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Velhos presidentes contam suas histórias

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Ignácio De Loyola Brandão

Nos anos 60, trabalhar no jornal Última Hora era o fascínio de um grupo de jovens na casa dos 20 e poucos anos. Nunca imaginei que escreveria uma frase assim, na casa dos 20 anos. Éramos atrevidos, divertidos, presunçosos, nos achávamos, mas, acima de tudo, adorávamos o ofício. No começo da tarde, redação vazia, chegava o José Eugênio com sua cara de bebê malandro, sentava-se à máquina e escrevia. Redigia uma nota, ia para o telefone, redigia outra, ia para o telefone, e assim as horas passavam. Passavam mesmo, porque conseguir uma linha naquela época de Companhia Telefônica Brasileira era ganhar na sena. José Eugênio escrevia sobre a noite, sobre o teatro musical, o rebolado, as vedetes, enfim cobria os palcos, do TBC ao Natal onde Celia Coutinho, Marly Marley, Irene Bertal, Dayse Paiva, Lilian Fernandes exibiam corpos monumentais, como se dizia.

Na tarde de 25 de agosto de 1961, José Eugênio, já por todos tratado intimamente como Jô Soares – a quem invejávamos por viver nesse meio de televisão, cinema, estrelas, humor – chegou junto comigo à redação e o Celso Jardim, chefe de reportagem, nos chamou: “Jânio acabou de renunciar. Você Loyola, vá para Cumbica – hoje Guarulhos – porque o homem está saindo de Brasília e vai para lá. E você Jô faça a repercussão no meio teatral, pegue gente boa”. Renunciou porquê? Perguntamos. E o Celso: “Disse ele que foram forças ocultas”.

Aquela foi a frase que percorreu o Brasil como um raio. Dita e repetida, teve mil interpretações políticas, sociais, escandalosas, religiosas, teológicas, antropológicas, econômicas, pornográficas. Virou meme (palavra que levou 50 anos para ser criada). Até hoje ninguém sabe direito o que Jânio quis dizer. Talvez o Jorge Caldeira, a Heloisa Starling ou a Lilia M. Schwarcz. Uma versão que logo circulou e pegou, é que a “marvada” tinha a ver com a renúncia. Marvada ou danada. Fosse agora seria crack.

O que sei é que um mês depois, o Jô havia criado um personagem, o presidente da força oculta. Era uma história que se passava no futuro, 50 anos depois, e retratava um velho magro, mal-humorado, de óculos, sentado num bar da periferia. Era conhecido pelo que entornava de “marvada” e pelo apelido: força oculta. O força oculta já chegou? O força oculta está ali na mesa dele. O força oculta já contou a história hoje? Não veio, será que o força oculta renunciou?

As pessoas entravam, pediam uma no balcão e perguntavam:

– Então, presidente, conta aquela das forças ocultas!

– Conto! Se pagar uma.

Pagavam e ouviam uma longa história sobre as forças ocultas, que eram múltiplas, ferozes, agressivas, invencíveis. Sobre as rinhas de galo e a proibição dos biquínis. Com a sua imaginação, Jô, a cada dia criava variantes e, no fim, era quase um romance. Nunca soube se ele a escreveu, se fez um quadro na tevê ou monólogo. O que posso dizer é que de tanto ler o noticiário dos tempos que correm (argh), fiquei tão entojado (conhecem esta palavra?), nauseado, que criei outro presidente no futuro .

Daqui a 60 anos, este fica na porta de uma chacrinha em uma cidade do interior. Há décadas fica ali, contando histórias. Não precisa pagar uma, nem dar propina, ele fala. Mas quer ser chamado de “presidente”. Por baixo da camiseta, usa uma velha faixa presidencial, esgarçada pelo uso, puída, chamuscada, manchada. Chegam:

– Como é presidente? E a fábrica de postes?

– Só vendi dois, um fracasso. Num valiam nada.

– E a da antena de celular só para seu aparelho?

– Celular? Tinha na parede um fone de manivela que precisava chamar a telefonista local.

– E os mega-aparelhos de tevê em terceira dimensão doados pelas empresas?

– Mega-aparelho? Eu tinha uma tevê preto e branco, com Bombril na antena. E meu radinho era um transístor que só pegava uma rádio, era propaganda.

– Conta aquela do sujeito mais honesto do mundo. E Deus como fica?

– Eu disse dos homi. Deus não é homi. Nem tá nesse mundo.

– Como é presidente? Conta daquela quitinete que o barbudinho da mochila te deu na Praia Grande?

– Quitinete? Aquilo era barraca de campingue, nem era minha, um amigo mi emprestava. Nunca tive nada. Só duas raquete de frescobol.

– Como é presidente? Conta daquele tempo que você fazia uma palestra por um milhão de pesos argentinos.

– Milhão? Nem sei o que é isso. Tava acostumado a falá em carroceria de caminhão, em banco de praça, em cima de caxote, sou vítima de calúnia.

– Presidente, como é que se chamava mesmo aquele seu amigo?

– Que amigo?

– Aquele que todo mundo chamava de amigo do presidente!

– Num sei, num tinha nome, era meu amigo, só chamavam o homem de meu amigo, ficou meu amigo.

– Nunca foi amigo?

– Num sei, cumo vô sabê? Nunca sobe nada, nunca vi nada, nunca falei nada, sô inocente, num conheço ninguém, vô processá, tudo intriga de inimigo. Uma ciumeira deles.

– Deles quem?

– Eles, cê sabe. Eles!

 

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