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Entrevista. Milton Hatoum

Escritor fala ao 'Estado' e à 'TV Estadão' sobre o tempo da escrita, infância, paciência e black blocs

Amazonense comemora 25 anos de 'Relato de um Certo Oriente'

UBIRATAN BRASIL

MARIA FERNANDA RODRIGUES

31 Maio 2014 | 03h 00

Há 25 anos, o arquiteto e professor Milton Hatoum lançava seu primeiro livro e iniciava uma das mais bem-sucedidas carreiras literárias do País. A Relato de Um Certo Oriente, 45 mil exemplares vendidos, se seguiram obras como Dois Irmãos e Cinzas do Norte, entre outras – quase todas premiadas – que já chegaram a 12 países e foram publicadas em línguas tão diferentes quanto o árabe e o sueco. Aos 61, o amazonense que já morou em diversas cidades do mundo e sentou pouso em São Paulo falou ao Estado, no qual é cronista, sobre o aniversário de seu primeiro romance, que acompanha a volta de uma mulher a Manaus de sua infância, o livro que está escrevendo e o tempo da literatura.

Hoje, 25 anos depois, que lembrança essa obra traz?

A mais forte é a da aventura. Eu estava fora do Brasil e me entreguei de corpo e alma ao projeto de escrever um romance. Eu morava na Espanha e escrevi durante quase um ano outro livro. Joguei o manuscrito numa lareira em Madri graças à leitura de Mario Merlino, grande tradutor e leitor argentino. Ele disse: “Você não deve publicar porque isso é uma crônica rasa da sua experiência recente”. Foi cruel. E ele estava absolutamente certo. E falou: “Escreve alguma coisa mais antiga, que você já esqueceu”. Já estava em Barcelona quando comecei a escrever o Relato. Depois passei anos em Paris e continuei em Manaus.

Hélvio Romero/ Estadão
Depois de queimar o primeiro livro, ele dedicou anos a 'Relatos'

E qual é a sua relação com o livro hoje? Ainda gosta dele?

Gosto. Tenho uma relação amorosa com ele. A primeira experiência é forte, passional – seja com as pessoas ou com a literatura. E escrevi quando tinha mais dificuldade na minha vida. Era o meu primeiro livro, eu estava completamente inseguro – hoje, só sou parcialmente inseguro. E certamente é meu texto mais lírico. Foi difícil encontrar o tom dessa mulher, que é um pouco de mim. Isso de sair do seu lugar e voltar para fazer um acerto de contas com o passado. Eu era um escritor da província. Ainda sou. Me sinto por inteiro manauara.

Você já apresentou a obra como o relato de uma Sherazade da Amazônia.

A questão da narradora, que conta uma história, se encontra com alguém, conta outra história e assim sucessivamente é uma técnica muito usada por vários romancistas. Uma das matrizes mais poderosas dessa técnica é o Livro das Mil e Uma Noites e isso remete muito à minha infância, às histórias que meu avô contava. A Sherazade inspirou a vida dessa mulher e sua identidade difusa, a busca por uma reconstrução do passado por meio da palavra e da memória.

Você falou em acerto de contas com o passado e com o fato de ainda estar, por assim dizer, em Manaus. Mas você saiu de lá muito cedo. Trazer a cidade para a sua literatura é voltar a essa infância, à família, ao velho Milton?

A infância é o paraíso perdido. Essa Manaus do Relato, de Dois Irmãos e de Cinzas do Norte não existe mais. Por isso, é também uma visão amargurada daquilo que já se foi. Tento trabalhar sob a reconstrução dessas ruínas, como se a cidade fosse uma grande ruína e, a partir daí, eu imaginasse aquilo que ela foi e poderia ter sido. Para um escritor, a infância e a juventude são fundamentais. É o momento em que descobre o mundo, quando surgem as primeiras percepções do espaço.

 

Os jovens revolucionários e corajosos não são os black blocs. A verdadeira coragem do jovem é abrir ‘Grande Sertão: Veredas’ e ler até o fim. E reler”

A casa como núcleo. E da casa você se expande para a cidade. É um momento de descobertas e traumas. Relato tem a morte da surda-muda, que tem a ver com a minha experiência de infância. Praticamente vi uma prima surda-muda morrer atropelada. Flashes dessa cena voltaram 30 anos depois.

Qual a importância das cidades em que viveu para a sua obra e para esse olhar sobre Manaus?

A experiência da viagem foi fundamental. No Cinzas tem uma experiência mais radical, que tem a ver com a minha experiência, mas não usei Paris ou Barcelona. Usei Londres e Berlim porque guardei as duas para o livro que estou escrevendo, que é meu romance quase desavergonhadamente autobiográfico, embora tudo seja inventado.

Pode contar sobre ele?

