New York Times
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Familiares e governo lutam pelo controle do centro que homenageia Federico García Lorca

Instituição deveria abrigar um arquivo de quase 20 mil itens do poeta morto em 1936

Doreen Carvajal, NEW YORK TIMES

02 Agosto 2016 | 02h44

GRANADA - O legado das hostilidades de Federico García Lorca contra o governo continua vivo por intermédio de sua família, que disputa com as autoridades o controle de um novo centro de US$25 milhões em homenagem ao dramaturgo e poeta, executado por um pelotão de fuzilamento durante a Guerra Civil Espanhola.

Inaugurada na cidade histórica, no ano passado, a instituição deveria abrigar um arquivo de quase 20 mil itens – manuscritos, esboços, músicas e obras de arte avaliados em mais de ¤ 20 bilhões (cerca de US$ 22 milhões) –, que seriam preservados em cofre de aço suspenso dentro de uma torre de concreto.

Hoje, porém, o contêiner à prova de terremotos está lá, vazio. A família do poeta e sua fundação, a García Lorca, dona dos arquivos, se recusaram a transferi-los para o novo centro de armazenamento, em Madri, até obterem o poder que lhes foi prometido pelas autoridades locais em relação ao direcionamento e à programação das novas instalações.

“Desde o início, as instituições governamentais não se empolgaram com o projeto”, denuncia Laura García Lorca, sobrinha do escritor, que encabeça a fundação. Ela nasceu em Nova York, durante o exílio da família, depois que o tio foi executado pelas forças nacionalistas há 80 anos, no dia 19 de agosto de 1936.

O centro deveria contar com uma atração literária internacional no centro de Granada, perto da catedral renascentista. As autoridades querem criar uma rota turística que passe pelos lugares marcantes na vida do escritor, espalhados pela Andaluzia, sua terra natal. Na trilha, fica a casa de veraneio de Lorca, onde ele escreveu Bodas de Sangue, peça clássica de 1932 sobre amor, crime e ambição.

Agora, porém, o centro está envolvido em um dramalhão digno das obras do autor, com direito a acusações de corrupção. Para começar, não há diretor. Sem os arquivos, as autoridades cancelaram os planos de quase um ano de eventos de que participariam escritores, poetas e artistas, inclusive Patti Smith, marcados para coincidir com a inauguração, em julho passado. Um ex-assessor está sendo acusado de falsificação e apropriação indevida relacionada à perda de mais de ¤ 2,5 milhões (ou US$ 2,75 milhões) de um empréstimo feito para a construção do prédio.

Em abril, o Ministério da Cultura espanhol garantiu uma proteção especial ao arquivo, impedindo efetivamente a venda de qualquer item para o exterior. O governo temia que parte do acervo fosse vendida para solucionar os problemas financeiros da instituição, embora a família insista que não que desmembrar a obra do escritor.

O novo prefeito de Granada, Francisco Cuenca, procura firmar um acordo que ponha fim às desavenças entre a fundação e certas instituições regionais e nacionais que compõem o consórcio responsável pelo funcionamento do centro.

“Com o passar do tempo, o poeta se tornou um dos principais produtos de exportação cultural da cidade, mas a verdade é que ainda existe um traço inegável de hostilidade e resistência em relação a isso”, afirma Christopher Maurer, professor de Espanhol da Universidade de Boston e especializado na obra de García Lorca.

O conflito é explícito há décadas. O poeta está enterrado na periferia de Granada, no campo onde foi executado aos 38 anos, que ninguém sabe onde fica. Um inquérito policial de 1965, surgido no ano passado, revelou que Lorca foi executado por ordem das autoridades militares. Segundo os documentos, ele era desprezado por ser homossexual e maçom.

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