Agonia do regime de Salazar rege livro 'A Paixão'

Personagens vivem no mundo arcaico de uma província do Alentej

Entrevista com

Almeida Faria

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2014 | 07h00

Almeida Faria, aos 71 anos, é um autor português ainda pouco conhecido no Brasil, apesar da influência marcante sobre a obra-prima do escritor Raduan Nassar, Lavoura Arcaica. Há meio século ele escreveu um romance essencial para entender o processo que levou o Portugal profundo, adormecido, a se livrar do fantasma salazarista, A Paixão, originalmente publicado em 1965 e agora relançado pela Cosac Naify, que traz o escritor para a Flip no dia 3 de agosto, quando ele participa de uma mesa ao lado do chileno Jorge Edwards. O título faz alusão à sexta-feira da Paixão - e essa referência diz respeito principalmente à ressurreição do homem autônomo, livre da prisão do passado.

Esse homem surge do confronto entre dois irmãos numa família decadente do Alentejo. André, o filho mais velho, vive em patológico estado de letargia. É um convalescente existencial. Ele é a tradição, o passado. Já o revolucionário João Carlos representa a esperança de um mundo novo. Sobre seu inventário da ditadura salazarista, escrito quanto Almeida Faria tinha apenas 22 anos, o autor concedeu a seguinte entrevista ao Caderno 2.

Seu livro A Paixão já foi apresentado como um romance que anunciou a Revolução dos Cravos nove anos antes. O senhor acredita que o escritor tem mesmo essa capacidade visionária de antever os acontecimentos ou o contexto social em que vivia conduziu sua ficção para o campo da futurologia?

É possível que alguns escritores, raríssimos, sejam visionários. A própria palavra latina 'vates', sinônimo de poeta, significa "aquele que vaticina". Francamente, não reclamo tal capacidade. A Paixão não antevia acontecimentos, limitava-se a soltar desesperos e raivas. Numa semiconsciência intuitiva de que aquelas décadas de chumbo e asfixia tinham que ter um fim, tentei apenas dar forma e voz à fome de libertação e à fúria de muitos, também minhas.

A trajetória dos personagens de A Paixão acaba se revelando a projeção de um drama social, ao mesmo tempo que reflete uma ligação mítica com o passado português. Havia, no projeto de A Paixão, uma intenção de driblar a censura recorrendo à alegoria? O senhor reescreveu o livro depois do 25 de abril?

Driblei a censura, como você diz, recorrendo à alegoria pascal e aos disfarces metafóricos, armas com provas literárias dadas ao longo de milênios. Não pretendi deixar um retrato ou relato daqueles anos sinistros. Quis ir mais fundo e fazer a radiografia ou, em termos mais atuais, a ecografia de uma época, certo de que a verdadeira história da humanidade foi e continua a ser a literatura. Talvez por isso não precisei reescrever este romance depois de derrubada a ditadura.

O experimentalismo formal de A Paixão já foi associado à busca por novas formas retóricas e técnicas da Geração de Orpheu. Rumor Branco foi definido como herdeiro do nouveau roman francês e há quem identifique em sua Tetralogia Lusitana uma construção de caráter internacionalista. De fato, A Paixão cruzou a fronteira, influenciando Raduan Nassar. Como se dá esse diálogo com autores e escolas estrangeiras?

Tive a sorte de viver, muito jovem, como escritor residente nos EUA e em Berlim, de viajar e conviver com escritores e artistas de diversos países. Aprendi línguas, não tantas quantas o venerável Guimarães Rosa garantia saber. Sei que nunca saberei bem seja o que for. Mesmo assim, sempre que posso leio os clássicos no original. Embora tenha estudado grego antigo, só consigo decifrar frases de Homero e das tragédias. E lamento não ter estudado russo para ler no original os mestres russos dos dois últimos séculos. Não vou ao ponto de afirmar, como Fernando Pessoa, que ler Shakespeare em francês é pior do que não o ler. É óbvio que conhecer outras línguas e culturas nos obriga a saltar para fora dos nossos mundos.

