Patricia Santos Pinto
Patricia Santos Pinto

'A Criança em Ruínas', primeiro livro de poesia do português José Luis Peixoto, sai no País

Obra foi publicada em Portugal em 2001, um ano após o lançamento de 'Morreste-se e de Nenhum Olhar'

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2017 | 06h00

“Cada palavra possui um palmo desse quintal infinito”, diz um dos versos do escritor português José Luis Peixoto no livro A Criança em Ruínas. O quintal da “casa onde memórias se sentam nas cadeiras para jantar em pratos invisíveis”. Onde a família passava os domingos “com gasosas e uma galinha depenada”, onde as crianças brincavam em paz. E por onde o menino corre para abraçar o pai.

Peixoto nasceu em Galveias, hoje com pouco mais de mil habitantes. Galveias é, também, o título de seu romance mais recente publicado no Brasil - e vencedor, em 2016, do Prêmio Oceanos. Tudo começa ali. Tudo volta para lá.

“A infância tem um espaço muito grande na minha obra. Os romances que tratam do ambiente rural, por exemplo, estão muito ligados à minha infância e adolescência, pois nasci e vivi nesse meio até os 18 anos”, diz o escritor que estreou na literatura com Morreste-me, um delicado relato sobre a morte do pai e a volta à casa após essa perda que ecoa também, e com força, em A Criança em Ruínas.

A obra que chega agora ao Brasil foi publicada em Portugal em 2001, um ano após o lançamento de Morreste-se e de Nenhum Olhar, que lhe rendeu, no ano seguinte, quando ele tinha 27, o Prêmio José Saramago. Traz textos que escreveu a partir dos seus 20 e poucos, e que estavam guardados na gaveta, e outros feitos quando já pensava em organizar um volume de poesias.

Muita coisa aconteceu desde então e Peixoto se tornou um dos principais autores de sua geração. Mas ele trata com carinho sua estreia poética. “De certa forma, 16 anos depois, este livro faz parte da ‘infância’ da minha escrita, no melhor sentido desse termo”, diz. Por isso, o livro é tão especial para ele. “Mas a mina de onde o extraí já fechou. Hoje, não seria capaz de escrever muito do que está nessas páginas. Daí que lhe encontre especial valor. E, no entanto, neste livro, encontra-se com facilidade as raízes daquilo que escrevi mais tarde, que estou a escrever agora. Sem este livro, eu não seria eu.” 

Há muitas formas de se ler o título da obra. A criança destruída, infeliz. A criança em meio ao que foi destruído. A criança em meio ao que restou da destruição. Desamparo e resistência. Todas fazem sentido, ele concorda. Mas, considerando as dimensões que constituem o livro, ele explica que chegou a esse título refletindo acerca de quanto da criança que fomos ainda permanece no adulto que somos. “Seremos nós as ruínas dessa criança? De que forma o tempo nos toca e, também, de que forma nos relacionamos com o tempo, com as idades, com a vida?”

Peixoto ainda sente falta daquele tempo. “Tenho saudades de muitas das coisas boas que conheci e que perdi, temporária ou permanentemente. Escrever, muitas vezes, é organizar a saudade ou, pelo menos, é a ilusão de ser capaz de organizá-la”, explica. 

Seus poemas estão em constante diálogo, nominalmente ou não, com a família. “(...) Recordas mãe como morreu/ como acabaram os domingos e as manhãs/ para nunca mais ser domingo/ ou manhã no nosso quintal?”

E em diálogo com seus fantasmas. “Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:/ o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs/ e eu. depois, a minha irmã mais velha/ casou-se./ depois, a minha irmã mais nova/ casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,/ na hora de pôr a mesa, somos cinco,/ menos a minha irmã mais velha que está/ na casa dela, menos a minha irmã mais/ nova que está na casa dela, menos o meu/ pai, menos a minha mãe viúva. cada um/ deles é um lugar vazio nesta mesa onde/ como sozinho. mas irão estar sempre aqui./ na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco./ enquanto um de nós estiver vivo, seremos/ sempre cinco.”

O livro é dividido em três partes. Na primeira, temos a lembrança da criança a brincar no quintal, no chão da cozinha, a morte a rondar e a certeza de que aquele tempo não volta mais. Na segunda, o ar está pesado e o poeta, carregado de angústia e espera. Na terceira, o amor, a paz sentida ao ver o filho dormir, o fim do amor, a lembrança do amor juvenil, a solidão.

Segundo o autor, essas três partes procuram sugerir uma possibilidade de história. “Talvez várias idades, se as partes forem consideradas em sucessão, ou várias dimensões, se forem consideradas em simultâneo. Em qualquer dos casos, essa divisão é mais uma pergunta do que uma afirmação. Caberá aos leitores encontrar a resposta definitiva e, creio, pessoal. Este é um livro bastante íntimo. A minha ambição sempre foi que os leitores encontrassem nele o reflexo da sua própria intimidade.” 

Refúgio. É na infância que se formam os aspectos essenciais da nossa personalidade, comenta o autor. “A vida é feita de mudança, como escreveu Camões. Nesse movimento, perde-se muito. Em cada perda, é tentador olhar para a infância, quando ainda se tinha todos os sonhos, todas as opções, todas as pessoas.”

Do menino que foi restou o “olhar limpo”. “Todas as idades têm características positivas, que nos são úteis ao longo de toda a vida. Há vantagens em manter uma parte da inocência e da ingenuidade da infância. A poesia e a vida ganham com esse olhar limpo. Manter características como essas, no entanto, são um esforço intelectual.” 

Lançamento ocorre em quatro cidades

De volta ao Brasil após ganhar o Prêmio Oceanos, e R$ 100 mil, José Luis Peixoto estará em São Paulo nesta segunda, 17, na Livraria da Vila da Lorena. Na quarta, ele lança o livro na Blooks, no Rio de Janeiro. De 20 a 24, ele estará em Curitiba e de lá segue para Paraty, onde é convidado da Casa Amado e Saramago/Flip.

A CRIANÇA EM RUÍNAS

Autor: José Luis Peixoto

Editora: Dublinense (80 págs.,R$ 36,90)

Lançamento: Segunda (17), 19 h, Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1.731)

TRECHOS

"mãe queremos ainda passear / e já não temos quem nos leve. perdeu-se o olhar que nos guiava/ e explicava os caminhos / perdeu-se a mão dobrada pela / lâmina de tanto trabalhar que/ nos amparava se as curvas/ da estrada anoiteciam/ mãe já não temos a camioneta / azul onde construímos casas/ e vivemos tanta vida / mãe já não temos a carrinha/ branca onde voltaste ao/ que conhecia para conhecer/ de novo onde ouvimos música/ de piqueniques e risos de netas/ mãe queremos ainda passear/ e já não temos quem nos leve/ esperamos uma madrugada/ que nos apresse a entrar na carrinha branca/ um conforto que chegue e nos leve/ um conforto que não chega/ que não chega nunca mãe.”

"o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias/ do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu/ fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não/ conhecia a palavra poema, quando eu não/ conhecia a/ letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do/ quintal (...) poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de/ si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para/ abraçar o seu pai (...)”

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