Yo-Yo Ma fala de seus três recitais em São Paulo

Para o violoncelista, a ´arte é maior do que qualquer intérprete´

Agencia Estado

12 Junho 2007 | 03h47

Para muitos, será o ponto alto da temporada internacional de concertos deste ano em São Paulo. Blogs, sites de discussão, todos têm falado da vinda dele ao Brasil desde que ela foi anunciada, em dezembro do ano passado. Bom, a comoção deve agora aumentar, pois o violoncelista Yo-Yo Ma está, enfim, chegando. Faz três recitais em São Paulo - no dia 18 para a Congregação Israelita Paulista e, dias 19 e 20, para a Sociedade de Cultura Artística. Interpreta Schubert, Shostakovich, Piazzolla e Egberto Gismonti, evocando a paixão que tem pela música brasileira, alardeada em dois CDs e em concertos realizados em todo o mundo. Ao seu lado, a pianista Kathrin Stott, velha companheira de estrada. A comoção em torno de Yo-Yo Ma não se deve apenas ao talento que o violoncelista, nascido na França, filho de pais chineses, e radicado nos Estados Unidos - tem, e de sobra. Ma é um dos poucos artistas da música clássica a ter extravasado o mundinho muitas vezes fechado do setor, alcançando fama universal, vencendo prêmios como o Grammy, o Oscar e batendo recordes de vendagens de disco (seu último álbum, Appassionato, retrospectiva de sua carreira, está desde o lançamento no topo da lista da Billboard). Yo-Yo Ma é uma grande estrela. Sinais disso você tem já na hora de tentar entrevistá-lo. As negociações levam semanas, jornalistas precisam enviar currículo com músicos já entrevistados. E, se passam pelo crivo da Assessoria de Imprensa, ganham dez minutos de conversa. Nada mais. Mas o Yo-Yo Ma do outro lado da linha nada tem a ver com uma superestrela. Simpático, pede desculpas pelo atraso, vai um pouco além dos dez minutos previstos. Sobre os recitais, se diz entusiasmado. É um programa que lhe pareceu bastante interessante, capaz de demonstrar diversas facetas dos dois intérpretes, garante. E aí desata a falar de Kathryn Stott. Os dois se conheceram em Londres, nos anos 70, por acaso e em uma situação que tinha tudo para ser constrangedora. Ma e sua mulher, Jill, alugaram do violinista Nigel Kennedy um apartamento em Londres. Chegaram à capital inglesa e descobriram que Stott também estava na lista de inquilinos de Kennedy. Ambos imaginavam que teriam o apartamento só para eles, mas o constrangimento abriu espaço para o início de uma relação próxima de amizade. E desde então os dois têm se apresentado em todo o mundo - Stott também aparece em algumas das gravações de Ma, como a da Sonata do francês César Franck. Música brasileira Em seu site (www.yo-yoma.com), o violoncelista descreve a arte de fazer música de câmara como uma conversa. Então, uma vez no palco, sobre o que ele e Stott gostam de falar? "O interessante com ela é que não se trata de ter experiências semelhantes ou concordar sobre o repertório. Isso é secundário. O mais importante é que, quando estamos juntos, não precisamos dar sinais um para o outro, trocar olhares. Nossa conversa é antes de mais nada instintiva. E Kathy tem um espírito aventureiro, gosta de explorar repertórios, sonoridades, sem receios", diz. Não por acaso, ela participou dos dois discos que Yo-Yo Ma dedicou à música brasileira, Obrigado Brazil! e Obrigado Brazil Live in Concert, ambos com a presença de artistas como os irmãos Assad e Luciana Souza. Em São Paulo, os dois vão interpretar obras de Egberto Gismonti. De onde vem o fascínio pela música brasileira? "O choro, o samba, tudo no Brasil tem uma característica que me agrada muito", ele começa. "Há algo na música de seu país que sugere união, celebração. A música brasileira aproxima as pessoas de um jeito muito interessante. Na Argentina, por exemplo, me chama a atenção o aspecto melodramático das composições. Aí, não importa qual a emoção. A produção brasileira reúne todas as sensações possíveis, dor, amor, alegria, tristeza, enfim, talvez por isso consiga dizer tanto a tanta gente, sempre." Ma tem sempre buscado um repertório amplo. Já gravou as principais peças para violoncelo, das suítes de Bach a obras de autores do século 20, sem deixar de lado o jazz, a música popular ou mesmo a produção para cinema. Ele se surpreende ao saber que o compositor John Corigliano está no Brasil, acompanhando concertos da Osesp. Ma já gravou obras do autor da trilha de O Violino Vermelho. Ao Estado, Corigliano falou que vivemos a "era do diálogo", em que músicos misturam todas as influências possíveis em seu trabalho. Ma concorda. De certa forma, é a idéia que guia o Silk Road Project, iniciativa que resgata a música da antiga rota da seda, percorrida por comerciantes da Europa em direção à Ásia, tentando mostrar como o encontro entre música ocidental e oriental influenciou os dois lados igualmente e como manifestações regionais podem se universalizar por meio deste diálogo. Legado "Em qualquer aspecto da atividade humana, o diálogo é fundamental. Na música, ele é evidente. Acredito que a principal dicotomia nos dias de hoje é entre a novo e o velho. Mas acho que não há tradição que não parta de invenção, da mesma forma que o novo busca no passado suas razões. Estamos sempre envolvidos no que aprendemos, nas lições dos grandes mestres, e é daí que surge a inspiração para que possamos dar novos passos." Grandes mestres? Não dá para fugir da figura de Mstislav Rostropovich, o grande intérprete do violoncelo morto há cerca de um mês, aos 80 anos. Ma não hesita. "Após sua morte, falou-se muito sobre seu trabalho, sua importância, sempre se ressaltando a quantidade de obras que ele encomendou a novos autores, ampliando o repertório do instrumento. Mas sua contribuição não foi apenas quantitativa. Ele foi um grande músico, que expandiu as possibilidades técnicas do violoncelo. Ao escrever para um artista tão talentoso, os compositores puderam criar peças que mudaram nossa percepção do instrumento. E fizeram com que as gerações seguintes, e eu me incluo nesse grupo, tivessem que reinventar o estudo, a técnica." E qual legado Ma espera deixar para as próximas gerações? Ele se recusa a dar uma resposta, acha difícil fazer uma avaliação do próprio trabalho. Pode falar apenas daquilo que guia sua atividade. "É impossível, ao menos para mim, ter um feedback do que tem sido meu trabalho, é algo que apenas o tempo pode dizer. O que posso garantir é que a música vai além de mim, sempre penso que a arte é maior do que o intérprete, a quem resta a função de resgatá-la sempre, pensando no contexto em que foi criada e tentando criar relações com a nossa época." Faltam apenas duas semanas. Yo-Yo Ma está chegando.

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