É difícil falar de um romance inacabado, mas imagino que seja a história de uma geração perseguida pelo regime militar. Mas não é um grupo que tinha uma militância partidária ou clandestina; era uma esquerda mais libertária, descomprometida com os dogmas, que sonhava, mas eram sonhos que passavam por liberdades radicais, sexual, total, política. Fiz parte desse grupo em Brasília e na USP. Há história de amor, claro, de violência e de exílio.

Você tem viajado para pesquisar para o livro.

Quis revisitar os lugares onde vivi e que foram importantes. Já fiz três ou quatro viagens a Brasília. Encontrei velhos amigos, meu primeiro grande amor. Todos avôs, avós. E fui ao interior da Argentina, vou ao Chile. Vou seguir os passos das personagens. Talvez isso não sirva para nada. Às vezes, nessas viagens, você pinça uma frase. Ou só o sentimento.

Você tem um tempo diferente de escrita e publica menos que a média. Como é esse tempo? Com quem é o seu compromisso?

É só com a verdade daquilo que sinto para escrever. Poderia ter publicado outros livros, mas este é meu tempo. O tempo da espera e da paciência. Até para escrever uma crônica para o Estadão eu demoro. O romance exige um tempo longo e não consigo mudar de ritmo. Sei que não vou publicar 20 livros.

Isso não causa angústia?

Convivo bem com a espera. Tenho muitos defeitos, mas, talvez, uma virtude seja a paciência. Também não consigo odiar ninguém – nem os políticos brasileiros. Não tenho paciência para isso, mas transfiro todo esse mal e sentimentos mais brutos para as personagens num trabalho literário. E a leitura exige tempo também. Não sei como você pode ler Proust hoje. Para mim, os jovens revolucionários e corajosos não são os black blocs. Não precisa de quebra-quebra. O protesto é importantíssimo e já até participei, mas a verdadeira coragem do jovem é abrir o Grande Sertão: Veredas e ler até o fim. É pegar O Idiota ou Crime e Castigo e ler até o fim. E reler depois. Aí, esse jovem vai entender muita coisa dele e até do Brasil.

Nesse trabalho de escrita e pesquisa, o que é mais difícil: conviver com as lembranças e transformá-las em literatura ou o ato de escrever transforma aquela vivência em algo literário?

A segunda opção – transformar a literatura nessas experiências. Demoro porque espero o tempo passar para que esse passado se transforme em imaginação e para que ele já não tenha mais a força e a nitidez de uma lembrança muito precisa. E isso é uma aventura da imaginação e da linguagem. A passagem do tempo nos dá a possibilidade de imaginar. Quando escreve, não pode ser fiel à família, à religião, a compromissos e moralidade. Tem que romper com essas coisas. E, às vezes, dói.

Escrever dá prazer ou é desconfortável?

Dá prazer.

O Itaú Cultural mapeou os 10 autores brasileiros mais estudados fora do País. Você e Chico Buarque são os únicos vivos. O interesse pela sua obra tem a ver com a Amazônia ou com as relações humanas?

Morro de medo de ser o mais estudado. Não sei se meu trabalho tem esse fôlego. Talvez esse deslocamento, esse estranhamento de um brasileiro de Manaus que escreve pelo menos dois romances com imigrantes, desperte interesse. As resenhas que li em jornais de fora não enfatizam o lado exótico, e sim o drama humano. E é isso o que interessa: transformar algo muito local em algo maior.

Seus livros são sempre premiados e há quem diga que no ano em que você publicar seu romance não lançará nada porque os prêmios serão seus.

Não é verdade. Às vezes, você nem merece um prêmio. Dois Irmãos ficou em terceiro lugar no Jabuti e é meu livro mais lido. Tudo é relativo. E às vezes um livro muito premiado não é lido. Ou um prêmio Nobel é esquecido. O tempo é cruel porque pode lançar ao esquecimento um livro em três, quatro anos.

E o que faz a obra sobreviver?

O tempo também, mas o tempo de leitura.

Há livros lançados em momento errado?

Lavoura Arcaica é um exemplo. Saiu em 1975, quando romances políticos tinham mais interesse e urgência do que um livro que explorava o eu lírico. Ficou esquecido durante muito tempo e hoje tem milhares de leitores. Então, há também o tempo de espera do livro.

Alguns grandes autores poderiam estar produzindo e teriam leitores fiéis, mas se retiraram da literatura, como o próprio Raduan Nassar e Philip Roth. Imagina isso para você? Uma hora vai esgotar o que tem a dizer?

Acho que chegará o momento em que não terei mais nada a dizer. O Philip Roth escreveu mais de 20 livros, acho. O Raduan foi mais corajoso. Silenciar e dizer ao seu leitor “olha, eu não tenho mais nada para escrever” é um ato de coragem. Graciliano Ramos foi admirável. Chegou o momento em que ele não quis e não pode mais escrever ficção e se dedicou às memórias. Não vejo problema em parar. Se não, fica repetitivo e começam umas facilidades.