne Ernest Hemingway, William Faulkner, Gabriel García Márquez, Samuel Beckett, Albert Camus e Thomas Mann vai ter uma nova edição ainda este ano, segundo a editora americana Simon & Schuster. The Lyrics: 1961-2012, lançado em edição limitada em 2014, terá uma versão mais acessível, assegurada pela editora nesta quinta-feira, 13, após o anúncio do Prêmio (já em pré-venda na Amazon, por US$ 37,75). 

A edição é o conjunto dos versos que Dylan transformou na música que, como nenhuma outra, costurou as mutações sociais do século 20. O movimento dos direitos civis foi capturado na ventania poderosa de Blowin’ in the Wind (1963), embora as frases inesquecíveis também apreendam sentimentos infinitos (“quantas vezes as balas de canhão devem voar antes que sejam banidas para sempre?”). As rimas rápidas e espertas de Subterranean Homesick Blues (1965) anteciparam em duas décadas a popularidade do hip hop - no mesmo ano de Like a Rolling Stone, considerada pela revista que leva seu nome (e o de uma outra banda famosa, é verdade) a melhor canção de todos os tempos. Tangled Up in Blue, 10 anos depois, é um conto bem acabado. Hurricane, de 1976, poderia ser uma peça de jornalismo literário - com a licença poética que lhe era permitida. As canções do álbum Time Out of Mind, duas décadas depois, ainda revelam um poeta amoroso, preocupado com a mulher de quem ele está longe “um milhão de milhas”, mas já de olho na última das estradas de todos nós - “estive tentando chegar ao céu antes que eles fechem a porta”.

O mundo ainda espera, agora mais ansioso, pelos segundo e terceiro volumes das suas Crônicas, a autobiografia cujo primeiro tomo saiu em 2004. Há 4 anos, em 2012, Dylan disse à Rolling Stone que estava trabalhando nelas. “Vamos esperar (que elas aconteçam)”, disse o autor, na época. “Estou sempre trabalhando em partes delas.” No Brasil, Crônicas - Volume Um saiu pela Planeta em 2005, que permanece com os direitos da obra e vai providenciar uma reimpressão, já que a obra - que passeia entre o início da carreira de Dylan, nos anos 1960, até mais ou menos o lançamento do álbum Oh Mercy, em 1989 - está esgotada.

Dylan é uma inegável aproximação do Nobel com a cultura pop - e talvez tenha sido isso que despertou tantas paixões nas repercussões por parte de escritores, músicos e até chefes de estado. Obama disse que ele é um dos seus “poetas preferidos”. Salman Rushdie escreveu que a “excelente” escolha honrou o “brilhante herdeiro da tradição dos bardos”. Por outro lado, Irvine Welsh, num espasmo característico, falou que este era “um mal concebido prêmio de nostalgia arrancado das próstatas rançosas de hippies senis e balbuciantes”.

“Ele é um grande poeta na tradição inglesa e, por 54 anos, vem se reinventando, criando novas identidades”, disse a secretária permanente da Academia, Sara Danius, logo após o anúncio, como que se justificando. “Pode parecer uma decisão radical, mas, se olharmos lá para trás, há Homero, Safo, que escreviam poemas para serem ouvidos, cantados, e é a mesma coisa com Bob Dylan. Ainda lemos esses dois.”

Em termos de medalhas, Dylan só fica atrás, por pouco, de Michael Phelps. Ele se tornou ontem o primeiro artista a colecionar o Prêmio Nobel, e pelo menos um Oscar, Globo de Ouro e Grammy - ele ainda tem um Príncipe das Astúrias, um Pulitzer, a Medalha da Liberdade e a Legião de Honra (os prêmios civis mais importantes de EUA e França) e o Polar Music Prize (chamado de “Prêmio Nobel da Música” na Suécia), entre outros.

Dylan nasceu numa cidadezinha no Minnesota em 1941, e por enquanto só podemos imaginar o que ele está sentindo. A resposta, meu amigo...

LETRAS INCRÍVEIS

'It’s Alright Ma'

É o resumo do pensamento de Dylan - crítica social aguda que extrapola frivolidades da política para atingir questões pessoais.

'Like a Rolling Stone' 

“Tinha 10 páginas”, disse Dylan em 1966. “No fim, não era mais ódio, era sobre contar a alguém algo que eles não sabiam, que eles eram sortudos. Vingança.”

'Tangled Up in Blue'

Dylan disse uma vez que essa letra demorou 10 anos para ser vivida e 2 para ser escrita.

'Hurricane'

Uma peça de jornalismo literário com licença poética.

'Not Dark Yet'

“Ainda não está escuro, mas quase”, prevê, sombrio, em 1997.

Nobel

Bob Dylan é o primeiro americano a ganhar o Nobel de literatura desde 1993, quando foi anunciado o nome da escritora Toni Morrison. Nos últimos anos, o Nobel se distribuiu - no ano passado, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch foi a escolhida, sucedendo o francês Patrick Modiano. 

 

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