Gal Opprido/Divulgação
Gal Opprido/Divulgação

Valores do Brasil no quintal de Ná

Em seu álbum mais autoral, a cantora e compositora reúne parceiros que se inspiraram em seu ''ambiente bucólico''

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2011 | 00h00

Em vez de observar o mundo, que ficou grande demais, Ná Ozzetti nem precisou sair de casa para explorar uma porção de valores que pedem brevidade para ser reavaliados. Seu novo álbum, Meu Quintal (Borandá), fala com delicadeza e lirismo, sem mágoa ou nostalgia, das teias do tempo, dos guardados de um baú existencial, de natureza, amor, perdas e do que ainda precisa e dá para ser preservado. Não por coincidência, a água é palavra corrente em várias letras.

Às vezes em tom contemplativo, que só a calma de um lugar silencioso possibilita, mesmo que não seja pelas próprias palavras, mas de vários parceiros, Ná encontra equilíbrio "na tangente". E fala para o mundo a partir de seu canto reservado, de onde sai para dois shows na quarta e na quinta no Sesc Vila Mariana.

"Como faço só as músicas, não me sinto com tanta propriedade para afirmar isso, mas quando vieram para mim essas letras, bateram muito fundo nesse aspecto dos valores", diz Ná. Em seu álbum mais autoral, ela assina 11 das 12 canções, com parceiros como Luiz Tatit, Alice Ruiz, Zélia Duncan, Carol Ribeiro e o mineiro Makely Ka. Porém, o grande achado do álbum (que ela mesma reconhece) é A Velha Fiando, de Tatit e Dante Ozzetti.

Algumas dessas canções de letras belíssimas e intrincados desenhos melódicos foram de fato compostas no quintal de sua casa, no interior de São Paulo, como as parcerias com Alice Ruiz (Baú de Guardados, Ser Estar) e Arthur Nestrovski (Tupi). Mas mesmo compositores e letristas urbanos como Tatit e Zélia "garantem a florada", como dizem Alice e Neco Prates em Acordo de Amor. Ou seja, descrevem lugares e situações que orbitam a esfera espacial da cantora, remetendo a esse "ambiente bucólico", cheio de árvores. A faixa-título tem versos de Tatit como "Meu quintal é um sertão integral sem divisão" e "Portugal cabe inteiro nessa mata", que acabam tendo também "uma relação muito forte com as coisas do Brasil".

As parcerias com Zélia e Nestrovski são de 2003/2004, período em que Ná começou a planejar esse álbum. "Depois vieram outros projetos e acabei abandonando um pouco essa ideia. Tinha essas duas canções e Entre o Amor e o Mar (parceria com Tatit), que Jussara Silveira acabou gravando. As outras foram feitas agora."

O valor simbólico desse "quintal" inspirador também diz respeito à coerência artística e à segurança de trabalhar com antigos colaboradores, como é o caso de Mário Manga, produtor do CD. Ele - que toca guitarras, violoncelo e violão tenor - e os outros sofisticados músicos (e instrumentos) são os mesmos do bem-sucedido Balangandãs: Dante Ozzetti (violões), Sérgio Reze (bateria e gongos melódicos) e Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo).

Equilíbrio. O processo de trabalho também foi idêntico nos dois álbuns: "Dante e Manga pegaram metade do repertório cada um para fazer os pré-arranjos e depois levamos para desenvolvê-los com a banda", diz Ná. Porém, claro, cada um chega a um resultado distinto pela própria natureza das canções. Ná já vem com ideias de arranjos embutidas nas composições, mas eles acabaram resultando de criações coletivas.

Com Meu Quintal, ela dá continuidade à celebração de seus 30 anos de carreira, que começou com Balangandãs em 2009. Adequadamente, também faz par com aquela homenagem a Carmen Miranda em espontânea referência às origens de seu trabalho com o Grupo Rumo, que equilibrava inovações com referência aos clássicos da canção popular brasileira. Essa é a peculiaridade da cantora-emblema da chamada vanguarda paulistana, intérprete de voz tão sutil quanto versátil.

NÁ OZZETTI E BANDA

Sesc Vila Mariana.

Rua Pelotas, 141, telefone 5080-3000.

4ª e 5ª, às 21 h.

R$ 8 a R$ 32.

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