Whitney, Aretha e Dionne

NEW JERSEY - Um dos aspectos mais libertadores de escrever para um jornal que não circula no meu país é o fato de eu não ter de me curvar diante do consenso oficial que me rodeia. A morte de Whitney Houston não me comoveu. Se dissesse isso num jornal americano, seria obrigado a buscar asilo político no Brasil.

Lee Siegel,

27 Fevereiro 2012 | 06h53

 

Não quero negar que seja trágico o fato dessa mulher talentosa ter morrido aos 48 anos. Se a cantora tiver realmente morrido pelas próprias mãos, como muitos suspeitam, então o inferno mental enfrentado por ela deve ter sido de partir o coração. E, para aqueles que amavam a música de Whitney, é compreensível que a morte dela represente um golpe quase físico. A verdade é que eu era indiferente à sua música. Seu som genérico e grandioso tornava impossível distingui-la de uma dúzia de outras cantoras. Sem a tecnologia que amplificava a voz dela até transformá-la numa espécie de alucinação auditiva cinematográfica, Whitney não teria alcançado o sucesso que alcançou.

 

Acho que Aretha Franklin, madrinha de Whitney, concorda comigo. Aretha se tornou madrinha de Whitney por causa de sua amizade com a mãe dela, a cantora gospel Cissy Houston. Esperava-se que Aretha cantasse no funeral da afilhada, realizado em Newark, New Jersey, há cerca de uma semana e meia, mas ela não compareceu. Seu empresário disse que ela não se sentia bem. Ainda assim, na noite da véspera, ela se apresentou no Radio City Music Hall, em Nova York. Falando a um jornal televisivo pouco depois da morte de Whitney, Aretha disse que não a via há anos. Ela então fez questão de não descrever Whitney como uma grande cantora. O único comentário feito por Aretha foi "Ela sabia ser uma estrela". Seria uma sutil referência ao fato de Whitney ter torrado US$ 100 milhões em drogas e num estilo de vida ridiculamente extravagante? Excessos desse tipo são exatamente aquilo que caracteriza os "astros" e "estrelas" contemporâneos.

 

Aquilo que poderia perfeitamente ter sido a renúncia de Aretha à afilhada me pareceu algo mais profundo do que um comentário pessoal. Foi uma declaração artística. Entre Aretha e Whitney há um abismo de talento tão grande quanto a época cultural que as separou. Trata-se da diferença entre uma voz orgânica e individual e um "som" socialmente fabricado.

 

Ao escutar I Say a Little Prayer, uma das divinas canções pelas quais Aretha é conhecida, o que ouvimos não é uma das peças de Whitney voltadas para a criação artificial de climas, e sim uma existência humana particular. A voz de Aretha é inconfundível nas suas inflexões e no seu jeito de falar. É como uma intimidade universal. O evangelho e a religiosidade que fizeram parte da sua infância se tornaram o ritmo da dança com a qual ela encara a vida. Como todos os grandes artistas, Aretha apresenta em público sua vivência particular, impossível de ser duplicada - ao mesmo tempo em que, milagrosamente, a cantora revela minúcias de nossa própria vivência.

 

I Say a Little Prayer é a canção americana quintessencial. Para começar, os versos contam a história do dia comum de uma moça comum - passando maquiagem, penteando o cabelo, escolhendo o que vestir, correndo para apanhar o ônibus, fazendo uma pausa para o café - enquanto ela sonha com o homem que ama e reza para que ele retribua seus sentimentos. Além disso, foi composta por um judeu, Burt Bacharach, e se tornou famosa na voz de duas cantoras negras, primeiro Dionne Warwick (prima de Whitney) e, mais tarde, Aretha Franklin.

 

Dionne gravou a canção num estilo simples, entre o canto e a fala. Como a canção é essencialmente o devaneio de uma pessoa qualquer, a interpretação dela foi perfeita. Dionne cantava de uma maneira que possibilitava a qualquer um habitar aqueles versos. Já Aretha deu à canção um toque pessoal com sua inimitável mistura de canto de igreja, blues e rhythm’n’blues. Ela cantava aqueles versos da mesma forma que alguém sonharia com eles: de maneira única. Como a canção poderia ser a canção de qualquer pessoa, ela tinha de ocupar um dos dois polos extremos das experiências vivenciadas indiretamente. Tinha de ser rica em neutralidade, ou transbordar de tanta personalidade.

 

Acesse o YouTube e ouça Aretha e Dionne cantando essa música. (Num vídeo maravilhoso, as duas cantam juntas, embora de maneira estranhamente contida.) Depois, procure a versão de Whitney. Encontrei duas delas: em um show de 1997, alguns anos depois de seu auge, e em uma apresentação de 1990, quando ela está perto do seu melhor momento.

 

A versão de 1997 é sem vida, cheia de gestos vazios, ainda que marcantes, expressando uma personalidade que ela não possui. A versão de 1990, cantada em parceria com a igualmente insossa Natalie Cole, é como uma paródia da famosa madrinha de Whitney. A voz dela reverbera, pulsa, oscila e impressiona, mas não passa da imitação de um clássico, longe de uma tentativa original de imaginá-lo de outra forma. Ao escutar as duas interpretações da canção, temos a sensação de estar diante de um reflexo vazio.

 

Mas é justamente essa qualidade vazia que os produtores musicais celebram numa era em que a idiossincrasia se tornou um risco. Eles banharam Whitney naquele som grandioso, puseram-na num pedestal e a transformaram numa trilha sonora em vez de uma pessoa. Esmagaram aquilo que poderia perfeitamente ter sido um incipiente traço único da cantora. A música de Whitney deixou de precisar de Whitney e, conforme ela começou a perder o controle da própria vida em decorrência das drogas e da doentia força gravitacional de celebridade, Whitney deixou de precisar da própria Whitney. Se ao menos ela tivesse escutado mais atentamente as canções de sua madrinha, talvez tivesse enxergado com mais clareza seu próprio lado destrutivo. Nos famosos versos de Aretha:

 

I ain’t no psychiatrist

(Não sou psiquiatra)

I ain’t no doctor with degrees

(Nem doutora diplomada)

But it don’t take too much high I.Q.

(Mas não é preciso muito Q.I.)

To see what you’re doin’ to me

(Para perceber o que você está fazendo comigo). / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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