Volpi para exportação

Retrospectiva do pintor reúne 85 telas para deleite de curadores estrangeiros

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 Março 2014 | 18h19

Uma retrospectiva do pintor Alfredo Volpi (1896-1988) com 85 pinturas de 27 colecionadores é um evento raro nestes tempos em que o governo, por meio do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), fareja obras “de interesse público” em coleções particulares. A mostra Volpi – A Emoção da Cor será inaugurada nesta quinta-feira, para convidados, e na sexta, para o público, na Galeria de Arte Almeida & Dale, uma semana antes da abertura da 10ª SP-Arte. Ou seja, a tempo de atrair curadores de importantes museus estrangeiros.

Os diretores da galeria convidaram (com passagem e estadia pagas) representantes de cinco deles – entre os quais o MoMA de Nova York, a Tate Modern de Londres e o Reina Sofia, de Madri – para visitar a mostra e, quem sabe, despertar o interesse dos estrangeiros pela obra de nosso principal pintor moderno, ainda uma presença tímida no mercado internacional.

Apesar de integrar o acervo do MoMA (são 12 as telas do pintor no museu nova-iorquino), Volpi não é disputado por colecionadores estrangeiros como Lygia Clark (1920-1988) ou Mira Schendel (1919-1988), para citar dois exemplos recentes de artistas hiper valorizados depois de suas exposições póstumas no MoMA e na Tate.

O galerista Carlos Dale Jr., sócio de Antonio Almeida, confirmou a presença na mostra de Luis Pérez-Oramas, curador do acervo latino do MoMA e da retrospectiva da brasileira Lygia Clark no museu americano. “O convite é uma estratégia para chamar a atenção dos curadores e diretores de museus para um pintor muito valorizado no Brasil, mas pouco presente nos acervos estrangeiros”, explica o marchand, que tem nove Volpis em sua coleção particular. “Ele é muito sedutor, é quase impossível ter só uma tela dele, o que justifica o termo volpista”, justifica Dale.

Os volpistas, até recentemente, eram poucos. A produção de Volpi está concentrada em meia dúzia de coleções importantes, como Mastrobuono, Giobbi, Biezus e Momesso, que têm juntas mais de mil obras do pintor, um terço das telas que produziu, das quais 2.239 já estão catalogadas. Mas a turma dos volpistas já começa a se espalhar. A mesma galeria dos sócios Almeida e Dale vendeu mais de 200 pinturas do artista para o Norte e Nordeste nos últimos dez anos, ampliando o círculo dos colecionadores de Volpi fora do eixo Rio-São Paulo.

A curadora da retrospectiva, Denise Mattar, teve acesso às principais coleções e selecionou telas que representam o melhor da produção de Volpi desde o começo de carreira. Como o pintor não datava suas pinturas e com frequência retomava formas do próprio passado artístico, montar uma exposição em ordem cronológica era um desafio a mais para a curadoria, que optou por mostrar essa ressonância ao colocar lado a lado telas de diferentes períodos que dialogam entre si.

Volpi começou a pintar há exatos 100 anos, em 1914. Sua primeira exposição individual foi em 1944. A retrospectiva traz pinturas da época da primeira coletiva da qual o pintor participou, em 1925, em que vendeu uma tela que retrata sua irmã costurando. “Esse é, por exemplo, um tema que ele retoma posteriomente em outras telas”, observa a curadora. Há, na mostra, um quadro dessa época. Ele mostra uma família de afrodescendentes em frente ao circo em que se apresentava o palhaço Piolin (1897-1973), hoje pertencente à coleção do chanceler cearense Airton Queiroz, um novo volpista. A curadora teve o cuidado de agrupar trabalhos que mostram a transição da arte figurativa para as “bandeirinhas” e “fachadas” que tornaram o pintor conhecido, após ser premiado na Bienal de 1953 graças à insistência do crítico inglês Herbert Read.

O que Read viu nos anos 1950, o espectador contemporâneo pode conferir em 2014: Volpi não foi um pintor ingênuo, mas um “antropófago natural”, como diz a curadora, alguém que assimilou as lições dos renascentistas (Giotto, Piero della Franesca), dos modernos franceses (Cézanne, Matisse) e dos metafísicos italianos com a austeridade de um mestre. 

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