Vesselina, uma voz rara

Cantora búlgara revelou-se artista de exceção em recital na Sala São Paulo

O Estado de S.Paulo

04 Abril 2013 | 02h09

Para uma cantora de exceção, não basta uma bela voz, um timbre bonito. É necessário ter afinação, adequação estilística ao repertório, técnica vocal sólida e, quando se fala do universo lírico, uma outra qualidade, a teatralidade. A meio-soprano búlgara Vesselina Kasarova, 47 anos, é tudo isso e algo mais. Passeia pelos registros grave, médio e agudo de sua voz de amplíssima tessitura com uma naturalidade de arrepiar. Não há quebras entre os registros. Capaz de virtuosismos impressionantes nos malabarismos que requerem as árias, cavatinas e cabalettas de Rossini, também brilha nas árias de maior intensidade emocional em Mozart. Ou seja, une o melhor dos mundos quando se pensa numa cantora lírica.

A Sala São Paulo não estava cheia anteontem, no concerto de abertura da temporada 2013 do Mozarteum Brasileiro, provavelmente por causa de convidados dos patrocinadores que descartaram seus ingressos. Uma pena, pois foi uma noite rara, em termos musicais. Se o humor suíço das duas peças para cordas do compositor contemporâneo Fabian Müller, de 48 anos, não comove abaixo do Equador, como aconteceu na abertura do concerto, a sequência alterou-se radicalmente com a entrada no palco de Kasarova. Com quatro hits de Mozart na frasqueira (dois de As Bodas de Fígaro, dois da Clemenza di Tito), ela conquistou o público, sobretudo nas conhecidíssimas "Non so più cosa son, cosa faccio" e "Voi che sapete".

Mas não mostrou todos os seus maravilhosos recursos vocais. Guardou os mais pirotécnicos para a segunda parte: cinco criações matadoras de Rossini, das óperas Tancredi e Semiramide. Em menos de 10 minutos incendiou a Sala São Paulo. Primeiro com o recitativo "Oh patria", expondo seus poderosos graves; em seguida nas crescentemente vertiginosas "Tu che accendi questo core" e "Di tanti palpitti", brincando no registro médio e deslumbrando nos agudos. Retomou, no rondó "Perché turbar la calma de questo cor", a expressividade que já expusera em Mozart.

De certo modo, a excelente interpretação da Camerata Bern da Sinfonia n.º 40, K. 550, acalmou os ânimos. Em termos, já que a teatralidade angustiada da penúltima das três grandes sinfonias mozartianas assemelha-se muito ao universo lírico, injetando um dramatismo até então inédito no domínio orquestral. Liderada com competência e talento pelo violinista Florian Donderer, a Camerata conseguiu provocar impacto nesta obra tão repetida de modo burocrático mundo afora.

La Kasarova retornou para o grand finale, o recitativo "Eccomi alfine in Babilonia" e a cavatina "Ah! Quel giorno ognor rammento", da ópera Semiramide, de Rossini. Mas a cereja que em definitivo deixou a plateia em estado de graça foi o extra da diva. Simplesmente a ária de Rosina "Una voce poco fa", do Barbeiro de Sevilha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.