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Hedeson Alves|ESTADÃO

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'Anunciação’, de Vanessa C. Rodrigues, mostra que não há ressurreição redentora

Vanessa revela-se uma escritora capaz de trabalhar com segurança e naturalidade diversos tons de acordo com a natureza da situação narrada

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Moacir Amâncio,
Especial para O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2016 | 04h59

Com a novela Anunciação, a paranaense Vanessa C. Rodrigues revela-se uma escritora capaz de trabalhar, com segurança e naturalidade, diversos tons de acordo com a natureza da situação narrada, do modo beat do início, à embriaguez da “heroína” num pub londrino, até os lances surrealistas em que é dada, de maneira negativa, a aceitação da “boa nova” à personagem. Sua consciência assume a história como uma reprodução da Pietà, que começa no útero – o princípio da morte. Percorre-se o labirinto dessa via-crúcis íntima e a linguagem torna-se ziguezagueante, revelando-se o conteúdo da narrativa – compare-se aos textos monocórdios em que personagens diferentes falam da mesma maneira que o narrador, para que se perceba a diferença entre uma artista da palavra e um contador de histórias sem maiores preocupações – a não ser que use recurso técnico de outra natureza, mas de eficácia equivalente. 

É um desafio pesado, qualquer deslize e tudo pode cair na banalidade mais sem graça e monótona das peripécias comuns de uma garota e mulher classe média, sua revolta inicial e o final cooptado, de acordo com a engenharia da sociedade. O sonho libertário beat está expresso numa paródia àquele estilo desbravador de Kerouac –, o que imprime um sabor não nostálgico, mas crítico ao trecho. E a perspectiva crítica mantém-se ao longo do livro, com distanciamento, humor, ironia – o domínio da expressão, devo frisar, não se limita a um exercício virtuosístico e vazio. Seria uma novela de formação, de aprendizado, do ponto de vista tradicional, porém essa formação se mostra enganosa – o que há, na verdade, é a submissão a uma máquina que refuga qualquer mudança na linha produtiva e tudo ocorre sob o comando de uma inteligência coercitivamente subliminar. 

A história cristã de Maria e seu filho resume a dúbia tragédia da maternidade. Como suportar a ideia de que se leva no ventre um ser para a morte, num mundo sem nenhum sentido? Aqui e agora não há chance para ressurreições redentoras. A personagem reconhece isso ao se comparar às ratazanas e sua tarefa de parir por parir em pleno esgoto universal. O pânico diante da própria morte e da morte do feto, porém, funciona como o momento extremo da revelação, feita não pelo anjo da luz, mas pelo anjo da treva, quando o fim se mostra iminente. Não cabe à ficcionista apontar saída para esse beco, apenas recriar com palavras uma situação patética e ridícula. Ninguém escolhe ser homem ou mulher, e a situação existencial de cada sexo tem suas peculiaridades – embora a implicação seja a mesma. A consciência da porcaria toda é clara, mas no meio disso há espaço para um sorriso tão impressionante quanto inexplicável e corriqueiro diante da continuidade cega da existência em outro ser. O diálogo com o final de Memórias Póstumas não deve ser por acaso.

ANUNCIAÇÃO

Autora: Vanessa C. Rodrigues

Editora: Oito e Meio (89 págs., R$ 35)

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA DA USP E POETA

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