A Paixão teve uma adaptação teatral na qual, segundo a crítica, ficou ainda mais evidente o caráter bíblico dessa narrativa sobre uma família do Alentejo. Em que medida o teatro cumpre um papel que o romance não pode desempenhar e qual sua afinidade com a poética visão pasoliniana do sagrado?

Eu mesmo adaptei ao teatro A Paixão, mas em verso. Quanto a mim, o ritmo das frases é mais audível, quase palpável, quando as falas aparecem divididas em versos. Embora pareça fora de moda, essa prática foi usada por Brecht, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Pasolini e muitos outros poetas do teatro. Compreendo muito bem a visão pasoliniana do sagrado. Ele se dizia católico e marxista. Ao contrário dele, não sou nada católico, mas ninguém no nosso século tem o direito de ignorar páginas e páginas cada vez mais atuais das análises de Marx.

O senhor teve contato com Beckett nos anos 1970, quando estava em Berlim. Qual foi o impacto desse encontro e que papel tem o dramaturgo em sua literatura?

Aos 16 ou 17 anos, numa sonolenta e provinciana cidade alentejana, assisti com deslumbramento e espanto a uma encenação de Esperando Godot. Mais tarde, no fim dos anos 1970, na minha segunda estada em Berlim, acompanhei durante tardes seguidas os ensaios de Fim de Partida por uma companhia americana de ex-condenados da prisão de alta segurança em San Quentin, na Califórnia, dirigidos com visível delícia e incansável generosidade pelo próprio Beckett. E ele, após os ensaios, modesto e delicado, ainda se dispunha a conversar com aquele atrevido aprendiz de escritor sobre livros da sua preferência, sobre o romance de Fontane, Effi Briest, por exemplo, ao qual Beckett aludira já em Krapps Last Tape e que ele então relia no original. Sobre Pessoa disse-me apenas que o lera 'with great pleasure'. Falava como escrevia, com o invejável dom da brevidade que em vão procuro imitar. Era capaz de dizer o essencial em meia dúzia de palavras. Nunca esquecerei a sua frase ao ser informado de que ganhara o Nobel: "Quel catastrophe!". E qualquer artista poderia ter como lema estas palavras dele: "Try again. Fail again. Fail better". (Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor.)

O começo de sua literatura tem muito de prosa poética, como em Rumor Branco. O senhor atribui sua mudança de orientação, ou seja, a troca da poesia por uma prosa filosófica política, a uma busca pela austeridade?

Não sinto especial atração pela política, para além do fato de que todo o homem é um zoon politikon (Aristóteles). Nunca me vejo como porta-voz de um grupo ou de um país. Em democracia, jornalistas, comentadores televisivos, bloggers e twitters preenchem amplamente essa função.

Muitos escritores portugueses da nova geração sentem atração pelo mundo camponês. Isso refletiria um desencanto com a cultura urbana em Portugal?

Não compartilho nenhum desencanto perante a cultura urbana nem sou dos que pregam o regresso às origens. Nos meus quatro romances da chamada Tetralogia Lusitana (A Paixão, Cortes, Lusitânia, Cavaleiro Andante) há até uma progressiva abertura ao mundo, à medida que uma parte das personagens sai do Alentejo para Lisboa e daí para a Europa, para o Brasil, para Angola.

A PAIXÃO

Autor: Almeida Faria.Editora:Cosac Naify(224 págs.,R$ 44,90). Nas livrarias, a partir de 3/7.

TRECHO

Enfim a noite existe, a longa fria noite deste dia de trevas e...... tormentos e lágrimas; quanta coisa a dizer, quanta coisa a calar; as palavras estendem-se pelo papel fatigado, com seu peso de sentidos e de séculos, lentas inúteis iguais à noite, fúnebres como a procissão atroz do Senhor Morto, que irrompe violentamente pelas ruas, agressiva e grave de luzes de velas tremendo e fazendo tremer, numa zona de sombra, os vidros fechados das casas com candeias nas janelas altas, em escalões paralelos pelas praças descendo num cântico cansado, acompanhando o esquife com o olhar boquiaberto do povo mudo atrás...

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