Ver para não crer

Mentir para os eleitores gera votos, sugere estudo

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2017 | 03h01

Aqui vai uma notícia que há de agradar os desabonados ameaçando concorrer à presidência em 2018. Mentir para os eleitores gera votos. O que é isso, a colunista agora vai escrever sobre o óbvio? Calma, já explico. Mesmo os desesperançados, aqueles que nunca recebem malas de R$ 500 mil, aqueles que consideram a expressão “político mentiroso” um pleonasmo, podem desconfiar que as pedaladas verbais, se acumuladas como propinas do Joesley, seriam punidas, de preferência, nas urnas.

Não é o caso, mostra um estudo recém-publicado por pesquisadores de quatro universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra. Na campanha presidencial americana de 2016, os fatos foram tratados como os criados do castelo do Marquês de Sade. Mas os cínicos aconselhavam: Não tratem as palavras do homem literalmente e sim seriamente. Seis meses em 2017 mostraram ao mundo que o literal era só aperitivo.

Os pesquisadores se concentraram em dois momentos da campanha de 2016, o discurso do futuro presidente na convenção republicana e as afirmações feitas no primeiro debate com Hillary Clinton. No estudo, apresentaram aos eleitores correções das lorotas que ouviram. Deu-se o contrário do conselho cínico: os eleitores receberam os fatos literalmente mas não seriamente. Em outras palavras, diziam, OK, você me convenceu, acredito que 2+2 = 4 mas confio mesmo é no candidato que diz, 2+2 = 5.

Na última semana, o Prêmio Pinóquio não foi para o loroteiro chefe porque, convenhamos, o homem é hors concours. Primeiro, ele inventou que tinha recebido um telefonema do presidente do México reconhecendo a eficácia da patrulha de fronteira. Patavinas. No dia seguinte, ele disse que tinha recebido parabéns do chefe nacional dos escoteiros americanos pelo discurso que fez na semana anterior e que provocou algum escândalo. Lhufas. O chefe dos escoteiros fez o contrário, foi se desculpar com as famílias dos guris por terem sido confundidos com frequentadores da mansão da Playboy nos anos 1970.

Ainda há quem fique sacudindo a cabeça com incredulidade. Por que espalhar balelas que, além de provocar incidentes diplomáticos e mal-estar doméstico, podem ser facilmente refutadas? O estudo acadêmico confirma o que presidente que não gosta de estudar sabe. Seus eleitores não são refratários a fatos. Se assim fosse, encheriam o tanque do carro com água ou colocariam os dedos na tomada. Esta é uma boa notícia do estudo. A má notícia: depois de admitir que ouviram falsidades, os mesmo eleitores não ficaram menos inclinados a votar no candidato que mentiu.

E, como hoje em Washington, mentira dá mais do que chuchu na serra, a quantidade favorece quem mente. Cientistas confirmam que o nosso cérebro é equipado para produzir doses limitadas de ceticismo. Quando somos expostos a um dilúvio de bazófias, a imunidade cai. O cérebro perde a capacidade de duvidar e o eleitor tende a acreditar que o presidente vai passar as próximas duas semanas governando de um campo de golfe, como ele garantiu, num tuíte.

Desejo boa sorte aos pais dos escoteiros na tarefa de explicar que o presidente inventou, mas não está isento da obrigação de dizer a verdade. Pais e educadores americanos estão vivendo o dilema de convencer as crianças de que há consequências para mentir, embora elas constatem o contrário todos os dias.

Não tenho dúvida de que há gente assistindo este espetáculo do Brasil e esfregando as mãos. Se a cotação dos fatos está abaixo de um Bolívar, nossa corrida presidencial de 2018 vai atrair ainda mais embusteiros? O desafio, em casa, na escola, na mídia passou a ser muito maior. Vai ser preciso mais do que condenar as falsidades. Vai ser preciso destacar a importância de decidir não enfiar os dedos na tomada.

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