Uma vida vivida à sombra da Estação da Luz

Foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Ele chegou em casa e disse à minha mãe: a Estação da Luz acabou. Um incêndio destruiu tudo. Eu tinha 10 anos em 1946 e vi as lágrimas nos olhos dele. As notícias corriam lentamente, os jornais viriam no dia seguinte, o que chegava vinha pelo rádio, também demorado. Era outro o tempo, a velocidade.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2015 | 02h00

A Estação da Luz era um símbolo para qualquer ferroviário. Representava firmeza, beleza, poder. Majestosa, nas palavras de meu pai, um homem dado à leitura e aos dicionários. Hoje, percebo que a estação era como a Sé, o Vaticano, o Catete, o Museu do Ipiranga. Naquela noite, depois do jantar, como faziam todos, as cadeiras foram colocadas nas calçadas, vizinhos vieram e o assunto foi o incêndio. Boa parte dos homens eram ferroviários uns da Araraquarense, outros da Paulista. As ferrovias davam emprego firme, asseguravam o futuro. Estavam todos chocados. Como seria agora sem a estação?

Eu rondava aquele gente excitada e triste e fiquei desanimado, ainda não conhecia a Luz, de que tanto falavam. Meu pai guardou por muitos anos, em uma cesta de Natal de vime, onde colecionava coisas importantes para ele, os jornais dos dias seguintes que falaram da catástrofe. Todos se referiam ao incêndio como catástrofe. Todo ferroviário tinham certeza de que o fogo tinha sido criminoso. Não me lembro os motivos alegados.

Depois, veio a reconstrução ou restauração, a estação estava salva, a esperança voltou, meu pai nos trouxe a São Paulo, ao Luis, meu irmão, e a mim. Desembarcamos e ele circulou por cada metro da estação, explicando, orientando, ao mesmo tempo que parecia fazer uma verificação de que tudo tinha sido bem refeito. Meu pai cumprimentava muita gente, explicava: são ferroviários da Noroeste, da Sorocabana, da Mogiana, da Santos a Jundiaí, da Bragantina, nem sei quantas ferrovias existiam. Disse que aqueles homens vinham como se fossem em romarias a um lugar sagrado. Muito depois, entendi a imagem e vi o que a Luz significava.

Finalmente, em 1957, aos 21 anos, fiz a viagem definitiva, deixei minha cidade, mudei-me para São Paulo. Tremi quando o trem se aproximou da Luz. Por cima de mim era um emaranhado de fios elétricos, como se fossem teias de aranha, não mortais, mas protetoras. Minha chegada à Luz está em meu romance Bebel Que a Cidade Comeu, o primeiro que escrevi. Nele, as sensações do jovem interiorano, cheio de fé, de medo, de angústia e de felicidade. Não conhecia a cidade, não sabia andar, era movimentada, trânsito pesado, burburinho, barulho. Um amigo, o ator Sebastião Campos, também araraquarense, que fez mais tarde bela carreira em São Paulo, tinha prometido me buscar. E se ele não estivesse na estação? Fazer o quê? Ir para onde?

Estações têm um cheiro peculiar de ferro, óleo, graxa, suor, gente. Assim que desci, senti o cheiro metálico do ar. Aquilo, para mim, era a cidade grande. Nunca mais esqueci, vez ou outra reencontro este cheiro que pertence à Luz, é todo dela.

Quando li o e-mail de José de Souza Martins, dirigido a todos os acadêmicos, na manhã de segunda-feira, falando do incêndio no Museu da Língua Portuguesa, estremeci. Outra vez? Não! Disse Martins: “Os noticiosos destacam apenas que é o Museu da Língua Portuguesa que está sofrendo o incêndio. Mas o material do museu pode ser reposto. É material virtual, cujas matrizes são guardadas em outro lugar, segundo depoimento que acabo de ouvir. Mas a Estação da Luz não pode ser reposta. Ela é a grande perda. Foi referência do esplendor da São Paulo do café. Marco da Revolução de 1924, foi tomada pelos revoltosos na manhã de 5 de julho. A biografia de milhões de paulistas está, de algum modo, ligada à História da Estação da Luz e da São Paulo Railway. A memória de São Paulo está ardendo naquelas chamas. Outro dia, foi o Memorial da América Latina. Há poucos anos foi o arquivo e museu histórico do Juqueri, preciosos registros da nossa história da loucura. O antigo Hospício de Alienados, no Parque Dom Pedro II, está abandonado, à espera de que as chuvas derretam suas taipas seculares, as que testemunharam o delírio de Paulo Eiró, que ali balbuciou seus últimos poemas”.

O poeta Claudio Daniel postou um pedido que sintetizo. Ele prega uma investigação sobre a situação dos equipamentos culturais no Estado, abandonados, recordando os incêndios do Teatro Cultura Artística, do Liceu de Artes e Ofícios, do Instituto Butantã  e do Memorial da América Latina e o fechamento, por anos, do Museu do Ipiranga e do Museu do Imigrante, além da desapropriação do Conservatório Dramático e Musical, que levou à dispersão de sua biblioteca e ao encerramento de suas atividades.

Segundo as notícias desta terça-feira, em que escrevo, a Luz parece salva. E digo que naquela manhã de março de 1957, não vi o Sebastião Campos na plataforma. Gelei, subi as escadas. Ele estava à minha espera em cima. Pagava-se para descer à plataforma e era preciso economizar, estávamos começando. Aliviado, comecei minha vidinha aqui, estou a levá-la como posso. Sempre à sombra da Luz. E não pensem que é trocadilho ruim, é a imagem que me ficou.

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