Yo-Yo Ma dá aulas para jovens músicos brasileiros

Violoncelista se emociona com Sinfônica de Heliópolis e Acorde para as Cordas

Agencia Estado

25 Junho 2007 | 15h41

Thiago levou um baita susto. Sentado sozinho na última fila dos violoncelos da Orquestra Acorde para as Cordas, dividia a atenção entre os gestos do maestro Daniel Misiuk e a partitura. E não percebeu quando um colega violoncelista chegou por trás, pediu aos contrabaixos que se afastassem um pouco e sentou-se ao seu lado. Ah, um detalhe: o ´colega´ era ninguém menos que Yo-Yo Ma, o mais célebre violoncelista da atualidade. ´Bem que percebi que estava todo mundo olhando para mim´, disse Thiago de Andrade, de 20 anos, antes de abrir um enorme sorriso, rodeado pelos colegas de orquestra: ´Cara, eu dividi a estante com Yo-Yo Ma. E ele virou as páginas da partitura para mim!´ O sorriso no rosto foi uma constante para os cerca de 30 jovens músicos de dois grupos - a Sinfônica Heliópolis e a Orquestra Acorde para as Cordas - que, na tarde de quarta, participaram de um encontro com Ma no Teatro Cultura Artística, acompanhado com exclusividade pelo Estado. O violoncelista havia avisado que não estava lá para ser fotografado e entrevistado mas, sim, para conversar com os músicos. Nada de flashes, fotógrafos ao seu lado, perguntas. O que ele tinha a dizer se destinava aos alunos. E, bem-humorado, fazendo piadas, brincando, Ma fez valer a pena cada instante do encontro. A ´aula´ começou pouco antes das seis da tarde. Nervoso? ´Não, a gente ensaiou bastante, estamos preparados´, diz Rafael, 16 anos, um dos 11 violoncelos da Sinfônica de Heliópolis, os primeiros a se apresentaram para Ma. Eles haviam acabado de repassar a Bachiana nº 1 de Villa-Lobos a pedido do professor Fábio Presgrave, que andava de um lado para o outro, sentava, levantava... Puro discurso. Cinco minutos depois, alguém deu o aviso - ele chegou, ele já tá aí. ´A gente já sobe no palco?´, pergunta um. ´Espera, espera´, responde outro. ´Não, vamos, vamos. Ó, não esquece da foto´, diz mais um para a colega que, na platéia, ficou encarregada de segurar as dezenas de celulares e máquinas fotográficas do grupo. Ma chega sorridente. Sobe no palco, cumprimenta um a um os músicos de Heliópolis. Diz que é um prazer ter a chance de ouvi-los. ´Vocês querem tocar?´ Ele vai para a platéia, pergunta à menina se está vendendo ou comprando celulares, senta-se no chão do corredor. Os músicos começam. Olham uns para os outros, Villa é difícil, é preciso atenção. Mas lá pelas tantas não adianta. Estão todos olhando para a platéia, em busca de alguma reação de Ma - mas não são os únicos: o público, formado por familiares dos alunos e alguns convidados do consulado americano, também se volta a todo instante para o violoncelista, que permanece impassível, sorrindo. Quando a peça acaba, Ma puxa os aplausos. Sobe no palco e, ao lado de Presgrave, começa a conversar com os músicos. Elogia a coragem de tocar Villa-Lobos, ´um compositor muito difícil´, pergunta há quanto tempo eles estão estudando a peça e se surpreende quando respondem que faz apenas três meses. ´Qual a parte que vocês mais gostam de tocar?´, pergunta. O começo do primeiro e do segundo movimentos. ´E qual a diferença entre tocar aqui, só entre violoncelos, e como parte de uma orquestra sinfônica?´ Parece que conseguimos ouvir melhor uns aos outros. Pronto. Era aí que Ma queria chegar - como ouvir e sentir o que os colegas estão fazendo. ´Então, vou propor uma coisa: quero que vocês toquem o início, mas sem olhar a partitura, vocês topam?´ Eles topam, claro. Minutos depois, Ma pergunta. ´Como foi diferente para vocês?´ Ah, a gente se sentiu mais juntos tocando, parece que tinha uma interação maior. ´Então, vamos tocar a mesma parte, mas agora quero que vocês olhem apenas para a platéia.´ Eles olham. Um ou outro dá uma espiada na partitura, mas Ma está atento. ´Psssiu, para cá, para cá´, ele diz, rindo, pulando e gesticulando para chamar a atenção dos músicos. ´E agora, qual foi a diferença?´ Ah, é mais emocionante, mais vibrante, a gente parece que se sente mais livre. Agora, a idéia é tocar de olhos fechados. ´Mais difícil?´, pergunta Ma em seguida - e os músicos respondem afirmativamente com a cabeça. ´Então, vamos tentar de novo. Mas eu queria que agora vocês sentissem os movimentos. Ao tocar cada nota, sinta a maneira como você se move, como você respira, e, mesmo sem olhar, prestem atenção na movimentação dos colegas.´ A primeira parte da aula chegava ao fim. A mensagem ficou clara. A música não está apenas nas notas. Aprender a tocar é também aprender a ouvir não apenas o que você está fazendo mas também o que se passa ao seu lado. Os músicos agradecem, se reúnem na frente do palco, tiram uma foto com Ma. E saem em debandada para o ônibus, eles ainda têm um concerto. Elogios Em seguida, quem sobe ao palco são os músicos da orquestra Acorde para as Cordas. Começam com Por una Cabeza, de Carlos Gardel, com direito à cadência do primeiro violoncelo, que mistura tango, música brasileira e até o trecho de uma suíte de Bach. Na platéia, Ma se diverte com a combinação. E logo vai buscar o violoncelo para se juntar à orquestra. Tocam mais duas peças juntos. No fim, se diz mais uma vez emocionado. ´A energia, a paixão com que vocês fazem música é tocante´, diz. E pergunta aos jovens se eles têm alguma dúvida ou questão. Um violoncelista pede algumas dicas. Ma pega o violoncelo dele emprestado. ´Se eu quebrar, te dou o meu´, brinca (o dele, a propósito, é um dos mais valiosos instrumentos de cordas existentes). O músico ouve com atenção suas instruções sobre a posição do arco. E, quando segue suas orientações, se surpreende com a mudança no som. Ma repete as instruções com o violino. E aí uma violista pergunta: ´Como você se sente quando toca para um teatro cheio?´ Ma responde: ´Há uma linha mágica que separa o público do palco. A função do artista é quebrar esta linha e atingir o coração das pessoas, assim como quem está na platéia demonstra ao artista aquilo que está sentindo. É uma conversa em que você, como músico e ser humano, a partir do que escreve o compositor, precisa saber a mensagem que quer passar.´ A aula chegava ao fim. ´Vocês amam o que fazem, dá para sentir´, diz Ma aos músicos. E, mais tarde, confidencia aos produtores da turnê: ´Eles têm o espírito dos grupos com quem quero trabalhar. Dentro deles existe uma alma especial. Nunca tive um colega de estante tão envolvido.´ Mandou bem, Thiago.

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