Vencedores

Não era como a São Silvestre em que já se sabe que o ganhador será um africano magrinho

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2017 | 02h00

Eu sei, eu sei. Às vezes, parece que nada adianta, que nada vai dar certo, que quem escapar da miséria, do assaltante, da bala perdida e da bomba do terrorista a epidemia pega, e que o fim dos tempos está ali na esquina. Mas pense o seguinte: você pertence a uma raça de vencedores. Os antepassados de toda a sua raça - a humana - têm, todos, as mesmas características positivas em comum. Todos, sem exceção, atingiram a maturidade, pelo menos sexual. Todos sobreviveram a pestes, guerras, má nutrição e desastres naturais e chegaram à idade de ter filhos. E todos - olha só a sua sorte - eram férteis. Não eram, necessariamente, todos heterossexuais, mas, pelo menos uma vez na vida, foram. E, por acidente ou não, tiveram pelo menos um filho com um parceiro do outro sexo.

Quer dizer, você pertence a uma linhagem admirável que nunca se deixou abater, e venceu todos os obstáculos para que você e a sua raça estivessem aqui hoje, se queixando da vida. Você mesmo não se dá conta do que passou para existir. Do seu feito, do seu mérito em sair do nada - ou quase nada, uma larva - e ficar desse tamanho. Não pense que você estava sozinho no sêmen do seu pai. 

Que era moleza, só chegar ao útero da sua mãe assoviando e pimba, fecundar o óvulo. Havia milhões de outros espermatozoides no sêmen do seu pai, naquela particular jornada. Milhões. E não era, assim, como a São Silvestre, em que já se sabe que o vencedor será um africano magrinho. Ou como a Fórmula Um, em que o resto da equipe trabalha para um vencedor designado. 

Ninguém é favorito, ninguém é azarão na corrida para o óvulo. E não tem aquela de “Passa, irmãozinho”, “Não, passa você”. Era cada um por si. E você venceu! O espermatozoide que deu em você derrotou milhões de espermatozoides que deram em nada e chegou na frente. Aquele berro que você deu ao nascer foi um grito de vitória, um “Primeirão!” em linguagem de recém-nascido, guardado na garganta durante nove meses. E você tinha todas as razões para festejar. Como hoje tem todas as razões para se sentir um vencedor, membro de uma casta de vencedores - os que nasceram, os que estão aí. Pense naqueles espermatozoides que não conseguiram. Que tinham o mesmo objetivo, a mesma vontade de ser alguma coisa na vida, e fracassaram. Para eles, não adiantava chegar em segundo. Não havia vice nem repescagem. Ou chegavam em primeiro ou estavam condenados a não existir. E o primeiro, o primeirão, foi você. Ponha aí no seu currículo: “Vencedor da Corrida para o Óvulo”, o local e a data.

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