Uma aposta na invenção

Eryk Rocha fala do documentário que venceu o prêmio Redentor de direção no Rio

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2012 | 03h09

Eryk Rocha admite que foi uma alegria receber o Redentor de direção no Festival do Rio das mãos do indo-americano Rajendra Roy. Não foi por deslumbramento. "Não falo muito bem inglês, mas quando me traduziram achei simpático. O cara é diretor de programação do MoMa, de Nova York. Lembrou que o Festival do Rio é internacional e que o meu olhar era internacional sobre um fenômeno brasileiro." O fenômeno é o ator, cantor e compositor carioca Jards Macalé, que Eryk retrata - uma palavra mais adequada do que biografa - em seu documentário vencedor.

É o quinto filme de Eryk Rocha, o sexto com o curta Quimera, e ele é, cada vez menos para a mídia, o filho de Glauber Rocha. Quando surgiu, há dez anos, era assim que a crítica o chamava ou rotulava, mas bastou uma década para que Eryk adquirisse identidade própria. "Conhecia o Jards de vista, mas só de cumprimentar. A aproximação ocorreu durante o processo de realização de Jards. Ele havia visto meus filmes, me chamou para uma parceria. Eu me interessei porque fechava com uma coisa que me atrai. A maioria dos documentários musicais olha a obra pronta, o artista consagrado. Eu acompanhei o processo de criação do Jards e foi fascinante."

De cara, o filme parece que vai segurar a ideia de Jards Macalé como artista excêntrico, senão marginal. Independente, com certeza. Jards não frequenta aquilo que antigamente se chamava de 'parada de sucessos'. Não vende 1 milhão de discos, mas é respeitado por sua integridade artística - e pela ousadia. "Jards tem quase 70 anos, mas trafega muito entre a juventude, tem diálogo com os jovens, e isso faz parte da sua riqueza", define o diretor. Durante algumas semanas - quatro -, Eryk Rocha acompanhou com sua câmera o processo de criação do artista.

"A equipe era pequena, quatro ou cinco pessoas. Entramos no estúdio e a ideia era fazer com que a equipe de filmagem se integrasse aos músicos. A câmera virou um instrumento, os instrumentos musicais colavam-se à câmera, organicamente. Não há coisa que me interesse mais. Isso, sim, foi uma herança de meu pai. Embora minha mãe (Paula Gaitán) tenha sido mais importante na minha formação - tinha 3 anos quando ele morreu -, aprendi desde cedo que arte e vida não tinham limites para Glauber, como para outros artistas viscerais que admiro. Esses limites também não existem para mim."

E como existiriam? Eryk sempre respirou arte. O pai e a tia (a atriz Anecy Rocha) eram ligados ao cinema, a mãe é diretora, o avô, pelo lado materno, era poeta. A irmã, Ava Rocha, é cantora, compositora e montadora. Uma família de artistas, mas ele nunca sentiu o peso, e menos ainda o de ser filho de Glauber Rocha, o lendário profeta do Cinema Novo. "Acho que, se existia um peso, estava na cabeça dos outros." Eryk começou no documentário - Rocha Que Voa, Pachamama, Intervalo Clandestino. Incursionou pela ficção - O Transeunte. Todos os seus filmes se inscrevem no que os críticos chamam de cinema de invenção, mas também pode ser de bordas. Um mix de documentário e ficção. Assim como não existem limites entre arte e vida para Eryk, os gêneros também não o restringem.

"O cinema para mim não é só linguagem. É uma ferramenta de compreensão/investigação do mundo." Daí a sua identificação com um artista visceral como Jards Macalé. No Rio, agradecendo seu prêmio, ele o dedicou a duas das mulheres de sua vida - a irmã, Ava, pela sobrinha que vai lhe dar (a menina nasce no mês que vem), e a namorada, Gabriela. "Ela está começando a fazer cinema agora, mas é muito talentosa. Tenho a voz dela no filme. Os dois poemas em Jards são recitados pela Gabriela."

Foram 80 horas de gravação em digital, reduzidas para menos de duas horas na montagem. Na sexta, mal chegou a São Paulo, Eryk já correu ao Arteplex Itaú, onde ocorreria à noite a primeira exibição do filme. Foi testar imagem e som, para se assegurar de que a projeção estivesse nos trinques. "O DCP (Digital Cinema Packing) é irreversível, mas no Festival do Rio os problemas de projeção mostraram que ainda há um longo caminho para o ajustamento das salas no Brasil. A projeção digital em 2K garante imagem e som de primeira, mas essa garantia ainda é condicionada por fatores como a condição das salas e dos próprios arquivos que contêm o filme. Um arquivo rompido pode gerar o desastre", ele avalia.

Imaginário. O ano que vem promete ser de muito trabalho, e ele está envolvido em dois projetos pessoais - um documentário sobre futebol e uma ficção que vai se passar na noite do Rio, sobre um motorista de táxi. O futebol é uma paixão, mas Eryk não vai se debruçar sobre um time nem um jogador. O próprio título - Multidão - aponta para seu recorte. "Quero falar do futebol como ele existe no imaginário dos brasileiros. No seu, no meu, no nosso."

Eryk também produz o novo longa de sua mãe. A própria Paula Gaitán monta atualmente Sobre a Neblina, que rodou no interior de Minas, com base no romance da autora mineira Christina Tassis. "É um filme muito especial, muito bonito. Não se assemelha a nada produzido no cinema brasileiro atual. Acho que vai ter uma vida internacional, vai encontrar seu espaço no cinema do mundo."

Exatamente como Rajendra Roy disse de Jards, ao atribuir a Eryk o Redentor de direção. "Não é preciso conhecer Jards Macalé para apreciar o filme. É um belíssimo exemplar de cinema de invenção." E a invenção, na arte e na vida, é o que interessa a Eryk Rocha.

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