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Você mais feliz

Vanessa Barbara

Interrompemos nossa programação normal para transmitir o horário gratuito obrigatório de propaganda eleitoral. Dentro de uma semana, voltaremos a temas mais agradáveis.

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Primeiro entra a vinheta colorida do partido, seguida de uma breve introdução ao candidato. Alguns cumprimentam o eleitorado com um "oi, lindinhos" ou apresentam a relevantíssima informação de que Fulana de Tal é "casada, três filhos". Uma postulante a senadora é vista jantando com a família, e há depoimentos elogiosos dos pais, da sobrinha, das irmãs e da copeira.

Dois candidatos aparecem com cachorros no colo - os nomes dos animais são Bigodinho e Chupisca, e nenhum deles parece estar muito à vontade. Chupisca dá uma festiva lambida na cara da candidata, que diz estar "cansada de enxugar gelo e blá-blá-blá".

Outra propaganda fala do Senado em primeira pessoa: "Tenho 190 anos de história, posso ser bem melhor nos próximos oito".

Inúmeros pretendentes a deputado adotam a alcunha pela qual são conhecidos, como João Zelador, Cidão do Sindicato, Adalberto dos Colchões, Alex da Academia, Gê Guarda Noturno, Marquinho do Lixão e o Professor Fláudio, que deve ter sofrido muito bullying dos alunos. Há representantes dos dentistas e das domésticas. Um deles pede: "Aposentados, votem em aposentado", que é um argumento contraditório para quem pretende deixar a aposentadoria. O outro diz: "Vote em gente que gosta de gente".

Uma quantidade desproporcional de candidatos se apresenta como baluarte da renovação, incluindo Dilma e Kassab. Alguns não temem a contradição, prometendo "mudança com tradição" e "renovação com experiência". Uma política declara que "desde 1989, o País caminha para o abismo". Outro argumenta: "Recentemente perdemos a Copa e estamos quase perdendo a Petrobrás".

Numa produção tosca, um candidato e seu "raio privatizador" prometem exterminar comunistas, maconheiros e grevistas. Seu bordão é: "Magoe um socialista, vote no Batista".

Em clara oposição a evangélicos como Clark Crente, do Paraná, o postulante a deputado Toninho do Diabo tem como bordão: "A coisa tá feia, a coisa tá preta, o negócio é votar no capeta".

Temos um Barack Obama no Rio e um Bin Laden em São Paulo. Em Pernambuco, dá pra votar em Jesus.

Carrancudos, os candidatos a governador fazem críticas e acrescentam, abrindo o semblante: "Mas isso está prestes a mudar com o programa Você Mais Feliz (ou qualquer outro nome de efeito), que vai trazer mais contentamento ao cidadão (ou qualquer outra promessa vaga). Por meio dos Centros Integrados de Entusiasmo Direcionado, nós levaremos...".

Em todo caso, a campanha mais instigante começa com a seguinte pergunta, que deixo em aberto para a reflexão dos leitores: "O que você mais deseja para aquela sua amiga que acabou de ficar grávida ou para o seu avô que acabou de fazer 80 anos?".

Minha resposta: felicidades ao casal.