Análise: Mais justo seria um Nobel da Paz para Bob Dylan

Análise: Mais justo seria um Nobel da Paz para Bob Dylan

A literatura de Dylan não se analisa no departamento de letras, mas na própria condição humana de uma geração que, a partir dele, começou a cantar para fazer justiça no mundo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2016 | 10h45

Demorou, mas Bob Dylan foi reconhecido pelo Nobel por "criar uma nova expressão poética na tradicional canção americana". Soa até redutor citar Dylan apenas com esta frase, mas a premiação tinha de justificar o 'departamento de Literatura' do Nobel. Se fosse lembrado pelo 'da Paz', estaria melhor acomodado.

+ Bob Dylan é o Prêmio Nobel de Literatura de 2016

Ao mesmo tempo que é justo lembrar de Dylan em pleno 2016, é também estranho. A primeira impressão é a de que o usaram como um coringa em um momento de escassez de grandes autores de narrativas transformadoras, o que não é verdade. Dylan não faz um trabalho de relevância nos moldes de suas grandes obras de arte dos anos 70 há mais de uma década.

Bons discos recentes vieram, como 'Shadows in the Night' (2015) e 'Fallen Angels' (2016), calcados sobretudo no blues (tudo o que começa no blues termina no blues, como provam Dylan, Stones e Eric Clapton), mas nada que se compare a sequências arrasadoras como a que o consagrou a partir de 1962, com 'Bob Dylan' e, depois, 'The Freewheelin' Bob Dylan' (1963), 'The Times They Are a-Changin' (1964) e, do mesmo ano, 'Another Side of Bob Dylan'. Nada que chegue perto de 'Highway 61 Revisited', de 1965.

Mas ok, o Nobel de Literatura não é o Grammy, que premiou Dylan por dez vezes, e não está olhando muito para sua produção nos estúdios. Judeu convertido ao cristianismo e, depois, 'desconvertido', o neto de russos Robert Allen Zimmerman deu voz inteligente e poética à música pop. Era ele com um violão debaixo dos braços falando o que Elvis, Stones e Beatles nem imaginariam dizer um dia. A poesia sempre veio antes da música ou do apuro técnico, que jamais existiu para o bem de sua eterna identidade 'folk de rua'. 

Aos 10 anos, seus primeiros versos já mostravam que o menino tinha a dizer. E o que dizia Bob Dylan? "Quantas estradas um homem deve percorrer para ser chamado de homem? Quantos oceanos uma pomba branca deve navegar pra poder dormir na areia? Sim, e quantas vezes as balas de canhão deve voar antes de serem banidas para sempre?", perguntava o garoto em 1963, em 'Blowin' in the Wind'.

"Houve uma época em que você se vestia tão bem. Você atirava centavos pros mendigos no seu auge, não é? Pessoas dizia: 'tome cuidado, boneca, você está destinada a cair'. Você pensava que estavam todos brincando com você, você costumava rir disso, de todo mundo que estava desperdiçando tempo com você. Agora você não fala tão alto, agora você não parece tão arrogante", canta em 'Like a Rolling Stone', de 1965.

Olhando para dentro e para fora, Dylan tentou entender as causas da destruição humana pelas bombas que caiam do céu e as que eram armadas na alma. Sua poesia não é sobre o amor. Ela vem antes disso. É sobre a vida.

 

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