A babel de interpretações de '2666'; leia depoimentos

Dez anos depois de sua publicação em espanhol, críticos, leitores e escritores falam da importância do livro de Roberto Bolaño

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

02 Junho 2014 | 09h58

A convite do Estado, escritores e críticos literários leitores da obra de Roberto Bolaño deram pequenos depoimentos sobre as suas relações com o 2666 e com a obra do chileno. Leia abaixo:

Joca Reiners Terron, escritor, autor de A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves (Companhia das Letras, 2013) e outros:

"Os temas de Bolaño são os temas da literatura clássica renovados, ou melhor: ressituados, trasladados. Falam de morte, amor, poesia, viagem, tudo isto transferido à América Latina do século 20. Dos temas clássicos saem subtemas, como o abandono, o ódio (contrapartes do amor), violência, ignorância (contrapartes da poesia), o exílio e o conflito identitário (as partes negativas da viagem). Há também toda uma questão relativa ao uso do espanhol por parte de Bolaño, sua recusa ao regionalismo e ao espanhol peninsular, gerando uma espécie de língua própria e neutra que diz muito do uso político e financeiro da língua como representação de poder."

Silviano Santiago, escritor e crítico literário:

"Em última instância, o narrador dos romances de Bolaño, em particular 2666, é o leitor. Prosa e poesia têm essa vantagem sobre todas as outras formas de arte. São feitas em linguagem fonética que todos possuímos e sobre a qual cada um de nós tem poder e arte ilimitados. Não diria o mesmo dos "leitores" de imagens estáticas ou em movimento, de sons musicais, etc. Nenhum humano nem mesmo um mudo ou um cego é desprovido de discurso fonético. Não é por casualidade que Freud usou a metáfora da lousa mágica para explicar o funcionamento do inconsciente. O que se escreve, se apaga e se transforma. A literatura tem a vantagem de sintonizar, desde o título, o leitor no que foi doado indiscriminadamente pelos deuses - a linguagem."

Marcos Natali, professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP:

"A primeira linha de 2666 descreve o "deslumbramento e a admiração" provocados pela experiência de ler pela primeira vez um livro (no caso, um romance de Benno von Archimboldi). O romance de Bolaño então passará a narrar uma série de experiências semelhantes, de modo que vai sendo gerado um inventário do que pode ocorrer a partir do surgimento da paixão pela literatura. Se as histórias são de arrebatamento, a variedade das modalidades dessa fascinação, e sobretudo das consequências, muitas vezes violentas, que resultam dela, impede que se encontre ali um porto seguro. E assim a obra, com sua narração vertiginosa, vai se convertendo numa reflexão sem garantias sobre a proximidade do mal, incluída aí a relação entre este e a literatura. Como "ler" é também aquilo que se está fazendo ao acompanhar esse conjunto de relatos, o "tema" do romance acaba sendo a sua própria leitura, ou a relação entre o mal e o leitor do romance."

André de Leones, escritor, autor do romance Terra de Casas Vazias (Rocco), entre outros:

"Embora lamente muito a morte precoce de Bolaño, creio que 2666 não poderia ser outra coisa que não um romance inacabado. Sua qualidade tenebrosa, sobretudo no que tange aos corpos de mulheres horrendamente assassinadas que se amontoam em suas páginas, mas também às guerras europeias e ao nazismo (revisitados na derradeira parte), parece dizer respeito ao próprio Mal em andamento, operando, pela via da metástase, nos corpos do Novo e do Velho Mundos. O Mal é elusivo (ainda que, muitas vezes, brutalmente visível), e Bolaño procura cercá-lo aqui e ali, em abordagens, personagens e contextos distintos, nos livros que compõem o Livro. A incompletude de 2666 reflete a incompletude fundamental, ontológica, do humano, incompletude que não raro redunda na mais absurda violência."

Wilson Alves-Bezerra, professor do Departamento de Letras da UFSCar, tradutor, crítico e autor de Histórias zoofilas e outras atrocidades (EDUFSCar / Oitava Rima):

"2666 suscita a pergunta que abre o primeiro livro do argentino Ricardo Piglia: "Rende uma história?". Em tempos de formas breves, são quase obscenas as cerca de mil páginas da obra. Pelos planos de Bolaño, renderia cinco livros. Mas não há cinco romances aí. Há sucessivas histórias que primeiro parecem ser sobre a escrita, a leitura, os livros. Já ao ir se aproximando do fim, o leitor percebe que 2666 é também sobre os que se deslocam, os que se ausentam, os que já se ausentaram. A morte e sua falta de sentido. A certa altura, uma personagem diz: "Quero que você escreva sobre isto, que continue escrevendo sobre isso." O livro coloca em crise a noção de obra-prima, não porque seja inacabado, mas porque é interminável. Forçosamente inconcluso. Dá orgulho ser contemporâneo de Bolaño, que foi ácido e preciso nos julgamentos críticos, na escritura e nas falas públicas. Em tempo, falta ser publicado em português Entre Paréntesis, em que está o Bolaño crítico, em suas resenhas, artigos e entrevistas. Fundamental."

Bernardo Ajzenberg, escritor e tradutor:

"A experiência com a tradução de Estrela Distante permitiu-me, na verdade exigiu, penetrar no arcabouço e descobrir as chaves sutis de uma composição autoral muito própria do universo cheio de discretas armadilhas e atalhos perigosos da vida cultural -em especial a literária -, sob a ditadura de Pinochet. Lançando mão de uma história alimentada por um refinado senso de suspense, Bolaño reconstitui esse momento com precisão e delicadeza, com uma riqueza de detalhes que só as pessoas que o viveram intensamente e com uma sensibilidade muito aguçada, além de domínio técnico excepcional da narrativa, poderiam fazer."

Eduardo Brandão, tradutor de 10 dos 11 livros de Bolaño publicados no Brasil:

"Estabeleci uma relação afetiva com a obra de Bolaño, a partir sobretudo do apaixonante trabalho que foi a versão dos Detetives Selvagens, minha segunda tradução do autor (a primeira foi Noturno do Chile). A tradução de 2666 resultou num convívio de, se bem me lembro, mais de 1 ano, tão intenso, que entregá-la pronta, revista à editora, foi uma verdadeira separação. Continuei a traduzi-lo até a derradeira obra descoberta. Ter encerrado meu convívio de cerca de 10 anos com Bolaño, com As Agruras do Verdadeiro Tira, foi um motivo de tristeza, de dor mesmo. Uma verdadeira agrura de tradutor, quase uma síndrome de abstinência."

Antonio Xerxenesky, escritor e tradutor:

"Tendo lido Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile e alguns contos esparsos de Roberto Bolaño, eu posicionava o escritor chileno entre os melhores latino-americanos. Mas nada poderia me preparar para 2666. Costumava dizer que o título representava o número de páginas ou o ano em que terminaria a leitura. Brincadeiras à parte, o tamanho do romance tem sua lógica: a prosa torrencial de dimensões monstruosas se revela obrigatória para um livro monstruoso.  No universo de 2666, a literatura e a "alta cultura" estão com as mãos sujas de sangue, ética e estética estão irreversivelmente unidas, e Bolaño nos levará ao extremo para mostrar essa amarga relação."

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