Vestidos para matar

Em Londres, Hollywood Costume traz 100 figurinos icônicos

CYNTHIA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO , LONDRES, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h13

A riqueza da linguagem cinematográfica, aliada ao poder star system, vem apontando tendências comportamentais e, pelo figurino, determinando a magia do personagem e até o que poderá virar moda. O V&A (The Victoria and Albert Museum) abriu em Londres a exposição Hollywood Costume, a maior até hoje sobre a arte do figurino no cinema americano.

Com curadoria de Deborah Nadoolman, autora, entre outros, dos figurinos de Os Irmãos Cara de Pau (1980), Os Caçadores da Arca Perdida (1981) e do clipe Thriller de Michael Jackson, a mostra apresenta cem figurinos icônicos de várias fases do cinema com vasto apoio audiovisual, incluindo os de animações como Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988) e Avatar (2009). O evento, que vai até 27 de janeiro, é patrocinado por Harry Winston, os maiores diamantes das garotas que desfilam no tapete vermelho.

Após abrir em preto e branco, O Mágico de Oz (1939) mergulha no brilho do Tecnicolor. Foi dessa técnica de colorização da película que Adrian, o mais famoso figurinista da era de ouro de Hollywood, tirou partido para criar o único look de Dorothy (Judy Garland) no musical que encanta gerações. Foram confeccionados 12 modelitos idênticos do vestidinho-avental porque Judy suava em bicas debaixo dos refletores. Mas é o modelo pump, de sapato alto e bico arredondado, típico da moda feminina da década de 30, que leva Dorothy ao seu objetivo, que indica o talento de Adrian. O calçado todo bordado de paetê rubi em contraste com a estrada de tijolos amarelos virou símbolo do filme, rivalizando apenas com o da Cinderela. ...E o Vento Levou (1939) ganhou oito Oscars, mas não o de figurino de Walter Plunkett. Dos 14 vestidos de Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) no épico da Guerra Civil americana, o mais emblemático é o de veludo verde que ela costura com a cortina da sala. É ele que marca o antes e o depois da idílica vida da elite sulista e introduz a segunda parte da saga.

Algumas vezes é a inexistência do figurino que fica impressa na memória. Quem esquece a cena na delegacia em Instinto Selvagem (1992, figurino de Ellen Mirojnick) em que Catherine Tremmel (Sharon Stone) dá a famosa cruzada de pernas sem calcinha? Ela estava mesmo sem calcinha? É o figurinista atiçando a fantasia dos fãs.

Não é só o sexy, o escandaloso ou o glamouroso que fazem o bom figurino. Em O Segredo de Brokeback Mountain (2005), criado por Marit Allen para compor Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger), o fato de a roupa dos caubóis mal aparecer sinaliza que a proposta estilística atingiu o objetivo.

A maior influência do cinema na moda é, sem dúvida, o pretinho de coquetel que Hubert de Givenchy criou para Audrey Hepburn viver Holly Golightly em Bonequinha de Luxo (1961). Apesar de o título original, Breakfast at Tiffany's, citar a joalheria nova-iorquina, Holly usou somente joia fantasia, inclusive o famoso colar de pérolas de cinco voltas da primeira cena. Outro exemplo é o mauricinho da discoteca, Tony Manero (John Travolta), em Os Embalos de Sábado à Noite. Suas camisas com golas pontudas viraram hit no fim da década de 70.

Não poderiam faltar na mostra os figurinos da Inglaterra renascentista de Elizabeth I (1998) e sua sequência, também com Cate Blanchett, Elizabeth - A Era de Ouro (2007), que rendeu Oscar de figurino a Alexandra Byrne. No segundo, a designer dispensou os pesados bordados do primeiro - mais fiéis historicamente, porém mais caros para produzir -, vestindo as atrizes de A Era de Ouro com o verdugado (saias à moda espanhola do século 16) de tecidos adamascados. Sacada da talentosa inglesa, sem prejuízo aos personagens.

Há casos em que diretor e figurinista se complementam a tal ponto que mantêm estreita colaboração por anos. Hitchcock e Edith Head, a mais premiada figurinista hollywoodiana, foram parceiros em 11 filmes, incluindo o cult Os Pássaros (1963). Tim Burton e a designer Colleen Atwood já assinaram nove sucessos juntos, de Edward Mãos de Tesoura (1990) a Alice no País das Maravilhas (2010). No quesito complexidade, a série Piratas do Caribe é imbatível. Foram contratados somente para o departamento de maquiagem cerca de 80 profissionais por filme.

E o que seria do cinema sem as deusas do sexo? Cleópatra, levada à tela três vezes, é a mais longeva. Na primeira versão, com a vamp do cinema mudo, Theda Bara (1917), os próprios atores compunham o visual de seus personagens. Sem ajuda profissional, ela bolou uma Cleópatra art déco com renda francesa, técnica do fim da Idade Média. Já com a profissão regulamentada, Travis Banton desenhou a Cleópatra de Claudette Colbert (1934) com suntuosos vestidos de lamê de corte em viés, ambos inexistentes no Egito antigo. Porém foi o terceiro e primeiro em cores, com o casal Taylor-Burton, in love na vida real, que criou furor.

Os 24 figurinos de Irene Sharaff para Liz Taylor levaram o look dos anos 60 para a via do exotismo com olhos esfumaçados por khol. Liz é a mais famosa das rainhas do Nilo da tela e a mais caricata. Seu corpo violão, acentuado por faixas na cintura, e o busto pontudo do soutien foguetinho, marca registrada de seu sedutor estilo pessoal, eram a negação da silhueta longilínea do Egito antes da era cristã. Mas nós, fãs, nem aí com a fidelidade histórica, babamos até hoje com o visual da diva do cinema.

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