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Análise: Agatha Christie mostrou um respeito tremendo pela palavra – mesmo quando usada para mentir

Autora construiu uma obra tão perene porque soube valorizar o aspecto narrativo e, portanto, intrinsecamente literário da coisa

André de Leones, Especial para o Estado

08 Agosto 2016 | 06h00

Um crime é tão interessante quanto as narrativas que engendra no âmbito de uma história maior. Essas narrativas dizem respeito a várias coisas: às versões das testemunhas, às descrições dos investigadores, aos registros processuais, às omissões (propositais ou não) dos envolvidos, etc. Dentre muitos outros motivos, Agatha Christie construiu uma obra tão perene porque soube valorizar o aspecto narrativo e, portanto, intrinsecamente literário da coisa.

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Tomemos o detetive Hercule Poirot como exemplo, até porque é o mais famoso e recorrente dos personagens criados pela autora (embora eu também adore a deliciosa – se permitem que eu me refira assim a uma anciã – miss Marple). Cheio de si, sempre orgulhoso de suas “células cinzentas”, que lhe permitem encontrar ordem onde os outros só veem caos, e assim desvendar os crimes mais intrincados sem precisar “empregar os músculos” e sair por aí se curvando e medindo pegadas, recolhendo pontas de cigarros, examinando “folhas de grama amassadas”, para Poirot “basta sentar em minha cadeira e pensar” (ele diz logo no começo de Cinco Porquinhos). O leitor, contudo, sabe que é preciso algo mais do que isso, e é aqui que as coisas ficam realmente divertidas.

Por mais que, em geral, haja um momento nos contos e romances de Christie em que Poirot senta em uma cadeira e se põe a pensar, o melhor para mim é quando o detetive se põe a ouvir. Dentro da narrativa maior, o leitor se depara com as narrativas que a compõem, com todas aquelas imprecisões, omissões, avanços e recuos. Há beleza nesse tipo de construção, e um respeito tremendo pela palavra – mesmo quando usada para mentir, e até porque ao final tudo será esclarecido.

Para além do mistério, e por mais engenhosa que tal ferramenta se torne nas mãos de Christie (e, no fim das contas, é o que nos fisga logo de cara e nos mantém presos aos livros dela, seguindo pistas falsas e chutando culpados até a revelação final nos pegar de surpresa), estão a carpintaria narrativa, o cuidado com que a escritora desenvolve cada aspecto de seu jogo e a forma como os fatos, os personagens e, sobretudo, a maneira como cada personagem se refere aos fatos vão sendo posicionados no decorrer da história. Logo, em obras como Assassinato no Expresso do Oriente, não se trata apenas do mistério no centro de tudo e de um conflito entre personagens, mas do modo como as narrativas retroalimentam tal conflito e obscurecem ainda mais o mistério. Todos esses elementos (crime, atores, testemunhas, testemunhos) são friamente analisados por Poirot, e é o que, como e quando foi dito que leva à elucidação do caso.

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É verdade que não encontramos em Agatha Christie a ambiguidade e o brutalismo de Hammett ou Chandler, por exemplo. Ela evita as sombras com destreza, mais preocupada com a mecânica do mistério do que com a onipresença do mal em nosso mundo. A sensação que suas histórias deixam é de que as desordens momentâneas – os crimes a serem solucionados – sempre cedem lugar à ordem encarnada em Poirot, Marple ou outro protagonista. Isto não constitui um problema, sobretudo porque ela nunca deu a entender que quisesse oferecer mais do que entretenimento eficiente e honesto. Tal franqueza norteia a sua economia estilística, e é por isso que seus inúmeros leitores, ainda que sejam pegos no contrapé vez após vez pelas reviravoltas que ela criou, jamais se sentem traídos e sempre voltam a esses livros fabulosos, implorando por mais.

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